sábado, 7 de novembro de 2015

O Velho


Sentado num banco do jardim, o Velho olhava para os transeuntes, pelo seu espírito passavam imagens da sua vida, no tempo e caminho percorrido até esse momento. 
Já não se olhava ao espelho, nem contava as rugas pronunciadas, o olhar cansado pela vida e pelas insónias, de horas de sono sempre tão reduzidas e sobressaltadas, a barba desarranjada, branca, farta e suja, o cabelo alinhado apenas com as mãos à laia de penteado, levava vestido a roupa que afinal nunca tirava: um sobretudo cuja cor era a variedade de nódoas que o cobriam, camisolas e camisas que nem ele próprio saberia dizer quantas, calças presas por um cordel e umas botas já muito gastas, era assim que se dirigia para o seu banco todos os dias. 
Apreendeu a solidão. Aprendeu a olhar o Sol como um relógio do tempo que passava e do tempo que lhe faltava viver. O Inverno era bem duro, e não era só pelo frio e pela chuva que o causticava; mas porque parecia que os elementos se conjugavam, contra a sua vontade, na sua ida em deambulação até aquele banco do jardim, onde já há muito gastava uma boa parte do seu dia.
O seu refúgio noturno ficava cada vez mais longe, ou pelo menos era isso o que sentia, o transporte dos seus haveres era uma carga cada vez mais pesada e incómoda, por isso analisou com cuidado o local perto do “seu” banco. Próximo um coreto parecia-lhe um imenso e fausto palácio, as tarjas de propaganda política, presas ao seu gradeamento, garantiam uma proteção contra o vento e a chuva por ele empurrada. Além disso, eram renovadas com regularidade, os sinais de renovação eram evidentes, primeiro um alarido com altifalantes em altos berros, a prejudicarem o sossego de todos, como se tratasse da venda de um produto novo, a seguir centenas de cartazes, por fim as tarjas ali bem centrais, com diversas cores e muitas palavras, que apenas lhe causavam indiferença. Importante era a renovação da proteção contra o vento. E para ele era isso que ficava daqueles momentos. 
Não voltaria à sua “casa” habitual num prédio em ruínas bem longe, decidiu que aquela seria a sua morada. O banco do jardim a sua sala de estar. E todo o jardim por onde pululavam crianças e passeavam famílias o seu próprio jardim. E pelo sim pelo não continuava a transportar com ele todos os seus haveres. No coreto deixava apenas as embalagens de cartão que lhe serviam de cama, no banco junto a si mantinha um embrulho sujo e malcheiroso que continha toda a sua riqueza, em baixo um pequeno saco de que se via apenas o gargalo de uma garrafa. Sentia da parte de quem passava uma repulsa imensa pela sua presença, mesmo quando escondida era atirada com desprezo, uma moeda que caía na caixa aos seus pés. Mas nada disso o impedia de ocupar o seu banco de jardim.
Mantinha um braço sobre o embrulho, o outro pousado no apoio do banco, e aí permanecia imóvel e sem palavras e observava, observava. Numa atitude de um rei no seu trono.
Aquele casal ainda novo com uma atitude de olhar apaixonado, outro ainda já idoso que parecia manter uma visível ternura, e alguns idosos e idosas que sozinhos por lá fingiam viver. Gente nova, com telemóvel pendurado ou pendurados ao telemóvel, aparentemente em comunicação com o mundo mas quase sempre a falar sós. 
Gostava especialmente de ver crianças, único momento em que se notava alguma emoção. Seriam saudades de netos? Teria netos?
Quando num lampejo de existência e pela proximidade de alguma criança tentava tenuemente dirigir-lhe alguma palavra ou ensaiar um sorriso, logo os pais apressados afastavam os filhos enquanto se lhe dirigiam com rudeza e insultos.
- Afasta-te, velho bêbado! Nem te atrevas a tocar-lhe! 
Retraía-se e voltava ao seu estado de imobilidade majestática com uma superior indiferença. 
Aos fins-de-semana de Primavera e Verão, como era o caso, muitas famílias deslocavam-se àquele espaço para permitir aos filhos um tempo de liberdade e diversão.
Ultimamente tinha ainda colocado uns óculos, que quase por acaso, pouco tempo antes encontrou, perdidos em cima do tejadilho de um carro, uns óculos de Sol que lhe pareciam jeitosos, rapidamente os guardou no bolso do sobretudo, não tinha ainda passado muito tempo sentiu uns passos apressados na sua direção e uma voz que gritava:
- Ó velhote, quero falar consigo!
Manteve impávido o andamento lento e pesado, como se nada fosse com ele. A pessoa depressa o ultrapassou colocando-se a sua frente e falou com estridência, perguntando:
- O senhor pegou nuns óculos que estavam em cima de um carro? 
Ignorou a pergunta, ignorou o tom, olhou para ela, uma mulher ainda nova e bem bonita e disse-lhe na sua voz rouca, mas calma e pousada:
- Deixe-me em paz.
- Mas pegou ou não pegou nos óculos? – repetiu ela.
- Já lhe disse, deixe-me em paz.
Desarmada ela desistiu, apesar de serem uns óculos modernos e caros. 
E era assim que agora se encontrava todos os dias a olhar quem passava por detrás daqueles óculos, imóbil como rei num trono a quem os súbditos vinham prestar vassalagem, embora quem por ali passasse quase sempre mudasse de direção. 
Mas ele lá se mantinha imóbil cada vez mais invisível a todos e cada vez mais indiferente às palavras que lhe eram dirigidas.
Como sempre aos fins-de-semana, quase todas as famílias aproveitavam aquele espaço para encontro, convívio e acerto de algumas conversas. 
Naquele fim de tarde de Domingo, um casal que passeava um filho num carrinho, reparou que no outro lado do jardim ia uma pessoa amiga que já não viam há muito tempo, acenaram-lhe chamando-lhe à atenção da sua presença. 
Ela mudou de direção encaminhando-se para junto deles. Cumprimentaram-se, trocaram impressões e palavras de circunstância.
- Ambos com ótimo aspeto, tendes um lindo menino, parabéns! Que idade tem? 
- Obrigado, tem sete meses.- respondeu o marido - Tu também estás muito bem!
Subitamente os olhos dela fixaram-se no Velho, que continuava imóbil e ausente como se o mundo não existisse, os amigos olhavam para ela espantados, sem perceber o que se passava. A esposa perguntou:
- Então que se passa, que é que tens? 
- Aquele maldito velho tem os meus óculos!
E sem hesitação dirigiu-se ao Velho dando-lhe um forte abanão no braço, ao mesmo tempo que ia a ensaiar palavras de ira. 
O seu abanão fez com que o Velho rodopia-se caindo no chão desamparadamente. Mantendo estranhamente as pernas dobradas e os braços como pousados num trono.
No dia seguinte os jornais locais anunciavam: IDOSO ENCONTRADO MORTO NUM BANCO DE JARDIM, a notícia prosseguia, segundo os primeiros dados da autópsia, a morte ter-se-ia dado há mais de quarenta e oito horas.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O Perigeu

