sábado, 17 de dezembro de 2016

PERSEGUIÇÃO




PERSEGUIÇÃO

Tinha saído da escola mais tarde que o habitual, a mãe sempre recomendara:
- Logo que acabem as aulas, tomas o autocarro e regressas.
 Mas o dia anterior tinha sido especial, fizera anos e não resistira a mostrar às amigas o novo telemóvel, não se tinha apercebido do tempo passar, estava já a imaginar as palavras da mãe, ia elaborando todas as desculpas, afinal mesmo a pé da escola à casa não eram mais que vinte minutos, e parte do caminho seria feito na companhia de algumas colegas.
 Era inícios de Dezembro o tempo estava mau, passava das dezoito e trinta e era bem escuro, para ainda complicar mais as coisas a iluminação pública estava desligada.
- Decerto por avaria: - murmurou.
A distância entre a escola e a rua principal foi passada entre risos e conversas, quando lá chegaram as amigas viraram à esquerda e ela em sentido contrário, seriam cerca de quinhentos metros sozinha, apesar da escuridão queria não ter medo, ainda não tinha percorrido mais que algumas dezenas de metros quando viu aproximar-se um vulto de um homem numa rua que confluía para a principal, instintivamente colou-se à parede batendo sem querer com a mochila nesta, notando que lhe tinha caído qualquer coisa,
 -Um lápis, uma coisa sem importância: Pensou,
Por isso não parou antes acelerou mais o passo, subitamente aos seus ouvidos chegou o ruído de um arfar de respiração e passos mais rápidos. Em pânico, não sabia o que fazer nem lhe saiam sons da garganta. Tentou ensaiar uma corrida mas as pernas não lhe obedeciam, ela podia escutar os passos ainda mais apressados como que a responder à sua reacção e já não era arfar mas autênticos rugidos, aos seus ouvidos chegou aquilo que lhe pareceu uma ordem para parar.
O vulto, atrás ia balbuciando, para si mesmo:
- Tenho que a apanhar antes de ela mudar de rua, se isso acontecer não sei como a identificar.
-Vou chamar por ela:-Decidiu:
Mas o caminho já andado e a aceleração daqueles últimos metros impediam-no de gritar, saiu um som frouxo e que ele duvidou que ela tivesse ouvido, tentou acelerar mais o passo, tinha mesmo que a apanhar.
O som que chegou aos ouvidos dela, parecia um miar de mocho, assustou-a mais, a noite parecia ter ganho cores ainda mais negras, as suas pernas apesar de jovens recusavam-se a andar, pelo menos a ela parecia-lhe isso, e no entanto sabia que bastava continuar a manter a distância durante mais alguns minutos e chegaria a casa, ao conforto da casa, ao abraço da mãe, pela cabeça passaram-lhe algumas orações da catequese, não sabia bem se as pensava correctamente, mas o tempo não era de preciosismo. Tinha dois desejos, chegar a casa e fugir daquele monstro. Um desejo aumentava o outro.
Lá atrás o vulto fez mais uma tentativa de chegar perto do seu objectivo, acelerou o mais que pode o passo, chamou a si todas as energias disponíveis, e iniciou uma nova etapa em direcção ao alvo, sabia que se ela muda-se de direcção nunca mais lhe ponha os olhos em cima, tinha pouco mais de uma centena de metros antes do aparecimento de uma nova rua, no caso à esquerda se ela vira-se aí com a distância que levava perdê-la-ia de vista para sempre, com aquela escuridão dificilmente a conseguiria identificar, para a abordar mais tarde. A partir daí pensaria o que fazer.
Ela não se atrevia a olhar para trás a escuridão continuava e ninguém na rua, parecia que tudo estava contra, na rua do lado direito algumas casas mas mostrou-se incapaz de tocar numa campainha e pedir ajuda, a paralisação mental e física para tomar uma decisão era total, no lado esquerdo apenas um extenso matagal que naquela escuridão projectava sombras assustadoras o vento fazia agitar as folhas das árvores e arbustos fazendo-as semelhantes a horríveis monstros que só via na televisão, sim nos desenhos animados até era divertido, sentia no peito o bater rápido do coração, não conseguia perceber mas sabia que tinha medo muito medo.
Continuando a sua marcha no limite das suas forças o vulto ia planeando:
 -Ela leva trinta, quarenta metros à minha frente, se eu fizer uma corrida, em menos de um minuto apanhou-a e resolvo o problema antes que seja tarde demais, é a minha última tentativa, depois desisto.
Iniciou a corrida de forma desajeitada, não só pelo cansaço, mas também devido à sua estrutura física, um esforço final e apesar do seu muito querer ia ter que desistir.
Não foi logo que ela notou da corrida iniciada pelo perseguidor, porém logo que o fez, apoderou-se totalmente dela o pânico, trazendo a si toda a coragem que ainda restava ganhou forças e arrancou numa corrida a uma velocidade de que não se julgava capaz, rapidamente alcançou o limite da sua rua, aquela que sempre lhe parecia muito perto mas que agora estava a uma distância enorme, a rua continuava deserta a sua casa era logo das primeiras bastava tocar que aquela hora a mãe sabia que era ela e abriria o portão sem perguntar nada.
Ela era jovem e o monstro não, ganhou uma vantagem confortável colou a mão a campainha e não a tirou de lá enquanto a mãe não abriu, entrou de rompante batendo com estrondo o portão de entrada, correu para a porta traseira de casa como habitual, e finalmente libertando-se num choro nervoso e confusamente tentou contar o que se tinha passado.
Naquela hora um tio e um primo tinham passado em casa, deixaram-na acalmar e perceberam que um homem a tinha perseguido, enquanto vinha para casa e que tinha começado a correr atrás dela, mas ela conseguiu fugir.
Armaram-se cada qual com o seu pau e vieram ver se na rua estava alguém, espreitaram do lado de dentro do muro com cuidado de facto a escuridão não facilitava e eles não queriam acender a iluminação da casa para não o espantar, num primeiro olhar não viram ninguém, no entanto a jovem encheu-se de coragem e olhando bem ao longo da rua disse:
- É aquele que esta ali encostado ao muro ao fundo da rua, do lado direito.
 De facto ao fundo da rua via-se alguém que apoiava as mãos no muro e que parecia respirar com alguma dificuldade, como se tivesse feito um grande esforço e nesse momento estivesse a tentar recuperar.
Tio e sobrinho pegaram nos respetivos paus e deram uma corrida veloz em direção ao homem, que continuava a arfar numa tentativa de normalizar a respiração.
Quando iniciou a corrida para se tentar aproximar da jovem o homem não contou com a reação desta, mesmo assim não desistiu queria ao menos saber onde ela vivia, no entanto longe de diminuir, a distância foi aumentando tornando cada vez mais difícil cumprir sequer o mínimo que se propusera, saber onde ela vivia, não desistiu e correu até ao fim sabia que ela não o iria ouvir pois gritar e correr nas condições físicas e principalmente com o peso que tinha, não era fácil, bem sabia que precisava de exercício, mas não era aquela a ocasião para se lamentar, ou para fazer propósitos para o futuro. O que mais temia aconteceu, na primeira rua à esquerda ela virou e ele já levava um atraso considerável, só com sorte saberia qual era a casa onde ela entraria, tentou mais um pouco.Com esperança reflectiu.
-Talvez alguma iluminação durante a entrada, permita identificar onde ela mora.
 Por isso não desistiu, chegou ao limite da rua olhou e viu tudo deserto nada de iluminação nada de pessoas. Finalmente desistiu e permitiu-se um descanso apoiou os braços nas grades do muro e foi respirando apressadamente precisava de tempo para normalizar os batimentos do coração, precisava de tempo para normalizar a respiração, depois pensaria o que fazer, subitamente notou um alarido e os seus olhos e sentidos nem queriam acreditar, sentiu o choque de uma vara a atingir-lhe as costas e a cabeça, sentiu uma forte pancada seguida de uma dor violenta junto a orelha o sangue a correr pelo pescoço e gola do casaco, instintivamente virou-se levantou os braços em protecção, com uma mão bem levantada segurando um objecto.
Quando se voltou, tio e sobrinho ficaram espantados, olhavam para a pessoa e nem queriam acreditar aquela pessoa a perseguir uma menina?
- O Senhor não tem vergonha: - Disseram.
- Vergonha! Vergonha! De quê? – Respondeu espantando e incrédulo
- Então a perseguir uma rapariga que podia ser sua neta? - Insistiram
- Perseguir uma rapariga? Eu? – Gritou desesperado 
- Eu queria era entregar-lhe este telemóvel que ela deixou cair à saída da rua da escola. Como sofro de asma não conseguia gritar para lhe chamar à atenção.
Abriu a mão mostrando o telemóvel novo que tinha sido oferecido nos anos à rapariga, e que ele reparara que caíra quando a rapariga tinha tropeçado de encontro à parede.
Perante o olhar espantado, do tio e do sobrinho.    


