sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Fabulosa Vida de Matilde

O FORMIGUEIRO


Matilde era uma jovem com ideias muito peculiares o seu comportamento desalinhado com a maioria das pessoas da sua idade, chamava à atenção.
Gostava muito de passear no pinhal perto de casa, levava sempre a sua máquina fotográfica, via na natureza pormenores que mais ninguém conseguia ver, raios de sol a penetrar pelas ramagens, pequenas flores silvestres, aves, lagartixas, esquilos, tudo era um festim para os seus olhos e uma oportunidade de gravar em fotos o que a alma via. Tinha apenas alguma pena de não saber identificar as coisas que descobria, mas mesmo assim valia a pena senti-las. 
Nessa tarde, isso aconteceu mais uma vez, ao caminhar pelo pinhal, os seus olhos detiveram-se num carreiro de formigas e baixou-se para as observar mais de perto, admirou a sua constância na tarefa e a sua disciplina, seguiu o carreiro para descobrir onde seria a casa das formigas, pelo caminho tirou algumas fotos, que depois seleccionaria, ainda foram alguns metros, até o local de entrada do formigueiro, ao caminhar curvada sentiu algum desconforto, depois de uma última foto endireitou-se subitamente. E inadvertidamente bateu com a cabeça, num ramo já velho que pendia de uma árvore. 
Ficou atordoada, sentiu de dentro uma força que comprimia o seu tamanho diminuía em cada instante, as suas mãos eram agora minúsculas e ao olhar para o seu corpo, notava transformações incríveis, gradualmente tinha-se transformado numa formiga. Reparou que ao lado a sua roupa estava impecavelmente arrumada, no entanto pendurada ao pescoço a máquina fotográfica tinha sofrido a mesma redução de tamanho. Não teve tempo de reagir. As outras formigas do carreiro, obrigaram-na a mover-se, esteve indecisa um instante. A máquina a arrastar-se pelo chão impedia-a de caminhar, com uma das mãos puxou-a para as costas perante o espanto das outras formigas. Finalmente decidiu-se, iria para o formigueiro. Como nada transportava, resolveu ajudar aproximou-se de uma formiga que transportava um peso excessivo, e colocando a boca na carga, sentiu um sabor familiar. 
- Isto é o bolo da minha mãe – pensou.
Entrou dentro do formigueiro, e viu-se no meio de uma azáfama incrível, centenas ou mesmo milhares de formigas movimentavam-se perfeitamente organizadas, mas o seu aspecto insólito, devido a ter às costas a máquina fotográfica, chamou à atenção de algumas formigas que lhe pareciam uma espécie de polícias, rapidamente foi convidada a acompanha-las para ser levada à presença da Rainha. Temeu pelo que iria acontecer, mas não resistiu e resolveu ensaiar se a máquina funcionava tirando umas fotos, o flash assustou os guardas que se dobraram perante ela. Voltou a coloca-la às costas e prosseguiram até à Rainha. Quando chegaram junto a esta, um dos guardas que parecia ser o chefe, contou as magias a que assistiram, luz a sair de uma antena que se mexia. Esta ficou pensativa a ponderar bem o que fazer perante tamanho desafio. Finalmente disse: 
- Façamos-la acasalar com um dos nossos machos, e criaremos uma nova raça da nossa espécie, a raça dos alumiadores. 
Matilde ficou assustada, não queria isso, desejava voltar a sua condição de humana, a sua reacção, foi rápida. Dirigiu-se a Rainha:
- Majestade, preciso de tempo para pensar, perdi-me do meu carreiro e os meus companheiros andam por certo à minha procura, entre os da minha espécie só se deixa de procurar quando se escolhe em liberdade o local para viver. Aceitarei o convite depois de falar com eles.
- Concordo - respondeu a Rainha, acrescentando.- Sairás com uma escolta, e até ao por do sol se ninguém aparecer, voltarás. 
O regresso para fora do formigueiro foi bem veloz. Metade da escolta saiu primeiro depois ela a seguir os restante elementos, para não impedir o movimento contínuo das obreiras, o chefe da escolta puxou-a com alguma violência, contra a vegetação que ladeava a entrada, ao fazer isso ela chocou com a cabeça num arbusto, tombou e sentiu-se desmaiar. 
Lentamente começou a sentir a frescura do tapete de folhas e ervas que cobria o chão, olhou para si com o corpo cheio de formigas, levantou-se e sacudiu-se, estava inteira igual a ela mesma, apenas uma coisa bem estranha, a máquina fotográfica continuava pendente nas costas. 
Pensou se não teria enlouquecido: - Teria sido um sonho? – Interrogou-se
Olhou para o relógio, o tempo tinha passado, combinara encontrar-se com o João estava quase na hora, com a mão tentou arranjar o cabelo e saiu ligeira para casa.
Pontual como sempre o João já se encontrava à sua espera. Olhou para ela meio espantado:
- Matilde que te aconteceu? Que é isso na cabeça?
- Nada de especial, bati com a cabeça no ramo de uma árvore. Tenho aqui umas fotos, que tirei esta tarde, para te mostrar. 
E começou a passar as fotos tiradas no formigueiro.
João olhou sem perceber, aos seus olhos passavam quadros totalmente negros sem qualquer vislumbre de imagem. Perplexo murmurou:
- Decerto a máquina avariou, não vejo nada.
Matilde ia vendo e recordando, os túneis, os silos, as longas filas de formigas, os guardas, a Rainha, aos seus olhos passaram todos os pormenores da sua aventura. 
As palavras do João fizeram-na reflectir, levando-a a descobrir:
- Quem não viveu a emoção do diferente, nunca será capaz de olhar para além da aparência. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Pseudo-Poema