A FABULOSA VIDA DE MATILDE
O PERIGEU




Final de Agosto final do dia, Matilde tinha acabado de jantar e visto em rodapé na televisão, “ HOJE UMA SUPER LUA” .Percebeu que a Lua atingiria a distância mais curta à Terra. “Perigeu”, disseram eles. 
Como fazia muitas vezes, foi para a varanda, sentou-se numa cadeira e colocou os pés a descansar noutra. No peito a máquina fotográfica descansava, mas a mente vagueava e sonhava. Gradualmente a Lua surgiu no horizonte apresentando uma leve tonalidade de ouro, como se quisesse refletir toda a luz solar e, de facto, era enorme. A luz de um dourado suave e intenso, parecia uma porta aberta para o paraíso.
Ensaiou colocar a mão entre os olhos e a Lua em determinados ângulos parecia-lhe qua a sua mão lhe tocava, mexeu a mão como se a afaga-se, por entre os seus dedos passaram raios daquele luar tão diferente, pensou nos nomes curiosos dos seus mares, e descobriu que os homens replicavam nos nomes dos mares da Lua os seus sentimentos sonhos e vivências, gostava especialmente de alguns e imaginou a sua mão a sentir uma irreal frescura de uma água improvável. Na sua mente alguns nomes ocorreram, o Mar da Tranquilidade, da Serenidade, da Fertilidade, e de Néctar, gostava menos do Mar das Tormentas, mas de tormentas quem gosta?
Voltou a fixar o olhar na Lua, parecia-lhe um Gongo Tibetano na sua forma e cor, ou então um enorme diamante de uma pureza infinita, os seus dedos instintivamente procuraram tocar bem levemente a superfície, ao tacto a lua era rugosa e porosa. Pensou então:
- Diamante sim, mas ainda não lapidado. 