                                                                                       Herminio




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O ENCONTRO



                                        
                                          O ENCONTRO

Ao entrar na rua, que conhecia mal e que lhe pareceu decrepita e pouco recomendável, tentou localizar o café cuja morada tinha recebido em mensagem no telemóvel. Para ela era uma aventura e sentia-se a um tempo desconfortável e decidida. Nunca nos seus mais de vinte anos de casada tinha ultrapassado esta linha de comportamento, que se convencionava ser normal e exigido a uma mulher casada, mas estava decidida e levaria a situação até às últimas consequências. A sua vida precisava de uma quebra de rotina, um pisar do risco a que tinha sido muitas vezes tentada mas só agora estava decidida a assumir.
Perto dos cinquenta anos, mantinha a linha e a frescura de alguém que se cuidava, cabelo escuro e bem tratado, como prova de que nada era deixado ao acaso, apesar da situação do momento um sorriso aflorava-lhe nos lábios, um lábios bem desenhados, pintados de forma discreta dando-lhe um ar subtilmente sensual, um olhar suave em que se notava um certo cansaço, no entanto sabia-se atraente e todo o porte afirmava isso.
Estranhamente vestia fora de moda e ao lembrar-se da razão, não deixou de voltar a sorrir, a insistência dele em que ela levasse uma roupa semelhante à sua mãe parecia-lhe estranha e despropositada,  pensou que se era para passar despercebida o efeito era exactamente o contrário. Depois de estacionar o carro, enquanto caminhava para o endereço combinado, sentia que muitas pessoas a miravam com algum espanto pela forma que vestia.
Mesmo assim resolveu aceitar, sentia-se elegante e com uma desenvoltura que não se imaginava capaz.  
Discretamente atenta ao numero da porta, foi caminhando ao logo da rua, o numero correspondia a um café mal identificado, e o nome quase invisível parecia-lhe estranhamente insólito “ 4ª Dimensão”, a porta encontrava-se semifechada e junto encontrava-se um cão bem tratado, de raça que ela não conseguiu identificar, não era muito entendida em animais, nunca se sentiu especialmente atraída para eles, o cão encontrava-se aparentemente a dormitar, com uma coleira onde tinha escrito, “Blind” provavelmente o seu nome. Com alguma cautela contornou-o, o animal nem pareceu nem dar pela sua presença.
Empurrou a porta e no limiar o telemóvel tocou, nesse momento parou, hesitou, rodou ligeiramente o corpo, ficando de perfil para quem a olhasse de dentro do estabelecimento.
Olhou para o visor do telemóvel, era ele. Atendeu a chamada e suavemente a voz dele disse-lhe:
- Estás no local certo, podes entrar.
- Porque ligaste?- Perguntou, mas já nada ouviu o telemóvel desligou-se
Pela primeira vez vacilou, a chamada tão abruptamente terminada e o local, deixaram-na constrangida e perplexa. Ainda no limiar da porta, parou um pouco na posição de perfil e lentamente voltou-se para dentro do café, os seus olhos percorreram o estabelecimento, todo o cenário a transportou-a a meados do século passado. No seu lado direito um longo balcão em madeira, tal como todo o outro mobiliário, acompanhava o comprimento de todo o espaço do estabelecimento, na zona do balcão, um móvel com prateleiras quase vazias, apenas com algumas garrafas de bebidas espirituosas. Pouco iluminado o estabelecimento permanecia numa penumbra simultaneamente assustadora e atractiva.  
A uma mesa, logo no início do estabelecimento, de olhos fixos num jornal, apesar da Televisão ligada, um homem que tinha o aspecto de ter bem mais de setenta anos, parecia alheio ao que se passava à sua volta, a presença dela não lhe provocou qualquer alteração de atitude, estava a ler o jornal e nem a cabeça levantou. Ele encontrava-se ao fundo, de óculos escuros, vestia um casaco castanho não usava gravata mas um laço, e era tudo o que conseguia ver. Na mesa que se encontrava absolutamente vazia, ele mirava fixamente, resoluta caminhou em passos decididos.
Quando ensaiava uma saudação com um beijo na face, ele tirou as luvas pegou-lhe cerimoniosamente na mão e beijou-a com uma terna delicadeza, oferecendo-lhe a cadeira do seu lado direito. Reparou que a cadeira de frente se encontrava ocupada com o que lhe pareceu um computador, encostado ao qual se via uma bonita bengala branca, na cadeira do lado esquerdo repousava uma pasta.
Sentou-se na cadeira vaga, enquanto ele voltando a pegar-lhe na mão sussurrou, com ternura.
- Obrigado por ter vindo, o meu coração rejubila de alegria pela sua presença..
-Não percebo, porque me tratas com tanta cerimónia?- Interpelou um pouco agressiva.
-Observei-a quando entrou naquela porta. – Continuou, ignorando as observações que ela fez. - O contraste entre a luz solar e esta penumbra, delineou o seu corpo com uma beleza ímpar, ao ligar-lhe sabia que instintivamente se viraria, assim também a observei de perfil, a luz solar ao penetrar pelos seus cabelos soltos deram-lhe uma imagem com um encanto e sedução absolutos.
Sentiu-se lisonjeada com as palavras que lhe pareciam em desuso, mas pronunciadas numa voz terna e suave, ela ficou hesitante com a voz em tom intimista, e um pouco intimidada sussurrou:
- Porque escolheste este sítio? Afinal é um local público, não me sinto confortável, a presença de outras pessoas, incomoda-me e condiciona-me.
- Pode ficar à vontade- continuou ele na mesma linguagem- O empregado ouve muito mal, e este café é pouco frequentado a esta hora, além disso combinei com ele, que com a sua chegada ele se retiraria. E já se retirou.. se quiser reparar..