Os pássaros chilreiam no entardecer do dia,
em cantos leves e ondulantes de serenata,
em sintonia com as vozes graciosas de crianças,
fazem dos quotidianos horas de silêncios. 

Quão belo pode ser o verde das árvores altas
se há cães felpudos nas suas sombras? 
E quão intensamente pode uma alma sentir
em longos instantes de plena solitude?

Há ainda o mar que bate longe e ecoa perto
e um coração que se esvazia lentamente 
pelo caminho tortuoso dos tempos amargos,
mas que não azeda a vida que se adocica na ventura.

Porque há a esperança nas vozes do mundo
e as aves cantam fortemente contra os dias aziagos,
que se querem de repleta luminosidade e vigor
brilhando sempre o Sol  em todos os céus azuis.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

O homem que sabia voar


Numa rua de movimento muito reduzido junto à vedação de um prédio em construção, um carro de apoio aos sem-abrigo, a que se juntou um pequeno grupo de curiosos, uma Ambulância, bem como um carro da Polícia, podia ver-se o corpo de um homem, que aparentemente tinha caído desse edifício. O que causava estranheza à Polícia era o corpo ter caído à rua, aparentemente tinha sido alvo de um forte impulso que o levou a cair fora da vedação.
As Técnicas de Apoio Social estavam estupefactas, aquele era o Chico, a Psicóloga que fazia parte da equipa ainda se lembrava da última entrevista, para a caracterização do Chico e a definição de uma estratégia da sua integração social. Parco de palavras não mostrando nenhuma vontade de mudar de vida, sem queixas nem lamúrias mais do que conformado, feliz com a vida que levava. As perguntas eram quase sempre respondidas por monossílabos, e sem grandes discursos, ultimamente porém as conversas tinham algo de estranho. Entre referências a conversas com pássaros e a ideia de se libertar do corpo, uma lhe veio à mente. 
- Já conversamos há tanto tempo, já nos conhecemos bem, estou aqui para o ajudar a encontra um caminho para si, sempre deve haver alguma coisa que goste de fazer ou que saiba fazer bem.
- Sim há uma coisa que eu sei fazer bem. Sei voar.
A surpresa atingiu a Psicóloga de alto a baixo, uma resposta destas, trazia a lembrança casos de pessoas sem-abrigo de condição social inesperada. As suas perguntas, saíram em enxurrada. 
-Voar? Foi piloto? Esteve na vida militar? Onde aprendeu? 
- Não, voar como um pássaro, voar livre, apenas voar. 
Os olhos da Psicóloga, com algumas lágrimas teimosamente a correr, iam-se voltando para o seu caderno de apontamentos a que acrescentou algumas palavras, que nada tendo de científico testemunhavam, uma forma de viver nunca entendida. E leu o que foi escrevendo ao longo do tempo. 
Chico é um tipo estranho, uma idade indeterminada, provavelmente menos do que aparenta, mas a vida dura que tinha levado, deixou marcas profundas no seu aspecto. Nada disso o preocupava mas apenas o momento vivido, era como um pássaro a quem tinham destruído o ninho, ainda pequeno e que com poucas penas, apesar da dificuldade aprendeu a voar.
Conheceu diversos lares, casas de acolhimento, mas nuns casos a artificialidade da relação, noutros uma disciplina nunca entendida, fazia-o tentar, e na maioria das vezes conseguir, fugir e tomar a rua como o seu espaço o seu lar a sua tribo. 
No Verão os relvados de alguns jardins, serviam da mais confortável das camas um quarto cujo limite era infinito. No Inverno bastava um abrigo da chuva e do cortante vento do Norte, normalmente um prédio abandonado, como era o caso daquele momento, uma quantidade razoável de cartão, umas mantas que alguém deitava fora ou oferecia. 
Vivia com extraordinário deleite os dias de trovoada, uma sinfonia de sons e cores lhe era oferecida, não compreendia o medo da maioria dos “outros”. 
Com o tempo Chico foi-se isolando e vivendo cada vez mais para si próprio, sobrava-lhe as conversas que ia mantendo com os pardais. Principalmente um, um pardal sábio e já idoso, pode-se chamar idoso a um pardal? Com que idade morre um pardal, como se pode dizer que se é velho?- Pensava.