Forçou mais o contacto e para seu espanto, a Lua pareceu mover-se, nem queria acreditar como é que a sua mão, os seus dedos faziam mover a Lua, ao mesmo tempo um som cósmico, suave, primeiro docemente mas num crescendo cada vez mais sentido, um som que nunca tinha imaginado existir, apenas com um ligeiro toque dos seus dedos num corpo enorme como a Lua e com ela todo o cosmos estremecia em vibrações rítmicas, que de sussurros passavam a rumores e suspiros sonoros, um som que não era capaz de classificar, celestial e etéreo, doce e aflautado, terno e encantador, como uma carícia que enlouquecesse os sentidos, vibrante como uma trombeta de anjos, um som de Paraíso. Se o Céu existisse seria essa a música que os eleitos ouviriam. 
Matilde sentiu-se transportada para a imensidão do espaço numa viagem fora do corpo que não conseguia explicar, via-se à varanda mas o seu espírito numa viagem sem tempo, numa busca da origem daquele som que partindo dos seus dedos e da Lua, prolongava-se pelo infinito, quanto mais se aproximava da origem mais o doce e celestial som lhe parecia distante, a Lua tão próxima tinha o condão de se afastar, e mostrava-se sempre inacalçável, sentia que o sentido do espaço e do tempo não existia, preenchida pela sinfonia nada mais a preocupava, os seus sentidos, viviam um inefável e indescritível prazer, começou a ter receio que a magia termina-se, desejava viver esse tempo até à eternidade. 
- Como desistir da felicidade? – Interrogou-se. 
Naquele momento a felicidade consistia na possibilidade de estar e ser intemporal. E a sinfonia cósmica que a envolvia elevavam-na a essa altura. Ninguém lhe tiraria essa vivência de sonho, tão real e tão extraordinária. 
- Que pensaria a minha mãe? - Cogitou. 
No momento em que pensava nesta eventualidade, sentiu no ombro muito suavemente uma mão. Cheia de ternura ouviu a voz de sua mãe:
- Já é tarde, Matilde, está a ficar fresco, é melhor saíres daqui. 
Estupefacta olhou para a mãe, dizendo a medo.
- Também ouviste a mesma música? Gostaste? 
- Música, que música? Parece que o ar da noite te fez mal! 
Saiu da cadeira lentamente, voltou a olhar para a Lua e para o espaço tentando perscrutar e sentir ecos da sinfonia cósmica. Parecendo-lhe chegar do espaço infinito toda a magia do momento vivido. Entretanto pensava:
- Como abrir a alma e o coração, para o belo que o Universo tem para nos transmitir? 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Fabulosa Vida de Matilde