Perplexa notou que de facto isso tinha acontecido. A pessoa que se encontrava na mesa logo à entrada, já não se encontrava presente.
-Estamos sós - Continuou enquanto se inclinava para ela com suavidade, fazendo o coração bater e sentindo o rosto ruborescer – É mesmo muito bonita, gosto da sua boca tem beleza e sensualidade, do tom e alegria da sua voz, também admiro a sua atitude firme, com carácter. Entretanto se me permite deixe-me conduzi-la para um recanto onde descobriremos os caminhos que este encontro desbravará, e que nos levarão a um tempo diferente e feliz. E não se preocupe este tempo e este espaço é apenas nosso. 
Levantou-se, pegou-lhe suavemente na mão, ajudando-a a levantar-se e em silêncio quase religioso, por um estreito corredor caminharam em direcção às traseiras do estabelecimento. Poucos metros depois, à sua esquerda ele abriu uma porta, estupefacta os olhos dela espraiam-se pelo espaço, estava em presença de um quarto bem amplo e confortavelmente mobilado; Uma cama semi-aberta, dois sofás, um mesa baixa, em cima da qual estava um ramo de rosas, uma garrafa de champanhe e dois cálices. Conduziu-a para um dos sofás e sentou-se no outro.
O coração começou-lhe a bater com violência, tinha chegado o momento da consumação da sua aventura, sentiu-se ruborescer, e foi incapaz de articular nem palavras nem resistência.
Ele fixou o seu rosto no dela, parecendo incapaz de mostrar qualquer emoção, pelo menos os óculos escuros impediam que ela conseguisse perceber o que ele sentia.
- Não se preocupe faremos acontecer o amor a felicidade e o nosso mundo, num tempo sem pressas.      
Enquanto ele com cuidado extremo ia abrindo a garrafa, como se a tacteasse com a  garrafa na mão num ritual quase religioso, tomou os cálices verteu neles um pouco de champanhe, oferecendo-lhe um , e tomando para si o outro. Levantou o seu.
-Brindemos ao futuro que o passado para onde viajaremos nos construirá.
Sem compreender o significado daquela linguagem tão cifrada e estranha, e com hesitação. Levantou o cálice brindando com ele, beberam ambos vagarosamente do champanhe bem fresco, que a acalmou, e como que sussurrando:
- Não combinamos que nos trataríamos informalmente? - Retomou ela.
- Quero viver consigo um amor fora do tempo, entre delicadeza e paixão. Temos ambos vidas estabilizadas e que nos dão segurança, nós precisamos, eu preciso, de criar espaços e tempos de emoção. Mas não quero perder a minha segurança e deduzo que também não quer perder a sua, manter  a nossa estabilidade e estatuto. Não só a estabilidade material mas também a relação com os filhos e  netos.
Ela hesitou antes de dizer alguma coisa, as palavras ficaram presas na garganta, não se sentia capaz de articular coerentemente os seus pensamentos.
Tinha-o conhecido pela NET, gostava do que ele escrevia, ao fim de algum tempo mantinham conversas regulares, trocaram contactos a sua vida tinha sido tocada pelas ideias dele, gradualmente sentiu-se presa a tudo o que procedia dele. Não conseguia compreender, mas sabia, que desde o momento que o conhecera, a sua vida ganhou cor e emoção. Não tinha a certeza de nada mas decidira que tentaria entrar na aventura. A atitude dele a todo o ambiente que rodeava aquele encontro parecia-lhe estranho, estranho demais, para quem como ela, estava habituada à segurança a uma vida feita de rotinas, as palavras dele não encaixavam bem no pensamento inicial que a levará até ali. Timidamente articulou.
-Não te compreendo, estás a propor-me para ser tua amante?
- Não querida amiga, não seremos amantes, seguramente no sentido que lhe está a dar, seria uma indignidade para o que sinto por si, e por certo não é aquilo que espera de mim. O que lhe proponho é vivermos um amor diferente e intenso,  viveremos duas vidas, criaremos dois tempos diferentes, um tempo comum e um tempo só nosso, no tempo comum viveremos a nossa rotina, no tempo só nosso será o tempo do sonho da fantasia da imaginação, da entrega sem limites ou de espaço de silêncio e meditação. Viveremos despojados de tudo o que nos lembrar este tempo, no nosso tempo seremos outros, desfasados do tempo comum. E seremos amantes no sentido mais nobre da palavra, amantes porque nos amaremos, viveremos no tempo só nosso, num amor sem tempo. Não trairemos porque viveremos duas vidas.
Parou de falar um pouco, tomou-lhe com delicadeza uma mão, delicadamente, beijou-a demoradamente com uma surpreendente ternura, segurando levemente a mão dela entre as suas, demorou-se numa caricia que para ela pareceu não ter fim e que desejou que nunca terminasse.
Naquele momento estava longe de imaginar, no que aquele encontro iria resultar mas sentia-se estranhamente bem.
Ainda não compreendia bem o que lhe estava a acontecer, quando aceitou aquele encontro, seria uma aventura, um encontro entre duas pessoas adultas, dispostas a ter uma oportunidade de experimentarem uma relação fora do casamento, com o único fito de quebrar rotinas, e quem sabe dar outro alento à sua vida de casada. Além disso era também uma oportunidade de provar a si própria que não estava acabada e que era capaz de sentir o prazer do sexo em toda a sua plenitude. No entanto todo o ambiente que ele proporcionou e todas as suas palavras, transformaram toda a situação, e passada a surpresa inicial, descobriu uma nova beleza e perspetiva neste encontro. Se inicialmente estava insegura, agora tinha decidido tentar compreender o que ele imaginara,  sentia-se agora tentada a participar integralmente em tudo, sem reservas e sem tabus.