Passava horas a olhar para o céu e sonhava em ver a cidade lá alto. Tão real era o seu sonho que as nuvens o deixavam sem ar, apesar de não entender bem o que era ser uma ave. O local onde ultimamente vivia permitia ver a amplitude do céu e o voo das mais variadas aves. Não precisava de mais nada, a vida era completa. 
Uma coisa porém o preocupava, ultimamente na carrinha, que algumas vezes lhe fornecia alimento e mais alguma treta, viajava uma tipa, Psicóloga, diziam elas, que lhe fazia perguntas e mais perguntas. Queriam saber se ele estaria disposto a fazer parte de um programa de integração social, uma cena destas que não lhe serviria de nada. 
Fechava a boca ou respondia de má vontade, recebia o que interessava e ia à sua vida. 
- Já não se pode ser livre. – Pensava
As conversas com o seu amigo pardal eram cada vez mais frequentes e versavam os mais variados temas, quem os ouvisse, se isso fosse possível, lhes chamaria de loucos. 
- Que te preocupa? – Perguntou-lhe o pardal notando-lhe o ar pensativo pouco habitual nele.
- Já não se pode ser livre- disse em voz alta em resposta ao amigo pardal, e continuou - Estão sempre a perguntar-me o que sei fazer, sou livre, não sei fazer nada nem preciso, a liberdade tem o sabor de ser e estar como se quer e onde se quer.
O pardal mostrou-se atento, abriu ligeiramente as asas, olhou-o bem de frente e de repente exclamou:
- Já sei, vou-te ensinar a voar! Tu entendes a minha linguagem eu percebo a tua, vives livre como eu, por certo que aprenderás a voar. Em algum momento da tua vida já foste ave. Dentro de ti ainda pulsa esse espirito.
Ao ouvir isto Chico levantou-se de um salto, levantou, bateu os braços como se fossem asas e gritou para o pardal: 
- Como posso voar sem asas? Estou a ouvir bem o que estas a dizer ou estou a enlouquecer? 
- Chico, porque gritas tanto? Não é a falta de asas que te impede de voar, mas a tua mente que te prende ao chão, ainda não és totalmente livre, aprende a voar e atingirás a liberdade plena. 
Subitamente apoderou-se dele um desejo imenso de realizar o sonho, voar ver o mundo do alto, sentir a emoção de liberdade total. Estar onde desejasse, sem regras, sem limites, sem sinais, sem proibições.
- Quando começamos?- Exclamou decidido. 
O prédio onde vivia estava inacabado sem divisões, ele tinha escolhido o último andar, sabia que estava mais resguardado de visitas curiosas. O pardal mediu bem o espaço livre, pensativo foi dizendo: 
- Para começar este espaço serve. Começarás a voar aqui. Eu te ensinarei!
Com muita insistência do pardal que ele aprendeu a voar pequenas distâncias. Desabituado a exercícios físicos, sentia dificuldade nos seus voos e era muitas vezes vencido pelo cansaço.
Mesmo assim não desistiu e quando já estava confiante, aventurou-se a voar fora do prédio. Tirou a protecção de madeira de uma janela, olhou o céu e todo o espaço em volta e disse para o amigo:
- Que dizes de dar uma volta, ir e voltar?
O pardal olhou para bem dentro dele profundamente, para além dos limites do seu corpo, como se quisesse habitar a sua alma, dar-lhe espiritualmente as asas que Chico fisicamente não possuía.
-Sim, mas tem cuidado, ainda precisas de te libertar do teu corpo.
O primeiro voo foi curto e tímido, regressou uns segundos depois, respirou fundo e pensou, já sei que dizer às “gajas” da carrinha. Sabia voar.
O pardal olhou para ele e contente disse:
-Saíste-te melhor do que eu estava à espera, podes voar livre até ao infinito. Olha as estrelas, confunde-te com elas, Voa! - Ordenou imperativo. 
Chico chegou-se mais uma vez à janela, olhou o céu infinito, as estrelas que nele brilhavam, lançou-se vigorosamente no espaço e voou, voou, voou, até que sentiu o espirito separar-se do corpo, era finalmente livre, livre para a eternidade. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dias Sóbrios