O FORMIGUEIRO


Matilde era uma jovem com ideias muito peculiares o seu comportamento desalinhado com a maioria das pessoas da sua idade, chamava à atenção.
Gostava muito de passear no pinhal perto de casa, levava sempre a sua máquina fotográfica, via na natureza pormenores que mais ninguém conseguia ver, raios de sol a penetrar pelas ramagens, pequenas flores silvestres, aves, lagartixas, esquilos, tudo era um festim para os seus olhos e uma oportunidade de gravar em fotos o que a alma via. Tinha apenas alguma pena de não saber identificar as coisas que descobria, mas mesmo assim valia a pena senti-las. 
Nessa tarde, isso aconteceu mais uma vez, ao caminhar pelo pinhal, os seus olhos detiveram-se num carreiro de formigas e baixou-se para as observar mais de perto, admirou a sua constância na tarefa e a sua disciplina, seguiu o carreiro para descobrir onde seria a casa das formigas, pelo caminho tirou algumas fotos, que depois seleccionaria, ainda foram alguns metros, até o local de entrada do formigueiro, ao caminhar curvada sentiu algum desconforto, depois de uma última foto endireitou-se subitamente. E inadvertidamente bateu com a cabeça, num ramo já velho que pendia de uma árvore. 
Ficou atordoada, sentiu de dentro uma força que comprimia o seu tamanho diminuía em cada instante, as suas mãos eram agora minúsculas e ao olhar para o seu corpo, notava transformações incríveis, gradualmente tinha-se transformado numa formiga. Reparou que ao lado a sua roupa estava impecavelmente arrumada, no entanto pendurada ao pescoço a máquina fotográfica tinha sofrido a mesma redução de tamanho. Não teve tempo de reagir. As outras formigas do carreiro, obrigaram-na a mover-se, esteve indecisa um instante. A máquina a arrastar-se pelo chão impedia-a de caminhar, com uma das mãos puxou-a para as costas perante o espanto das outras formigas. Finalmente decidiu-se, iria para o formigueiro. Como nada transportava, resolveu ajudar aproximou-se de uma formiga que transportava um peso excessivo, e colocando a boca na carga, sentiu um sabor familiar. 
- Isto é o bolo da minha mãe – pensou.
Entrou dentro do formigueiro, e viu-se no meio de uma azáfama incrível, centenas ou mesmo milhares de formigas movimentavam-se perfeitamente organizadas, mas o seu aspecto insólito, devido a ter às costas a máquina fotográfica, chamou à atenção de algumas formigas que lhe pareciam uma espécie de polícias, rapidamente foi convidada a acompanha-las para ser levada à presença da Rainha. Temeu pelo que iria acontecer, mas não resistiu e resolveu ensaiar se a máquina funcionava tirando umas fotos, o flash assustou os guardas que se dobraram perante ela. Voltou a coloca-la às costas e prosseguiram até à Rainha. Quando chegaram junto a esta, um dos guardas que parecia ser o chefe, contou as magias a que assistiram, luz a sair de uma antena que se mexia. Esta ficou pensativa a ponderar bem o que fazer perante tamanho desafio. Finalmente disse: 
- Façamos-la acasalar com um dos nossos machos, e criaremos uma nova raça da nossa espécie, a raça dos alumiadores. 
Matilde ficou assustada, não queria isso, desejava voltar a sua condição de humana, a sua reacção, foi rápida. Dirigiu-se a Rainha:
- Majestade, preciso de tempo para pensar, perdi-me do meu carreiro e os meus companheiros andam por certo à minha procura, entre os da minha espécie só se deixa de procurar quando se escolhe em liberdade o local para viver. Aceitarei o convite depois de falar com eles.
- Concordo - respondeu a Rainha, acrescentando.- Sairás com uma escolta, e até ao por do sol se ninguém aparecer, voltarás. 
O regresso para fora do formigueiro foi bem veloz. Metade da escolta saiu primeiro depois ela a seguir os restante elementos, para não impedir o movimento contínuo das obreiras, o chefe da escolta puxou-a com alguma violência, contra a vegetação que ladeava a entrada, ao fazer isso ela chocou com a cabeça num arbusto, tombou e sentiu-se desmaiar. 
Lentamente começou a sentir a frescura do tapete de folhas e ervas que cobria o chão, olhou para si com o corpo cheio de formigas, levantou-se e sacudiu-se, estava inteira igual a ela mesma, apenas uma coisa bem estranha, a máquina fotográfica continuava pendente nas costas. 
Pensou se não teria enlouquecido: - Teria sido um sonho? – Interrogou-se
Olhou para o relógio, o tempo tinha passado, combinara encontrar-se com o João estava quase na hora, com a mão tentou arranjar o cabelo e saiu ligeira para casa.
Pontual como sempre o João já se encontrava à sua espera. Olhou para ela meio espantado:
- Matilde que te aconteceu? Que é isso na cabeça?
- Nada de especial, bati com a cabeça no ramo de uma árvore. Tenho aqui umas fotos, que tirei esta tarde, para te mostrar. 
E começou a passar as fotos tiradas no formigueiro.
João olhou sem perceber, aos seus olhos passavam quadros totalmente negros sem qualquer vislumbre de imagem. Perplexo murmurou:
- Decerto a máquina avariou, não vejo nada.
Matilde ia vendo e recordando, os túneis, os silos, as longas filas de formigas, os guardas, a Rainha, aos seus olhos passaram todos os pormenores da sua aventura. 
As palavras do João fizeram-na reflectir, levando-a a descobrir:
- Quem não viveu a emoção do diferente, nunca será capaz de olhar para além da aparência. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Pseudo-Poema



