quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Mendigo



Transeunte 
Mendigo 
Jovem 1
Jovem 2

Manhã ainda cedo e com pouca gente na rua característica de uma terra do interior, um homem caminhava penosamente pela Praça daquela Vila, pelo aspecto era um Mendigo, o casaco velho e bastante gasto, um chapéu amarfanhado, a camisa com ar de não ter sido lavada há muito tempo, umas botas gastas e maltratadas, parecia que tinha por objetivo atingir um dos bancos existentes na margem do jardim, porém no pequeno degrau da margem do passeio que o ladeava as suas forças claudicaram e os seus pés tropeçam caindo fragorosamente no chão. 
Deitado no chão o Mendigo tentou desesperadamente chamar a atenção de um transeunte que passava, este com ar carregado de quem estava zangado com a vida, que o fazia parecer mais velho, fingindo não reparar e com ar apressado tenta mudar de direcção.
Mas os gritos e a gesticulação do Mendigo obrigaram-no a aproximar-se dele. Uma coisa lhe desagradou imediatamente, pelo sotaque era um destes estrangeiros que invadiram o país.
Mendigo- Por favor, ajude-me a levantar! 
Transeunte – Não me chateie, era o que faltava, tenho que ir entregar um currículo de emprego e não quero ir a cheirar a lixo que é o que o senhor é. Além disso não gosto mesmo nada de pessoas como o senhor. 
Mendigo – Apenas uma pequena ajuda, nada mais. 
Transeunte- Já lhe disse, não estou para ficar contaminado, afaste-se de mim, ainda apanho uma praga de piolhos, o senhor deve estar bem infestado, com esse aspecto miserável. 
Mendigo- Não me reconheces? 
Transeunte- Eu não conheço mendigos e muito menos da sua raça, se pudesse ajudava os pobrezinhos, mas ajudava apenas os que conheço bem, além disso não posso perder mais tempo tenho mesmo que ir entregar o currículo, pode ser que passe alguém da sua laia, desejo-lhe que tenha sorte e como diz a minha avó: “fique com Deus”. 
Mendigo- Dizes para eu ficar com Deus? Eu sou…
Transeunte- Essas palavras são treta da minha avó, fique com quem lhe apetecer. 
Cinicamente o transeunte procurou alguma coisa no bolso que atirou com desprezo, dizendo. 
Transeunte – Olhe entretenha-se com esta chiclete, enquanto não chega algum tão inundo como o senhor para o levantar, senão fica no chão que é como está bem! 
Mendigo – Não me conheces? – voltou a perguntar o mendigo.
O transeunte finge não ouvir, enquanto se afasta lentamente a pensar nas palavras do mendigo. 
Um grupo de jovens que caminhava do outro lado da rua, parou observando a parte final da cena e atravessando a rua apressados dirigiram-se ao mendigo, ajudando-o a levantar-se e a encaminha-lo para o banco do jardim. Um dos jovens fixando o mendigo bem nos olhos sentiu-se perturbado e quase em sussurro diz-lhe:
Jovem1 – É estranho caro amigo, o seu rosto parece-me familiar, embora o seu aspecto seja deplorável, acho que está a precisar de uma refeição quente, estamos num acampamento de férias quer vir até lá e comer alguma coisa connosco?
- Ao ouvir isto o transeunte pára, vai voltando para junto do mendigo enquanto pensa.
Transeunte – Que raio se esta a passar comigo? O que é que este mendigo, me quer dizer, ao perguntar-me, se não o conheço?
Jovem 2 – Então que diz aceita o nosso convite?- pergunta um segundo jovem ao mendigo.
Mendigo- Claro que vou aceitar, mas a minha missão aqui era, e é outra. Tenho outro acampamento.- responde o mendigo com voz baixa mas doce embora carregada de um sotaque estranho.
Jovem 1- Está noutro acampamento? É refugiado?
O mendigo manteve-se em silêncio nada respondendo, ignorando as observações.