O Sol decidiu esconder-se por fim, as flores têm uma cor muito viva que contrasta com o céu apagado. Há a certeza de um dia sereno, sem emoções que palpitem gravemente o coração. A brisa fresca não dá mote a alegrias extremas, sente-se a harmonia das horas sóbrias, ouvem-se apenas os automóveis a desfilarem na estrada longe. Parece um rejubilo falso, felicidade sem gosto doce, tudo está bem, porque não está mal e a vida encaminha-se nos conformes.  
Na cidade tudo tem ar de amontoado, abandalhado por quem não tem tempo para o que é necessário, assim está a minha mente, numa agitação febril em que vontades se contrapõem. Tenho desejo de principiar uma nova vida e no entanto prossigo igual ao que é do costume. Há em todas as coisas o perigo da mudança, a falsa segurança das alterações, os riscos medonhos de uma crise. E a vida sempre se encarrega de trazer espontaneamente dias mais comedidos, onde se está bem, porque não se está mal.   
A meio do dia ainda tenho o entorpecimento do corpo de quem não dormiu bem as noites passadas, o tempo passa muito rápido para quem tem muito que fazer e nenhuma motivação. Não sei dizer de onde me vem esta frustração, este destino de desânimo, porque apareceu em mim o sentimento de apatia que sempre se apresenta no querer fazer pouco quando se precisa fazer muito. 
Nestes dias de tristeza subtil as palavras manifestam-se no meu íntimo e não tenho força para as fazer surgir no seu pleno esplendor, são como flores prestes a florir, mas que não recebem água e Sol suficientes. Falta-me saber, mestria, leveza, sabedoria, e tudo o mais que se mostra essencial para o nascimento da obra pelo qual a alma do leitor se apega e tem carinho. Tudo me está em falta. E todavia não sei expressar-me de outro modo. Vivo sem coração a generalidade dos dias e quando me sento com as palavras os sentimentos desabam-me e não sou mais insensível ao que me rodeia. 
Agradava-me construir um lar nos meus escritos, de modo a que um dia não existisse mais e passa-se a ser as minhas palavras tão somente, em perfeita harmonia com o que sou e com o que faço. Mas a força e a persistência esvaiem-se, os impulsos são poucos e só se mantêm momentaneamente.  Da mesma forma me falha a constância da graça, o toque de airosidade, a luminosidade da mocidade. Assim estão os dias caminhando para a morte, sem beleza, sem disposição para sentimentos suaves, carregando fardos de tempos difíceis vividos ou imaginados. 
As afirmações são ásperas e desagradáveis, mas sabem misteriosamente bem, como o vento modesto que me eriça os pêlos dos braços. O dia perpetua-se sombrio em pleno Verão, dia velho no meio da estação da juventude, mas é profundamente legitimo, porque advém da Natureza que está sempre certa. Não é necessário que em todos os momentos o Sol surja resplandecente sobre a Terra, nem que a luz paire sobre as palavras. Porque tudo se quer no conforme, que é variável e está sempre bem, desde que não esteja mal.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Amizade