Os pássaros chilreiam no entardecer do dia,
em cantos leves e ondulantes de serenata,
em sintonia com as vozes graciosas de crianças,
fazem dos quotidianos horas de silêncios. 

Quão belo pode ser o verde das árvores altas
se há cães felpudos nas suas sombras? 
E quão intensamente pode uma alma sentir
em longos instantes de plena solitude?

Há ainda o mar que bate longe e ecoa perto
e um coração que se esvazia lentamente 
pelo caminho tortuoso dos tempos amargos,
mas que não azeda a vida que se adocica na ventura.

Porque há a esperança nas vozes do mundo
e as aves cantam fortemente contra os dias aziagos,
que se querem de repleta luminosidade e vigor
brilhando sempre o Sol  em todos os céus azuis.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

O homem que sabia voar


Numa rua de movimento muito reduzido junto à vedação de um prédio em construção, um carro de apoio aos sem-abrigo, a que se juntou um pequeno grupo de curiosos, uma Ambulância, bem como um carro da Polícia, podia ver-se o corpo de um homem, que aparentemente tinha caído desse edifício. O que causava estranheza à Polícia era o corpo ter caído à rua, aparentemente tinha sido alvo de um forte impulso que o levou a cair fora da vedação.
As Técnicas de Apoio Social estavam estupefactas, aquele era o Chico, a Psicóloga que fazia parte da equipa ainda se lembrava da última entrevista, para a caracterização do Chico e a definição de uma estratégia da sua integração social. Parco de palavras não mostrando nenhuma vontade de mudar de vida, sem queixas nem lamúrias mais do que conformado, feliz com a vida que levava. As perguntas eram quase sempre respondidas por monossílabos, e sem grandes discursos, ultimamente porém as conversas tinham algo de estranho. Entre referências a conversas com pássaros e a ideia de se libertar do corpo, uma lhe veio à mente. 
- Já conversamos há tanto tempo, já nos conhecemos bem, estou aqui para o ajudar a encontra um caminho para si, sempre deve haver alguma coisa que goste de fazer ou que saiba fazer bem.
- Sim há uma coisa que eu sei fazer bem. Sei voar.
A surpresa atingiu a Psicóloga de alto a baixo, uma resposta destas, trazia a lembrança casos de pessoas sem-abrigo de condição social inesperada. As suas perguntas, saíram em enxurrada. 
-Voar? Foi piloto? Esteve na vida militar? Onde aprendeu? 
- Não, voar como um pássaro, voar livre, apenas voar. 
Os olhos da Psicóloga, com algumas lágrimas teimosamente a correr, iam-se voltando para o seu caderno de apontamentos a que acrescentou algumas palavras, que nada tendo de científico testemunhavam, uma forma de viver nunca entendida. E leu o que foi escrevendo ao longo do tempo. 
Chico é um tipo estranho, uma idade indeterminada, provavelmente menos do que aparenta, mas a vida dura que tinha levado, deixou marcas profundas no seu aspecto. Nada disso o preocupava mas apenas o momento vivido, era como um pássaro a quem tinham destruído o ninho, ainda pequeno e que com poucas penas, apesar da dificuldade aprendeu a voar.
Conheceu diversos lares, casas de acolhimento, mas nuns casos a artificialidade da relação, noutros uma disciplina nunca entendida, fazia-o tentar, e na maioria das vezes conseguir, fugir e tomar a rua como o seu espaço o seu lar a sua tribo. 
No Verão os relvados de alguns jardins, serviam da mais confortável das camas um quarto cujo limite era infinito. No Inverno bastava um abrigo da chuva e do cortante vento do Norte, normalmente um prédio abandonado, como era o caso daquele momento, uma quantidade razoável de cartão, umas mantas que alguém deitava fora ou oferecia. 
Vivia com extraordinário deleite os dias de trovoada, uma sinfonia de sons e cores lhe era oferecida, não compreendia o medo da maioria dos “outros”. 
Com o tempo Chico foi-se isolando e vivendo cada vez mais para si próprio, sobrava-lhe as conversas que ia mantendo com os pardais. Principalmente um, um pardal sábio e já idoso, pode-se chamar idoso a um pardal? Com que idade morre um pardal, como se pode dizer que se é velho?- Pensava.
