sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O Pregador



Num fim de tarde de um dia soalheiro de Primavera, sentei-me na esplanada de um bar e enquanto tomava um café passava os olhos pelo jornal. Sentado de costas para um palco, onde aos fins-de-semana grupos de música popular animavam as tardes e noites. A minha atenção ia sendo atraída pelas pessoas que passavam, se a maioria delas nada me dizia, reparei, no entanto, em alguém que transportava uma estranha carga, um tripé de pauta de música além de uma pasta arquivo. Um homem caminhando em passo decidido que se dirigia ao palco. Tinha um aspecto cuidado, vestia com sobriedade, aparentava uma idade entre os 45 e 50 anos. Rapidamente saiu da minha visão, supus eu que se dirigiu para o palco e depois da sua passagem voltei à minha leitura.
Na posição que me encontrava não dispunha de ângulo visual para observar o que se passava no palco. No entanto começou a chegar até mim uma espécie de discurso, semelhante a oradores políticos ou a pregadores de alguma nova igreja, não liguei muito até ao momento em que bem forte chegou aos meus ouvidos num tom imperativo, as palavras:
- Não me Vencerás! 
Virei a cabeça com alguma curiosidade, mesmo assim do lugar onde me encontrava, do palco só avistava um pequeno fragmento, e da pessoa via essencialmente as mãos, que gesticulavam ou descansavam sobre a estante do tripé que lhe servia de púlpito, ao mesmo tempo que ia passando algumas folhas, do que ia lendo. Fui vencido pela curiosidade e coloquei-me de forma a ter melhor visibilidade para o palco. Com renovada energia voltou a pronunciar:
- Não me Vencerás! - e continuou- persegues-me há centenas de milhares de anos, só existes porque eu existo. Por isso não me vencerás. Sei que muitas vezes pareço vencido, e pior ainda que me vergo perante a tua vontade, uma parte de mim colabora contigo, e outra te combate sem tréguas, acontece vezes sem conta que com uma mão te combato e com a outra golpeio o meu próprio peito, mas sempre renasço melhor, mais forte e cada vez mais resistente. 
-Nesta altura parou um pouco, fez um gesto de quem coloca o microfone em melhor posição, levou a mão à altura da boca como quem bebe um pouco de água. Nervosamente deu uma olhadela aos papéis e retomou:
- Não me vencerás! - Os olhos voltaram-se para uma plateia vazia, os braços agradeceram os aplausos inaudíveis de ouvintes inexistentes, e continuou:
-A tua perseguição tornou-me mais forte, em cada dia perdi e venci. Sei que colaborei contigo e fiz muitas vezes a tua tarefa, que trago comigo todas as virtudes e maldades da humanidade. Sou mau e bondoso, avarento e generoso, pervertido e inocente, demónio e santo, odeio com a mesma força com que amo. Mas vive em mim uma infinita capacidade de recomeçar, aprecio mais a beleza que a fealdade, os gestos de amor que os de ódio, a generosidade que a avareza, a inocência que a perversão e mais o bem que o mal. - Interrompeu por instantes o seu discurso como para tomar fôlego, o seu corpo retesou-se parecendo crescer, virou algumas páginas, recuou um pouco, voltou a aproximar-se do púlpito e gritou:
- NÃO ME VENCERÁS… persegues-me há centenas de milhares de anos, mas só existes porque eu existo, porque só eu tenho consciência da tua existência, só eu te sinto cada vez que te enfrento, quando me derrotas um pouco, quando o desânimo se apodera de mim, pensas que vais vencer, mas digo-te que te enganas se um dia, que nunca chegará, tu me venceres definitivamente, também tu deixarás de existir. Estamos tão ligados que a existência de um depende da existência do outro. A tua vitória afinal será também a minha, por isso NÃO ME VENCERÁS! – Gritou mais uma vez, estava empolgado todo o seu corpo transmitia aquela estranha mensagem, eu tinha-me aproximado mais do palco, tudo me era visível mesmo o não existente, a sua mão pegou numa imaterial garrafa vazia de água, que invisível e silenciosamente foi despejada num copo feito de nada, para saciar uma sede infinita de ser ouvido, cuidadosamente tirou do bolso um lenço feito de um tecido ainda não descoberto e limpou um suor que não corria pelo rosto. Tudo nele era presente e ausente uma mistura entre miragem e realidade, mistério e claridade, sabedoria e loucura. Agradeceu mais uma vez os aplausos de mãos que não batiam, colocou as mãos sobre o púlpito e o rosto adquiriu uma estranha serenidade, como se tivesse enfim terminado a sua missão.
Um rumor repentino me despertou, fiquei estupefacto quando reparei que junto ao local onde estava o palco se aproximavam como caçadores e com algum cuidado um carro da Polícia, juntamente com uma Ambulância da qual saíram dois homens bastante robustos de bata branca, talvez enfermeiros, um dos quais trazia uma espécie de saco, subiram cada um por um dos lados do palco enquanto os polícias tomavam posição, como para acautelar alguma fuga, quando os homens de bata branca se dirigiam para o pregador e com alguma violência o manietaram. Afinal o saco era uma camisa-de-força, apesar da resistência do pregador que fez tombar o improvisado púlpito, levando que os papéis, com a ajuda da brisa que corria, fossem espalhados pelo chão, o homem foi dominado facilmente e conduzido à ambulância, um polícia vendo a minha perplexidade acabou por me dizer:
- Sabe, é um doido que fugiu do manicómio, não diz coisa com coisa vai voltar ao internamento. 
Os papéis continuavam a espalhar-se pelo chão, por curiosidade comecei a juntar alguns para tentar perceber a razão das suas palavras. 
Lentamente fui, passando pelos olhos uma a uma as folhas caídas, tinham todas a mesma mensagem escrita em letras que ocupavam toda a página.
- “NÃO ME VENCERÁS Ó MORTE, PORQUE EU SOU TODA A HUMANIDADE, A PASSADA A PRESENTE E A FUTURA E SÓ A HUMANIDADE TEM CONSCIÊNCIA DA TUA EXISTÊNCIA, SE ME VENCERES SERÁS VENCIDA, DESISTE: NÃO ME VENCERÁS.”.




                                                                                      


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