A reinvenção da alegria                                    

Neste tempo, em que não vos tenho dado a atenção devida, sentindo-me para todos os que me dão o seu tempo e a sua amizade em dívida lembrei-me de dois provérbios que definem a amizade de ângulos diferentes e complementares:                

Séneca diz num provérbio que: “Ter um amigo é ter alguém por quem morrer”
Há porém um provérbio inglês que diz: “Viver sem amigos é morrer sem testemunhas”                                       
A força que emana do primeiro provérbio (“Ter um amigo é ter alguém por quem morrer” ) é de uma amizade desprendida e inusual, mas diz-nos quanto este sentimento esta presente no espírito da humanidade e nas relações entre as pessoas, desde que o homem se tornou capaz de elaborar em palavras os seus sentimentos. A contradição principal é que sendo este um dos sentimentos mais nobres e mais necessários à nossa vida pessoal, quando confrontados com a pergunta: O que é a amizade? Sentimos alguma dificuldade em a definir, não porque nos faltem explicações exactas e verdadeiras, mas pela sua vastidão e pelas nossas próprias atitudes perante a amizade, ficamos incapazes de exprimirmos verbalmente em poucas palavras a relação e o sentimento implícito nesta palavra. A amizade tem a singularidade de ter uma ética não escrita, sem tutelas nem pactos sociais, e utiliza uma desconcertante simplicidade de meios, o que faz com que a característica mais importante da amizade, se defina pela sua presença.
Mas a presença pode ter diversas graduações, e quando a amizade se vai construindo em novos meios, como a NET que utilizamos neste momento, essas graduações terão ainda muitos cambiantes, uma partilha global de algum pessoal, ou não sendo pessoal, nos toca e emociona, uma troca de mensagens mais confidente e particular, um dos muitos pequenos gestos de que estamos atentos e que as mensagens que nos chegam não nos deixam indiferentes, a probabilidade de um encontro dos muitos que este meio proporciona, a possibilidade de uma ou de incontáveis atenções, não tendo muito significado a quantidade mas a verdade daquilo que damos e recebemos

Porém no provérbio inglês que diz: “Viver sem amigos é morrer sem testemunhas” , remete-nos para o tempo presente em que não querendo ser demasiado mórbido, mas ao ler um destes dias nos jornais, um título que dizia:“ HÁ cada vez mais corpos não reclamados”
Isto foi sentido por mim como um soco, e senti vergonha por fazer parte de uma sociedade que segrega e despreza ignobilmente parte dos seus. Que levou estas pessoas a cortarem laços e a perderem assim os seus amigos, ficando sem testemunhas do seu final de vida? Que levou a sociedade a ignora-los?
Talvez por isso seja importante esta rede de amigos em que participamos, e quando algum por motivos diversos nos deixa, não nos deixa sem testemunhas, sentimos que perdemos um pouco da nossa riqueza colectiva, e partilhamos muitas vezes testemunhos desse sentimento.
Os amigos que vou fazendo neste meio e com os quais vou partilhando, um pouco de mim e um pouco do que sou, e de quem também recebo partilhas que me vão enriquecendo, fazem-me sentir, talvez com alguma benevolência, que a minha ausência, mais frequente do eu desejaria, não lhes é indiferente.
O importante para mim é que a partir de dada altura, esta relação se tornou uma história que me acompanha e por onde uma parte da minha vida vai passando.
Tendo tão poucas barreiras, permitindo um tão alargado leque de alternativas, este meio que nos aproximou e vai permitindo a construção de verdadeiras amizades, pode contribuir para acabar com este cinzentísmo em que estamos mergulhados e pela AMIZADE REINVENTAR A ALEGRIA.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fazer a nossa parte