Passava horas a olhar para o céu e sonhava em ver a cidade lá alto. Tão real era o seu sonho que as nuvens o deixavam sem ar, apesar de não entender bem o que era ser uma ave. O local onde ultimamente vivia permitia ver a amplitude do céu e o voo das mais variadas aves. Não precisava de mais nada, a vida era completa. 
Uma coisa porém o preocupava, ultimamente na carrinha, que algumas vezes lhe fornecia alimento e mais alguma treta, viajava uma tipa, Psicóloga, diziam elas, que lhe fazia perguntas e mais perguntas. Queriam saber se ele estaria disposto a fazer parte de um programa de integração social, uma cena destas que não lhe serviria de nada. 
Fechava a boca ou respondia de má vontade, recebia o que interessava e ia à sua vida. 
- Já não se pode ser livre. – Pensava
As conversas com o seu amigo pardal eram cada vez mais frequentes e versavam os mais variados temas, quem os ouvisse, se isso fosse possível, lhes chamaria de loucos. 
- Que te preocupa? – Perguntou-lhe o pardal notando-lhe o ar pensativo pouco habitual nele.
- Já não se pode ser livre- disse em voz alta em resposta ao amigo pardal, e continuou - Estão sempre a perguntar-me o que sei fazer, sou livre, não sei fazer nada nem preciso, a liberdade tem o sabor de ser e estar como se quer e onde se quer.
O pardal mostrou-se atento, abriu ligeiramente as asas, olhou-o bem de frente e de repente exclamou:
- Já sei, vou-te ensinar a voar! Tu entendes a minha linguagem eu percebo a tua, vives livre como eu, por certo que aprenderás a voar. Em algum momento da tua vida já foste ave. Dentro de ti ainda pulsa esse espirito.
Ao ouvir isto Chico levantou-se de um salto, levantou, bateu os braços como se fossem asas e gritou para o pardal: 
- Como posso voar sem asas? Estou a ouvir bem o que estas a dizer ou estou a enlouquecer? 
- Chico, porque gritas tanto? Não é a falta de asas que te impede de voar, mas a tua mente que te prende ao chão, ainda não és totalmente livre, aprende a voar e atingirás a liberdade plena. 
Subitamente apoderou-se dele um desejo imenso de realizar o sonho, voar ver o mundo do alto, sentir a emoção de liberdade total. Estar onde desejasse, sem regras, sem limites, sem sinais, sem proibições.
- Quando começamos?- Exclamou decidido. 
O prédio onde vivia estava inacabado sem divisões, ele tinha escolhido o último andar, sabia que estava mais resguardado de visitas curiosas. O pardal mediu bem o espaço livre, pensativo foi dizendo: 
- Para começar este espaço serve. Começarás a voar aqui. Eu te ensinarei!
Com muita insistência do pardal que ele aprendeu a voar pequenas distâncias. Desabituado a exercícios físicos, sentia dificuldade nos seus voos e era muitas vezes vencido pelo cansaço.
Mesmo assim não desistiu e quando já estava confiante, aventurou-se a voar fora do prédio. Tirou a protecção de madeira de uma janela, olhou o céu e todo o espaço em volta e disse para o amigo:
- Que dizes de dar uma volta, ir e voltar?
O pardal olhou para bem dentro dele profundamente, para além dos limites do seu corpo, como se quisesse habitar a sua alma, dar-lhe espiritualmente as asas que Chico fisicamente não possuía.
-Sim, mas tem cuidado, ainda precisas de te libertar do teu corpo.
O primeiro voo foi curto e tímido, regressou uns segundos depois, respirou fundo e pensou, já sei que dizer às “gajas” da carrinha. Sabia voar.
O pardal olhou para ele e contente disse:
-Saíste-te melhor do que eu estava à espera, podes voar livre até ao infinito. Olha as estrelas, confunde-te com elas, Voa! - Ordenou imperativo. 
Chico chegou-se mais uma vez à janela, olhou o céu infinito, as estrelas que nele brilhavam, lançou-se vigorosamente no espaço e voou, voou, voou, até que sentiu o espirito separar-se do corpo, era finalmente livre, livre para a eternidade. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dias Sóbrios