Queria apenas compreender claramente a proposta que as palavras dele sugeriam. Quando aceitou o encontro, não imaginou os contornos que agora lhe pareciam ter. Para ela seria uma tentativa de redescobrir o prazer do amor. O seu marido vivia obcecado pelos negócios, viviam entre eles uma amizade serena, mas de que o amor estava ausente, mesmo quando se entregavam sexualmente, não existia fogo mas uma espécie de cumprimento de uma obrigação, que se tornava cada vez mais raro e quase sempre bocejante.
Tentou fixar-se nos olhos dele mas os óculos escuros impediam-na. Nos contactos pela NET nunca tinham recorrido ao vídeo, apenas fotos e troca de mensagens pelo chat de uma rede social. Mensagens que a foram conquistando, o acesso às muitas fotos em que ele aparecia sempre muito formal e com óculos, que agora sabia inseparáveis.
Enquanto ela se envolvia nestas conjunturas que lhe ocupavam os pensamentos que a levavam-na a um beco por um lado apetecível por outro assustador.
Ele despertou-a pedindo-lhe com ternura.
- Posso beija-la?
Sem esperar resposta colocou-lhe as suas mãos suavemente nas faces, beijando docemente e demoradamente nos lábios, não ofereceu resistência e deixou-se conquistar com aquele beijo sem comparação com os que já tinha recebido. Não lhe procurou a boca mas apenas os lábios, como se a quisesse saborear pela eternidade. Num impulso lançou-lhe os braços em volta do pescoço puxando a si numa entrega de que se julgava incapaz.
Gradualmente afastou-a, e calmamente foi dizendo.
- Voltaremos a encontrar-nos, aprenderemos a amar-nos no nosso tempo e no nosso ritmo. Construiremos um mundo só nosso e só nesse mundo, nos encontraremos até ao êxtase da entrega física e espiritual. 
- Estas rosas- continuou ele com o ramo na mão- Transportam beleza e aromas, mas também alguns espinhos, não há flor que simbolize melhor o amor, sei que é uma frase comum, só a forma como tratamos da rosa e a oferecemos, tal como tratar dar e receber o amor faz a diferença. Querida com este ramo me entrego. 
Parou de falar uns segundos, como para a deixar digerir as suas palavras. Ela demorou a reagir e quando se preparava para balbuciar algumas palavras, sem mais ele levantou-se e sem esperar resposta, tomou-lhe o braço com doçura, e perante o espanto dela, conduziu-a até à porta.
- Contactarei consigo, voltaremos a encontrar-nos.
Abriu a porta e nesse momento o cão entrou, ela recuou como que receosa, no entanto o cão entrou calmamente sem lhe ligar, despediram-se com um beijo na face.
Estranhado a forma um pouco rápida e com alguma rudeza da despedida, na rua notou, que apenas a ausência do cão, tornava o cenário diferente, a rua era de facto pouco movimentada, apenas uma pessoa já com alguma idade caminhava no sentido onde ela se encontrava, quase que se chocaram, fazendo-a reparar com espanto que na montra do estabelecimento onde tinha estado se encontrava um cartaz já muito envelhecido onde se podia ler, ENCERRADO VENDE-SE OU PASSA-SE e com um número de telefone absolutamente ilegível.
Voltou para trás, bateu com violência na porta, mas ninguém atendeu, o transeunte despertado pelo barulho aproximou-se e perguntou.
- A Senhora procura alguém? Isto, está fechado, há mais de vinte anos, a minha filha mora no andar de cima e não me lembro de ter visto por cá alguém.
- Tem a certeza? – Arriscou ela
- Absoluta minha Senhora
- Mas ainda agora eu estive lá dentro, com duas pessoas. – Replicou ela com veemência
O transeunte olhou para ela com um misto de curiosidade e de comiseração, relativamente nova, talvez menos de cinquenta anos, vestia de uma forma estranha, não se enganava vestia, como se vestiria a avó dele, provavelmente a senhora não estaria boa da cabeça, teria até fugido de um hospital psiquiátrico, como não lhe parecia que ela corresse perigo, ou que viesse a causar perigo a alguém, não tomou nenhuma atitude, além disso sabia que se chama-se uma ambulância se meteria em confusões, limitou-se a dizer em tom de conselho.
- Talvez seja melhor a senhora voltar para casa e descansar um pouco, o cansaço às vezes faz-nos confundir as coisas.
 Atarantada com estas palavras virou as costas ao homem e apressadamente começou a subir a rua sem saber que fazer nem pensar, um arrepio agradável percorreu-a sentia ainda a doçura do beijo, no entanto ficou com a firme convicção de não mais voltar àquele local. O telemóvel tocou, era ele, atendeu e a voz soou pausadamente.
- Não te preocupes, voltaremos a encontra-nos. – E desligou
Dentro do estabelecimento, em semi-escuridão, o cão Blinde e a outra personagem o empregado, que sussurrando para não haver a mais pequena hipótese de ser escutado do exterior.
- Não o compreendo como é que o senhor que é cego convida esta mulher para um encontro, se não a pode nunca conhecer nem sequer apreciar a sua beleza.
- Está enganado eu vejo para além do exterior, voltaremos a encontrar-nos e ela me descobrirá integralmente como eu a descobri a ela. Tome, o preço que combinamos para abrir hoje..
Disse-lhe entregando um envelope que o homem nem conferiu.
- Blinde – chamou dirigindo-se ao cão, enquanto pegava na bengala branca e colocava a trela na coleira do pescoço do cão.
- Vamos, saímos pela porta dos fundos.  
Quando se dirigia para a porta dos fundos com o cão pela trela, parou, voltou-se para trás, e perante o espanto do velho empregado foi dizendo.
- Quem lhe disse que eu que era cego?
O velhote olhou para ele ainda mais espantado e insistiu.
- Mas é cego ou não?
Com um sorriso enigmático nos lábios, tocou com a bengala no cão este recomeçou a andar, e saiu sem mais palavras.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A PASSAGEM