Dois homens iam pela rua conversando um crente e outro nem por isso. E enquanto caminhavam o crente ia falando da vida da fé na existência de Deus. Dai a pouco, o céptico incrédulo não aguentou e replicou:
- Deixa-te disso, pois Deus não existe!
- Porque dizes isso?
- Ora, se Deus existisse não haveria tanta barbaridade e tanto mal no mundo, muitas vezes em nome de Deus. Além de tanta gente a passar fome. Basta olhares em volta e reparares em quanta tristeza há é só estar atento!
- Bem, talvez seja essa a tua maneira de pensar, e tens a liberdade de o fazer, Não é assim?
- Claro e tenho razão, mas esta a chegar a hora de voltar ao trabalho, ainda não estou como tu, já aposentado.
Pararam em frente ao estabelecimento onde o amigo trabalhava, um cabeleireiro de homens, despediram-se um ficou e outro continuou o seu caminho.
Foi caminhado, quando avistou uma pessoa com aspecto deplorável, talvez um sem-abrigo, imundo, com longos feios e sujos cabelos, barba desgrenhada, suja, abaixo do pescoço. Pensou, um pouco deu meia volta e dirigiu-se ao estabelecimento onde o amigo trabalhava.
- Vim aqui por causa de uma pequena coisa.
E acrescentou.
- Não acredito em cabeleireiros de homens, ou como de dizia antigamente, barbeiros!
- Que estas para aí a dizer???
- Sim, se existissem cabeleireiros de homem, barbeiros, não haveria pessoas de cabelos maltratados e barbas desgrenhadas e compridas!
- Ora, essas pessoas estão assim porque querem. Se desejassem mudar, viriam até mim! Em muitos casos eu até lhes faria o trabalho de graça
- Agora, tu entendeste quantas vezes estamos assim porque queremos? Não vamos até ELE!

terça-feira, 7 de abril de 2015

A Passagem


Era Novembro e chovia, chovia intensamente.
Como de costume nas últimas semanas o Domingo era dedicado a visitar os pais, no apartamento onde vivia localizado numa urbanização incaracterística nos limites da cidade, mais pensado em arrumar pessoas do que em acolher famílias, não se via ninguém na rua.
No carro sentou-se cansada ao lado do marido, um cansaço mais mental que físico que a impregnava intensamente um sufoco de que não se conseguia libertar.
Atrás, o filho mais novo bem preso à cadeira visivelmente incomodado pela liberdade do irmão, protestava sem parar.
Encostou-se no banco e fechou os olhos, o marido virou cabeça e perguntou:
- Estas cansada?
Acenou com a cabeça que não, enquanto pelo espírito passaram as últimas semanas, uma em especial
Naquele dia a mãe começara a falar, tão estranhamente que não esperava nem respostas nem reacções embora se lhe dirigisse, pois os olhos estavam fixos nela, sentia que não a chegava a ouvir nas suas respostas.
Num recomeço a mãe recostou-se no espaldar da sua cadeira, enquanto tinha falado as costas um pouco separadas do encosto, como quando alguém intervém publicamente numa tertúlia, ou numa orquestra um instrumentista antes de chegar a sua vez se ergue levemente na sua cadeira, atento tenso para não se perder da harmonia, descansando as costas na sua nova posição para a surpreender com o volume o tom e a teia de preocupações insuspeitas até então. Recomeçou:
- Não fui capaz de vos educar, nem a ti nem aos teus irmãos, não fiz a passagem do que aprendi da minha mãe, nada vale tudo o que sabes se não entenderes a linguagem da natureza, a linguagem da terra.
As suas mãos desenhavam no espaço o gesto de quem rasgava a terra, um estranho bailado vindo de tempos ancestrais, as palavras saiam como se fossem definitivas as últimas as essenciais, havia urgência na sua voz.
Nesse dia não tinha compreendido, mas o pai já a alertara: 
-A tua mãe anda um pouco esquecida a médica de família marcou uma consulta para um neurologista.
O médico chamou-a: 
-É a filha mais velha?
 - Sim; respondeu
Continuava de olhos fechados, sentiu o carro parar e ouviu o marido dizer: -
- Chegamos.
Era Novembro e chovia, chovia abundantemente.
Lá fora a mãe com um regador, junto ao muro da casa ia regando as pedras, com a aplicação de sempre.
Compreendeu então a urgência das palavras daquele dia, a mãe antes de fazer a passagem para um mundo só dela, sentiu necessidade de lhe passar o testemunho acumulado nos tempos.
E chorou.

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