O Sol decidiu esconder-se por fim, as flores têm uma cor muito viva que contrasta com o céu apagado. Há a certeza de um dia sereno, sem emoções que palpitem gravemente o coração. A brisa fresca não dá mote a alegrias extremas, sente-se a harmonia das horas sóbrias, ouvem-se apenas os automóveis a desfilarem na estrada longe. Parece um rejubilo falso, felicidade sem gosto doce, tudo está bem, porque não está mal e a vida encaminha-se nos conformes.  
Na cidade tudo tem ar de amontoado, abandalhado por quem não tem tempo para o que é necessário, assim está a minha mente, numa agitação febril em que vontades se contrapõem. Tenho desejo de principiar uma nova vida e no entanto prossigo igual ao que é do costume. Há em todas as coisas o perigo da mudança, a falsa segurança das alterações, os riscos medonhos de uma crise. E a vida sempre se encarrega de trazer espontaneamente dias mais comedidos, onde se está bem, porque não se está mal.   
A meio do dia ainda tenho o entorpecimento do corpo de quem não dormiu bem as noites passadas, o tempo passa muito rápido para quem tem muito que fazer e nenhuma motivação. Não sei dizer de onde me vem esta frustração, este destino de desânimo, porque apareceu em mim o sentimento de apatia que sempre se apresenta no querer fazer pouco quando se precisa fazer muito. 
Nestes dias de tristeza subtil as palavras manifestam-se no meu íntimo e não tenho força para as fazer surgir no seu pleno esplendor, são como flores prestes a florir, mas que não recebem água e Sol suficientes. Falta-me saber, mestria, leveza, sabedoria, e tudo o mais que se mostra essencial para o nascimento da obra pelo qual a alma do leitor se apega e tem carinho. Tudo me está em falta. E todavia não sei expressar-me de outro modo. Vivo sem coração a generalidade dos dias e quando me sento com as palavras os sentimentos desabam-me e não sou mais insensível ao que me rodeia. 
Agradava-me construir um lar nos meus escritos, de modo a que um dia não existisse mais e passa-se a ser as minhas palavras tão somente, em perfeita harmonia com o que sou e com o que faço. Mas a força e a persistência esvaiem-se, os impulsos são poucos e só se mantêm momentaneamente.  Da mesma forma me falha a constância da graça, o toque de airosidade, a luminosidade da mocidade. Assim estão os dias caminhando para a morte, sem beleza, sem disposição para sentimentos suaves, carregando fardos de tempos difíceis vividos ou imaginados. 
As afirmações são ásperas e desagradáveis, mas sabem misteriosamente bem, como o vento modesto que me eriça os pêlos dos braços. O dia perpetua-se sombrio em pleno Verão, dia velho no meio da estação da juventude, mas é profundamente legitimo, porque advém da Natureza que está sempre certa. Não é necessário que em todos os momentos o Sol surja resplandecente sobre a Terra, nem que a luz paire sobre as palavras. Porque tudo se quer no conforme, que é variável e está sempre bem, desde que não esteja mal.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Amizade