A PASSAGEM

Era Novembro e chovia, chovia intensamente.
Como de costume nas últimas semanas o Domingo era dedicado a visitar os pais, no apartamento onde vivia localizado numa urbanização incaracterística nos limites da cidade, mais pensado em arrumar pessoas do que em acolher famílias, não se via ninguém na rua.
No carro sentou-se cansada ao lado do marido, um cansaço mais mental que físico que a impregnava intensamente um sufoco de que não se conseguia libertar.
Atrás, o filho mais novo bem preso à cadeira visivelmente incomodado pela liberdade do irmão, protestava sem parar.
Encostou-se no banco e fechou os olhos, o marido virou cabeça e perguntou:
- Estás cansada?
Acenou com a cabeça que não, enquanto pelo espírito passaram as últimas semanas, uma em especial
Naquele dia a mãe começara a falar, tão estranhamente que não esperava nem respostas nem reacções embora se lhe dirigisse, pois os olhos estavam fixos nela, sentia que não a chegava a ouvir nas suas respostas.
Num recomeço a mãe recostou-se no espaldar da sua cadeira, enquanto tinha falado as costas um pouco separadas do encosto, como quando alguém intervém publicamente numa tertúlia, ou numa orquestra um instrumentista antes de chegar a sua vez se ergue levemente na sua cadeira, atento tenso para não se perder da harmonia, descansando as costas na sua nova posição para a surpreender com o volume o tom e a teia de preocupações insuspeitas até então. Recomeçou:
- Não fui capaz de vos educar, nem a ti nem aos teus irmãos, não fiz a passagem do que aprendi da minha mãe, nada vale tudo o que sabes se não entenderes a linguagem da natureza, a linguagem da terra.
As suas mãos desenhavam no espaço o gesto de quem rasgava a terra, um estranho bailado vindo de tempos ancestrais, as palavras saiam como se fossem definitivas as últimas as essenciais, havia urgência na sua voz.
Nesse dia não tinha compreendido, mas o pai já a alertara: 
-A tua mãe anda um pouco esquecida, a médica de família marcou uma consulta para um neurologista.
O médico chamou-a: 
-É a filha mais velha?
 - Sim; respondeu
O médico ensaiou uma explicação com cuidado, tentando não a magoar, muito calmamente foi dizendo:
- A situação da sua mãe é complicada e vai requerer muita atenção compreensão e sacrifício de todos…..
O médico continuava a falar mas ela já não o ouvia, começou a lembrar-se de pequenas coisas, pequenos esquecimentos, situações que ao início achava graça, meter as caixas de fósforos no frigorífico, o peixe congelado na despensa, coisas com que a mãe invariavelmente se desculpava:
-O teu pai não faz nada, é tudo para mim, que às vezes nem sequer sei onde tenho a minha cabeça, quando tinha a tua idade…
Custava-lhe a compreender, mas gradualmente, tudo ia ficando cada vez mais claro.
O barulho das escovas do limpa brisas, martelava-lhe a cabeça, e esse ruído se a incomodava ao mesmo tempo a monotonia do som provocava nela uma espécie de entorpecimento que favorecia, como se estivesse a assistir a um filme, à visualização dos últimos tempos da vida da sua mãe.
 Uma mulher activa agarrada à vida e com uma saúde de ferro, insidiosamente e como se tivesse sido invadido lentamente por uma cortina negra, o seu cérebro, começou a dar mostras de falhar.
- Idade – pensava ela
-Idade- Diziam todos
A viagem continuava apesar de a distância ser relativamente curta, naquela momento para ela parecia não ter fim. Continuava de olhos fechados, sentiu o carro parar e ouviu o marido dizer:
- Chegamos.
Era Novembro e chovia, chovia abundantemente.
Lá fora a mãe com um regador, junto ao muro da casa ia regando as pedras, com a aplicação de sempre.
Compreendeu então a urgência das palavras daquele dia, a mãe antes de fazer a passagem para um mundo só dela, sentiu necessidade de lhe passar o testemunho acumulado nos tempos.
Não se conteve e chorou, chorou copiosamente, juntando as suas lágrimas às gotas de água da chuva.



                                                         Herminio

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

CASAMENTO PERFEITO ..





CASAMENTO PERFEITO
Aquele era um casamento muito singular, para quem conhecia os noivos diria que seria quase impossível aquela combinação. No entanto ali estavam eles, a noiva com um vestido verde, que logo na primeira aparição tinha causado um forte impacto entre os convidados e mesmo no padre que celebrou a cerimónia, pelo inusitado da cor, enquanto o noivo vestia um clássico fato. 
Mas era bem visível a genuína felicidade que transmitiam, todos os amigos e convidados ignoravam, por entre tanta diferença qual o íman que tinha motivado aquela decisão aparentemente tão apressada, em menos de dois meses, conheceram-se e decidiram casar.
Octávio, para quem o observava, era uma pessoa muito formal, notava-se não só na forma de vestir mas também no relacionamento com quem o rodeava. Exercia as suas funções como Gestor numa empresa de Segurança e Transporte de Valores, com profissionalismo e competência. A Administração tinha plena confiança em Octávio.
Havia apenas um pequeno problema, o seu vício que lhe limitava o contacto directo com os clientes.
Nos corredores da Empresa toda a gente falava em surdida, comentando como era possível que uma pessoa com tão bom caracter e de comportamento exemplar, se deixasse dominar tão fortemente.
O que é certo, é que o problema começou relativamente cedo, filho único de uma família de classe média, os pais notaram a sua obsessão bem cedo.
As consultas de psicologia e mesmo de psiquiatria, grupos de auto- ajuda não tiveram os resultados esperados.
Nos momentos de privação, o seu estado atingia pontos de verdadeiro drama, acontecendo em qualquer lugar ou situação.
Em casa fechava-se no quarto e os pais já derrotados, esperavam que a crise passasse, tinham já esgotado todos os meios e perdido a esperança de mudança.
No emprego, um dos Administradores testemunhou a intensidade de um momento de crise, com espanto e perplexidade.
Octávio levantou-se, tirou o casaco alivou o nó da gravata deitou as mãos ao peito, súbitos suores lhe correram pelo rosto, imenso vermelhão lhe cobriu o corpo todo, todo ele arfava, ouvia-se o bater do coração, já nada contava, via-se que precisava urgentemente, de satisfazer essa necessidade que o atormentava, o Administrador olhava-o pasmado, nunca a tal tinha assistido, tentou acalma-lo, mas Octávio como um relâmpago e sem palavras correu para os lavabos trancando-se dentro, quando regressou desgrenhado e a tentar compor-se parecia mais calmo, envergonhado pediu timidamente desculpa.
Inicialmente a Empresa colocou a hipótese de despedimento, por incompatibilidade entre o comportamento e as funções. Mas avaliando as qualidades profissionais de Octávio, apesar desse problema, foi encontrada a solução em que não teria nunca contacto com os clientes, mas continuaria a exercer as funções numa sala onde estaria só e com acesso directo a uma casa de banho.
Octávio continuava a viver na casa dos pais, com 35 anos não se lhe conheciam grandes amizades e as suas saídas ao fim de semana era para fingir perante os pais que tinha amigos, normalmente jantava fora e ia à última sessão de cinema.
Jantava quase sempre no mesmo restaurante, pela calma que o movimento moderado lhe garantia, escolhia uma mesa discreta que lhe permitia observar todo o estabelecimento e acessibilidade fácil aos lavabos.
Num sábado e contra o habitual o Restaurante estava com movimento inusitado, a mesa que sozinho ocupava era pequena e permitia apenas dois clientes, nunca seria incomodado pelo grupo de pessoas que se encontrava à espera. Por isso sem grande preocupação esperava que o empregado confirmasse o habitual prego no prato.
Inopinadamente ELA entrou com uma exuberância incomum, deitou um olhar à sala, cumprimentou efusivamente um empregado, dirigiu-se resolutamente para a mesa onde estava Octávio e ao mesmo tempo quer se sentava ia dizendo.
- Dá licença que me sente ao seu lado?
Octávio entre espantado e deslumbrado, sem tempo nem condições para recusar, acenou que sim. Enquanto ela ia dizendo.
- Venho aqui muitas vezes, gosto deste sitio.
 - Venho cá todos os sábados e nunca a vi. – Ia ele pensando mas sem abrir a boca.
- Mas aos sábados nunca cá venho, hoje não tinha compromisso.
- Sendo assim … - Pensou
Iniciou-se um tempo de silêncio, em que discretamente se iam observando, melhor ele discretamente ela sem qualquer constrangimento.
Octávio reparou que ela tinha as unhas da mão um pouco maltratadas e fixou-as demoradamente, tempo de mais, ela notou esse interesse.
- Sabe, não consigo resistir, mordo as unhas compulsivamente.
E sem se deter nas palavras continuou.
- Já que vamos jantar juntos, e hoje esta demorado, eu sou a Liliana e você como se chama?
- Octávio - respondeu timidamente e ainda sem conseguir disfarçar o deslumbre.
Felizmente antes de sair tinha-se fechado no quarto e dado asas às suas necessidades, tinha a certeza de que não teria, pelo menos tão cedo, nenhum ataque de ansiedade que o levasse a sair.
Por outro lado Liliana era bem desinibida o que impediu tempos de silêncio confrangedores.
- Que vai jantar? – Perguntou acrescentado - O arroz de Pato cá é delicioso.
- Acho que vou escolher isso- Respondeu Octávio não sabendo ainda como reagir, mas tendo o cuidado de fazer sinal ao empregado, enquanto dava uma falsa olhadela ao Menu.
O jantar correu bem, a conversa atingiu fluidez, Octávio contagiado por Liliana desinibiu-se, soube que Liliana era Relações Públicas numa Empresa de Transportes Aéreos, acabaram por ir juntos ao cinema, no local bem perto do Restaurante por isso foram a pé, aproveitando para conversar e se conhecerem, Liliana riu-se quando Octávio disse que ainda vivia com os pais, e riu-se mais ainda quando ele disse que como já era um pouco tarde, tinha que lhes telefonar, a dizer que ia mais tarde que o costume. Ela vivia só, num T1 bem perto do Centro da cidade, e bem próximo do local onde se encontravam. No fim do filme a noite estava agradável, convidava a um passeio pela larga avenida, a companhia parecia agradar aos dois, naturalmente continuaram juntos em conversa com registo mais suave e intimista.
- Queres tomar um café? - Sugeriu Liliana
-Pode ser- Respondeu Octávio.- Mas a esta hora não vai ser fácil de encontrar café aberto.
- Claro que vai fácil, moro a menos de cinco minutos, tomamos em minha casa.
As coisas levavam um caminho a que Octávio já não estava habituado, o seu problema acabaria por ser visível começou a ficar tenso, desejava prosseguir mas tinha de facto muito receio. No entanto resolveu arriscar, não seria a primeira situação desoladora na sua vida, até estava habituado de mais.
O apartamento em que Liliana vivia localizava-se num terceiro andar numa zona bem aprazível embora de construção não era recente, disponha de elevador.
No elevador Octávio ficou ainda mais tenso, Liliana reparou mas ignorou.
No hall de entrada havia um bengaleiro, Liliana sugeriu-lhe para colocar lá o casaco, aproveitou tirou a gravata, sentiu-se momentaneamente mais desafogado. O apartamento tinha um ar condizente com Liliana, expansivo e a convidar à descontração, na sala relativamente pequena, um móvel com algumas prateleiras com CDs, livros e um pequeno bar, havia outro com aparelhagem de música e uma TV. Finalmente um único sofá para duas pessoas um puf e uma pequena mesa de apoio.
- Vou preparar o café, serve-te do uísque, trago já gelo.
Octávio ficou só a pensar naquela improvável situação, ignorava o que ia acontecer mas sabia que não ia aguentar mais tempo a ansiedade que o tomava. Dois desejos o percorriam, aquele que tornava a sua vida num inferno, mas lhe apaziguava o espirito, e o de viver com Liliana uma noite de amor.
Liliana chegou, com o café e o gelo. Tinha trocado de roupa, trazia vestido uma leve túnica, ela estava mais sensual.
Liliana puxou o puf, para junto do sofá, sentou-se ao lado dele, sacudiu o calçado dos pés, colocou os pés no puf, a túnica subiu-lhe ligeiramente nas pernas, sem que ela fizesse nada para o evitar, confortável com a situação. A visão daqueles pés toldou o raciocínio de Octávio, um pés lindo e umas unhas que o fascinavam, não resistiu, levantou-se bruscamente ajoelhou ao pés de Liliana e começou a beija-los, sôfrega e ardentemente. Esqueceu-se de tudo, dos seus medos e da possibilidade de mais uma vez tudo terminar mal. Um som difuso chegou aos seus ouvidos parecia-lhe uma queixa, um gemido, por um segundo hesitou, mas aos ouvidos um sussurro chegava:
- Não pares, continua não pares…
Continuou os seus dentes acariciavam as unhas com paixão, cedo descobriu que debaixo da túnica apenas um corpo nu. ……….
Acordou junto a ela, ambos ainda nus, já era bem tarde pela persiana os raios de  sol irradiavam. Os lenções mais os descobriam que tapavam, percorreu com o olhar todo o seu corpo, nos pés algumas unhas totalmente ruidas ao limite, sentiu medo como reagiria ela? Lentamente ela despertou, olhou nos olhos, com uma imensa paixão e sem que ele espera-se.
- Queres casar comigo?
 Delirou, soube que ela era a mulher que sempre desejava, tinha a certeza que ela o aceitava tal e qual era, que naquele momento o poder que a atração das unhas exerciam sobre ele, não seriam um impedimento a uma relação, não teria mais que praticar uma espécie de onanismo, mordendo as unhas dos seus próprios pés, por isso gritou
-SIM .
Sentido os dentes dela a morder-lhe as unhas das mãos, sorriu, sabia que a ONICOFAGIA seria vivida a dois..