A reinvenção da alegria                                    

Neste tempo, em que não vos tenho dado a atenção devida, sentindo-me para todos os que me dão o seu tempo e a sua amizade em dívida lembrei-me de dois provérbios que definem a amizade de ângulos diferentes e complementares:                

Séneca diz num provérbio que: “Ter um amigo é ter alguém por quem morrer”
Há porém um provérbio inglês que diz: “Viver sem amigos é morrer sem testemunhas”                                       
A força que emana do primeiro provérbio (“Ter um amigo é ter alguém por quem morrer” ) é de uma amizade desprendida e inusual, mas diz-nos quanto este sentimento esta presente no espírito da humanidade e nas relações entre as pessoas, desde que o homem se tornou capaz de elaborar em palavras os seus sentimentos. A contradição principal é que sendo este um dos sentimentos mais nobres e mais necessários à nossa vida pessoal, quando confrontados com a pergunta: O que é a amizade? Sentimos alguma dificuldade em a definir, não porque nos faltem explicações exactas e verdadeiras, mas pela sua vastidão e pelas nossas próprias atitudes perante a amizade, ficamos incapazes de exprimirmos verbalmente em poucas palavras a relação e o sentimento implícito nesta palavra. A amizade tem a singularidade de ter uma ética não escrita, sem tutelas nem pactos sociais, e utiliza uma desconcertante simplicidade de meios, o que faz com que a característica mais importante da amizade, se defina pela sua presença.
Mas a presença pode ter diversas graduações, e quando a amizade se vai construindo em novos meios, como a NET que utilizamos neste momento, essas graduações terão ainda muitos cambiantes, uma partilha global de algum pessoal, ou não sendo pessoal, nos toca e emociona, uma troca de mensagens mais confidente e particular, um dos muitos pequenos gestos de que estamos atentos e que as mensagens que nos chegam não nos deixam indiferentes, a probabilidade de um encontro dos muitos que este meio proporciona, a possibilidade de uma ou de incontáveis atenções, não tendo muito significado a quantidade mas a verdade daquilo que damos e recebemos

Porém no provérbio inglês que diz: “Viver sem amigos é morrer sem testemunhas” , remete-nos para o tempo presente em que não querendo ser demasiado mórbido, mas ao ler um destes dias nos jornais, um título que dizia:“ HÁ cada vez mais corpos não reclamados”
Isto foi sentido por mim como um soco, e senti vergonha por fazer parte de uma sociedade que segrega e despreza ignobilmente parte dos seus. Que levou estas pessoas a cortarem laços e a perderem assim os seus amigos, ficando sem testemunhas do seu final de vida? Que levou a sociedade a ignora-los?
Talvez por isso seja importante esta rede de amigos em que participamos, e quando algum por motivos diversos nos deixa, não nos deixa sem testemunhas, sentimos que perdemos um pouco da nossa riqueza colectiva, e partilhamos muitas vezes testemunhos desse sentimento.
Os amigos que vou fazendo neste meio e com os quais vou partilhando, um pouco de mim e um pouco do que sou, e de quem também recebo partilhas que me vão enriquecendo, fazem-me sentir, talvez com alguma benevolência, que a minha ausência, mais frequente do eu desejaria, não lhes é indiferente.
O importante para mim é que a partir de dada altura, esta relação se tornou uma história que me acompanha e por onde uma parte da minha vida vai passando.
Tendo tão poucas barreiras, permitindo um tão alargado leque de alternativas, este meio que nos aproximou e vai permitindo a construção de verdadeiras amizades, pode contribuir para acabar com este cinzentísmo em que estamos mergulhados e pela AMIZADE REINVENTAR A ALEGRIA.

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