sexta-feira, 5 de agosto de 2016

CHOQUE

                     
                                          CHOQUE

Sofia, responsável pela cozinha e cantina daquela escola, todos os dias desde de há alguns meses à hora de almoço se encontra junto ao balcão de distribuição das refeições, os estudantes como sempre chegam aos magotes fazendo a algazarra do costume. No entanto há nela um silencioso desespero. Trinta e cinco anos, uma confortável vida familiar, marido, filho, situação económica razoável, tudo circunstâncias para uma vida feliz. Desde já há alguns meses, que sentimentos caóticos e absurdos habitam dentro dela.
Enquanto ela se debatia com as suas angústias, na televisão em rodapé passava uma notícia: PROFESSORA ACUSADA DE ASSEDIAR UM ALUNO.
Como se tivesse sido atravessada por um raio o seu coração bateu mais aceleradamente, e um sobressalto a percorreu. Não se conseguia libertar dos pensamentos confusos que a percorriam, tanto mais que se considerava bem racional e com capacidade de discernimento.
E o que sentia era tudo menos racional, na aparência sem explicação, em alguns momentos já tinha desistido de lutar contra esse sentimento que a levava ao desespero.
Lembrava-se bem da primeira vez, que verdadeiramente nunca existiu, mas que para ela lhe pareceu bem real.
Como acontecia frequentemente, sempre que estava presente na hora das refeições, costumava dar uma ronda pelas mesas, tentado perceber da aceitação do que tinha sido confeccionado e servido.
Naquele dia os seus olhos repousaram e cruzaram-se com os olhos de um aluno de uma forma intensa que a obrigaram a afastar-se abruptamente. Um sentimento de culpa a percorreu sem ela perceber bem a razão. Era uma patetice, afinal estava diante de praticamente uma criança quando muito um adolescente, mas quanto mais pensava nisso, mais obsessivamente a imagem do aluno a perseguia.
E a televisão a continuar a passar em rodapé: PROPESSORA ACUSADA DE ASSEDIAR UM ALUNO.
Nesse dia saiu mais tarde um pouco, conferiu com as funcionárias da cozinha os produtos existentes no armazém e nas câmaras frigoríficas.
Chegou ao carro ligou a rádio e a maldita notícia continuava: PROPESSORA ACUSADA DE ASSEDIAR UM ALUNO.
Estava a chover era Janeiro e àquela hora do dia, passava das 17.00, já se fazia noite. Mudou de sintonia e ouviu uma música de a romântica. Fechou por um pouco os olhos. Recostou-se no banco do carro e ficou um tempo embalada pela música que ia ouvindo, parecendo-lhe que não tinha mais fim, a chuva continuava a cair fazendo-a sentir sonolenta, não era capaz de dizer quanto tempo esteve assim.
Subitamente alguém bateu no vidro da porta do carro. Sobressaltada virou-se para ver quem era, espantou-se ao ficar olhos nos olhos com o aluno que lhe invadia os sentidos.
- Sente-se mal? – Perguntou ele.
-Não – Respondeu a medo- Adormeci com a música.
A chuva batia no pára-brisas com alguma intensidade, o rapaz estava encharcado, hesitante perguntou-lhe.
- Estás à chuva, não tens guarda-chuva?
- Não, e o autocarro da escola já partiu, o problema é que moro bem longe.
Com uma firmeza que ela própria não esperava disse-lhe:
-Vais ficar encharcado, ainda ficas doente, entra para o carro, eu levo-te a casa afinal não deve ser assim tão longe.
O rapaz hesitou mas as alternativas eram poucas, tinha-se distraído na biblioteca, no PC na sua ocupação preferida, a internet. Um furo pela falta de um professor, faltava ainda muito tempo para novo transporte escolar, e sabia que os pais ficariam preocupados se não chegasse à hora habitual por isso aproveitou.
Entrou, sentou-se, apesar de novo era bem alto, o coração de Sofia começou a bater mais rápido, sentiu-se ruborizar.
Com uma audácia que a surpreendeu colocou a mão em cima da perna do rapaz, dizendo:
- Estás mesmo muito molhado, diz-me onde moras, para eu te levar a casa. E já agora, como te chamas?
- Sou o André, moro junto ao rio, antes da ponte. Sou do 9º D, daqui a pouco faço 15 anos. Acrescentou como quem diz uma ladainha.
A mão hesitava em sair e foi deslizando pela perna cada vez mais audaciosamente, ele dava a sensação de estar incomodado, não percebia o que estava a acontecer. A idade de André martelou-lhe a cabeça, 15 anos!
Ela sentia o corpo dele quente apesar da ganga das calças estar encharcada, sabia-lhe a um quente ainda mais sensual. Inadvertidamente puxou o seu banco para trás, ficou com mais espaço, virou-se para ele e abruptamente puxou-o para si e beijou-o intensamente. O rapaz parecia perdido e atónito, sem saber como reagir, a língua de Sofia procurava a boca do jovem, este parecendo vencer a surpresa ofereceu a sua boca aceitando toda a paixão que Sofia transmitia.
A chuva continuava, a noite tinha chegado e este momento parecia não ter fim.
Subitamente alguém bateu no pára-brisas do carro, Sofia despertou da paixão de que estava tomada, assustou-se e espantada viu-se só.
Lá fora, uma noite clara de luar fazendo jus ao ditado popular, sobre o luar de Janeiro, estava o jovem que se dirigiu para a porta do carro que com ar preocupado, ficando espantado pelo que via foi dizendo:
-Perdi o transporte escolar e tenho que ir a pé para casa, reparei que a senhora parece não estar bem, como se lhe tinha dado alguma coisa, posso ajudar?
A saia subida na coxa, a blusa desapertada, incapaz de compreender o que se passava, Sofia sentiu que tinha enlouquecido, era um sonho antes ou agora? Sem saber o que dizer, com as palavras presas na garganta, balbuciou:
- Senti-me um pouco indisposta, mas já passou. – Maquinalmente ia compondo o vestuário.
Continuava desorientada e aturdida com a situação, sabendo do absurdo e sem sentido das suas palavras perguntou:
- Não choveu hoje? Como te chamas?
O jovem não compreendendo a razão das perguntas, olhou para ela perplexo, corando enquanto a via compor a roupa, acabou por dizer:
- Não, hoje estive sempre sol e frio, mas chuva não. Sou o André, vou fazer 15 anos.
O seu olhar não saía dos seios de Sofia, envergonhado fingiu olhar para a lua, dando-lhe tempo para ela se arranjar.
Sofia sem saber como reagir, não sabendo se vivia agora o sonho ou se o tinha vivido antes, a sensualidade ainda a percorria e a presença de André era para ela um misto de tentação e vergonha, pudor e audácia. Era adulta tinha obrigação de ser mais responsável, além de mais notou o constrangimento de André, sentindo-se obrigada a dizer:
- Senti-me mal mas já estou bem obrigada, pela tua atenção, se quiseres levo-te a casa até porque já é tarde e não me custa nada.
Em silêncio percorreram os cerca de dois quilómetros que separavam a escola da casa de André em poucos minutos.
Este indicou a casa, Sofia parou e despediu-se com um beijo provocador e, propositadamente, bem perto da boca dele.
Arrancou vagarosamente verificando pelo retrovisor que o jovem ia olhando para o carro enquanto se afastava.
À chegada a casa, naquele dia o marido que já lá se encontrava, vendo que ela vinha só, perguntou:
- Não trouxeste o João? Queres que o vá buscar?
A resposta dela foi repentina e sôfrega, mais em gestos que em palavras, beijou-o ardentemente, começou a despir-lhe a camisa e arrastou-o até ao quarto.
Enquanto revivia esses acontecimentos sentia que a figura de André permanecia cada vez mais dentro de si, no entanto tinha sido incapaz de se lhe dirigir, sentindo porém que ele a observava essa sensação lembrava-lhe, que os seus sentimentos eram sentimentos proibidos, porque era casada e porque se tratava de um menor.
E pensava, pensava no estratagema que tinha usado, numa última tentativa de um contacto com André, sentia o pulsar do coração, o telemóvel dizia-lhe que tinha resultado, uma curta mensagem: Gostava de falar consigo, André.
Dirigiu-se para o seu gabinete. E ao passar pelo quadro onde constavam as ementas semanais, olhou para uma folha A4 que mandara colocar com o seguinte aviso. “TODOS OS ALUNOS QUE TENHAM ALGUM REPARO A FAZER NAS EMENTAS DESTA CANTINA, CONTACTEM A RESPONSÁVEL PELO TELEMÓVEL… “ E o número do seu telemóvel pessoal.
Chamou a funcionária para lhe transmitir indicações, sentiu na voz toda a ansiedade do momento, pela sua cabeça passavam desejos incontidos, reparou no rosto espantado da funcionária enquanto lhe dizia.
- Um aluno contactou-me por isso enquanto o estiver a atender, não estou para ninguém.
Vestia a mesma blusa propositadamente, sentou-se, desapertou dois botões, cruzou as pernas subiu ligeiramente a saia e esperou.

De mão dada com uma colega de turma, André entrou na sala. E o mundo desabou sobre Sofia.    

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A MOCHILA



A FABULOSA VIDA DE MATILDE
A MOCHILA 
Matilde cumpria o ritual do costume, dirigia-se para a paragem do autocarro que a levaria de volta a casa, ainda era muito cedo, entre o fim das aulas e o horário do autocarro o espaço temporal era muito, para ela o tempo sem ocupação era sempre muito, não era muito dada a ócios, mas a espera trazia algumas vantagens, normalmente aproveitava para anotações na tablet como uma espécie de diário onde ia escrevendo os acontecimentos do dia com alguma frequência. Ou então fazia uma ou outra chamada do telemóvel, quase sempre para alguém de quem tinha alguma saudade, apenas para ouvir a voz dessa ou dessas pessoas.
Ao chegar à paragem do autocarro localizada no limite de um pequeno jardim que em dias de bom tempo atraía algumas pessoas, que aproveitavam o fim de tarde para um passeio, Matilde sentou-se no banco colocou a mochila no chão pegou na garrafa de água bebeu um gole, respirou fundo e ficou indecisa entre marcar para as pessoas de quem tinha saudades, e as suas anotações. Decidiu-se pelas anotações das impressões do dia.
“Passamos o dia na faculdade - eu, a mochila, e a garrafa d'água. Como quase todos os dias, nos últimos anos da minha vida. Aos fins-de-semana, quando todos os meus amigos e todos os estudantes voltam a casa: para os namorados o descanso e almoços em família, a cidade ficará mais vazia, de caras conhecidas. Nos domingos as lojas terão mais clientes mas eu não saberei, ainda não passei aqui um Domingo, os cinemas talvez esgotem, mas isso não é da minha conta-- invariavelmente eu escolho esta paragem, pouco frequentada, uma vez que fica um pouco longe da faculdade, esta escolha permite-me a liberdade de registar estas minhas impressões, a paragem fica perto de um jardim. Já são alguns anos desta rotina, o tempo parece ter parado, o cenário é o mesmo: pais, mães, bebés e máquinas fotográficas, crianças encantadas com as árvores, desastradas entre as flores, espantando os pombos e admirando os patos que num pequeno lago se movimentam serenos. O jardim não tem o cheiro verde-escuro da pinha, nem caruma dourada no chão. Mas tem palmeiras bem altas, que rasgam o céu azul até onde o olhar alcança. É isso que me atrai neste espaço: a segurança de uma certa eternidade. Da minha posição de observadora, neste dia primaveril mas já bem quente, um quiosque é alvo de uma intensa procura, o motivo são os gelados a que as crianças não resistem e a que os pais desistiram de negar aos seus pedidos insistentes.
O quiosque dos gelados não fica longe do local onde me encontro, subitamente apetece-me saborear um de chocolate, afinal também mereço, por isso vou interromper aqui as minhas divagações.
Matilde desligou a tablet, levantou-se dirigiu-se com um passo muito rápido para o quiosque. Em fila estavam algumas pessoas que aguardavam pela sua vez, sabendo o preço do gelado da sua preferência preparou o dinheiro para evitar a demora dos trocos. Em frente ao quiosque algumas mesas serviam de pequena esplanada com uma televisão para a qual as pessoas olhavam distraidamente. O atendimento estava demorado, como de costume as crianças estavam sempre indecisas na sua escolha e os pais ferviam de impaciência, preocupada Matilde tentava perceber o tempo que ainda demoraria a ser atendida, em rodapé na televisão passava uma noticia, infelizmente demasiado comum neste tempo, a Polícia de uma localidade que não conseguiu identificar, tinha sido chamada por causa de uma mochila abandonada e que levantou suspeitas, acrescentando que a mochila parecia libertar algum tipo de gás, aparentemente inócuo para as pessoas, ou pelo menos sem consequências graves, mas já tinha causado a morte pelo menos a algumas aves, aconselhavam ainda às pessoas utilizarem mascaras protectoras para a respiração, ou perante casos de dúvida colocarem no nariz pelo menos um lenço molhado como filtro de respiração. Ao ver essa notícia notou que se tinha esquecido da sua mochila na paragem do autocarro, aflita saiu da fila e dirigiu-se para lá a correr. Ao chegar à paragem notou que as poucas pessoas que lá se encontravam tinham o nariz protegido com um lenço e olhavam de forma estranha para a mochila que junto à qual se encontrava um pássaro morto.
Alguém lhe tocou no ombro como que alertando:
 -Tenha cuidado a televisão tem alertado que estão a espalhar mochilas com gás venenoso e que um dos sinais são pássaros mortos. Pelo sim pelo não coloque um lenço no nariz.
Matilde sem coragem de dizer que a mochila era dela e que não tinha gás nenhum, foi-se afastando cautelosamente sem saber o que fazer. Enquanto se afastava atarantada começaram a fazer-se ouvir sirenes da polícia a sinalizar urgência.
Subitamente sentiu um braço sobre os seus ombros, uma sensação estranha não física, mas como se tivesse sido envolvida por uma maciez de pluma, leve e amorosa um aconchego que lhe sossegava a alma, enquanto uma voz carinhosamente lhe dizia:
- Não te preocupes Matilde, como sempre te prometi eu estarei contigo sempre que alguma preocupação te assalte. Hoje é o dia, estou aqui para te ajudar.
Os seus olhos abriram-se de espanto a pessoa estava envolta num misto de neblina e aura, a sua voz era-lhe claramente familiar o desenho ténue do seu rosto também, mas era incapaz de dizer alguma coisa e muito menos de pronunciar o seu nome.
- Estás espantada? Vamo-nos retirar calmamente deste local. Deixar as coisas acalmar, nada vai acontecer, vais ver.
-Tenho medo, vi as notícias e junto à minha mochila está um pássaro morto. Quero fugir daqui para longe, tenho muito medo. Como vieste até aqui? Porque não sou capaz de te ver? Porque te vejo de forma difusa como num sonho?
- Quem sabe se eu estou aqui entre o sonho e a realidade, mesmo que seja sonho para ti é realidade, se for realidade estar contigo considera uma bênção, se for sonho preciso de estar aqui para te libertar das angústias do que para ti é um pesadelo. Não sou eu o teu protector?
-Claro que és, não me perguntes a razão, mas tenho medo de ir buscar a mochila com esta gente toda, e com o pássaro ali, mas sei que para ir buscar a mochila preciso de ir a Santiago de Compostela, preciso que vás comigo até lá?
-Não te preocupes a felicidade consiste em estar e não em ser, estar no caminho certo, estar no coração de quem amamos, estar com o coração de quem amamos, não importa a distância, tomaremos o transporte para Santiago, um transporte com um dom especial desloca-se no tempo e não no espaço. A nossa viagem será uma viagem em espírito. Tens que confiar em mim e envolver-me num abraço. Só um abraço de amizade nos transporta onde desejamos estar. Cumpriremos todos os teus sonhos, e todos os rituais que o teu espírito pede.
- Leva-me daqui Amigo, deixa-me abraçar-te, abraça-me. 
 Matilde anichou-se nos braços do seu Amigo, que a cobriu com os seus braços, fechou os olhos sentiu que era conduzida como uma cega, enquanto o Amigo se lhe dizia:
-Mantem os olhos fechados e o espírito aberto, eu te conduzirei, pelos caminhos, que te devolverão à luz e à tua paz.
Matilde sentiu que se movimentava, mas era uma movimento de uma forma estranha mais do que a deslocação do corpo era o espírito que pairava, e num tempo sem tempo estava em Santiago de Compostela, cumpriu todas as tradições, o Amigo não estava visivelmente presente, mas sentia o seu abraço e a sua protecção.
Subitamente sentiu-se transportada de volta, não na paragem do autocarro, mas no seu quarto, não compreendia o que se tinha passado, também não compreendia a inesperada presença do seu Amigo para a confortar, ainda compreendia menos a sua súbita chegada a casa, não sabendo o que tinha acontecido à mochila e ao pássaro.
Sentindo ainda o conforto do abraço do Amigo puxou um pouco a roupa da cama ao corpo, pois apesar da temperatura amena sentia o fresco da manhã.
Tentado libertar-se das preocupações ia saboreando esses momentos, quando ouviu a voz da mãe:
- Matilde que ideia foi essa de pegares no meu porta-chaves de casa, e o pendurares na tua mochila?
- Que porta-chaves mãe?
- O que tem a forma de um pássaro. A mochila está na sala não te esqueças de deixar o porta-chaves.
- Não, não me esqueço não, mãe… Eu deixo. 
Matilde respirou fundo começou a levantar-se enquanto se ia lembrando do Amigo. Pensando que era bem certo "que quem encontra um amigo encontra um tesouro".


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