Transeunte- Dirigindo-se aos jovens: Eu também já participei em acampamentos de férias, há muitos anos, agora estou lixado e a vida não me permite, os meus pais divorciaram-se e a minha mãe, que é professora, foi colocada neste fim de mundo e viemos viver para cá, desisti dos estudos quero mas é arranjar trabalho! 
Jovem 2- Tu és da nossa idade, por aqui há de certeza gente fixe, porque não voltas à escola? Ficavas a conhecer novos amigos e era bom para ti. 
Jovem 1- Se quiseres podemos dar-te umas dicas, estamos a terminar o acampamento e ficamos a conhecer algumas coisas desta terra. Mas agora vamos ajudar este senhor. 
Transeunte- Quem sabe, pode ser, mas de facto estou baralhado com este vagabundo, vejo nele alguma coisa de estranho que não sei explicar. 
Jovem 2- Não queres vir connosco até ao nosso acampamento? Levamos este senhor, partilhamos com ele uma refeição e entretanto passas um tempo bom.
Jovem 1- Virando-se para o mendigo: Venha connosco, comerá alguma coisa e tentaremos ajudar no que for possível. 
Transeunte- Afinal tanto faz entregar hoje como amanhã, esta história do currículo, também já estou por tudo a vida só me corre mal, mas aceito o convite, e aproveito para tentar perceber quem é o maltrapilho. 
Jovem 2– Não trates assim o senhor! Qualquer de nós, podia estar na situação em que ele está. 
Transeunte- Isto é só gente que não quer fazer nada, já não me comovem muito. 
Jovem1- Repara que temos que ser tolerantes, embora isso pareça coisa de velhos, sabes que só partilhando o bem deixaremos o mundo melhor e além do mais, este nosso amigo, tem de facto qualquer coisa que não consigo explicar. 
Transeunte- Confesso que me estou a exceder um bocado, mas às vezes a vida torna-nos azedos. Irei com vocês! Sempre será diferente dos outros dias. Por aqui pouca gente me conhece, vivo aqui há pouco tempo, e ainda não consegui relacionar-me. 
Mendigo-Mas eu conheço-te João, estou aqui para despertar em ti, o que deixaste adormecer. 
Transeunte- Espantado: Como sabe o meu nome? 
Subitamente ouve-se a sirene de uma ambulância em emergência, a atenção de todos volta-se por uns segundos para a passagem da ambulância e quando voltam a olhar para o mendigo já este tinha desaparecido, no chão uma folha de papel com algo escrito. Um dos jovens pega na carta que dizia em letras maiúsculas “ PARA O JOÃO” . 
Jovem2- O mendigo desapareceu, ele parecia tão débil como desapareceu assim onde se terá metido? Deixou esta carta é para ti João. 
João - lendo a carta: Este não é o meu acampamento, no meu acampamento nada me falta, volto para lá onde um dia nos encontraremos. E lembra-te, João, Eu conheço-te, há muitos anos, ainda não existias e já sabia de ti, por isso sei que tens dentro de ti sementes do bem que deixaste de utilizar e que eu vim despertar. Recorda-te que eu estou entre aqueles que mais precisam, os pobres dos mais pobres. Disseste-me para ficar com Deus. Eu te respondi: “Ficar com Deus?... Eu Sou.”

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

PÁSSARO FERIDO

A FABULOSA VIDA DE MATILDE
PÁSSARO FERIDO
Nas suas deambulações pelas vizinhanças, umas mais próximas, outras mais longínquas, Matilde deparou com uma casa antiga e já um pouco degradada, que sabia ocupada por um casal já idoso, a sua sempre presente curiosidade levava-a a observar bem de perto toda a vizinhança. E este casal era bem simpático e por isso eram sempre boas as conversas que tinha com eles.
A senhora estava como de costume a tratar do jardim em frente da casa o marido encontrava-se nas traseiras, pois já tinha alguma dificuldade de locomoção, sentava-se durante horas a olhar para os campos matando a saudade do tempo em que trabalhar a terra mais que um modo de vida significava para ele uma forma amorosa de criar vida.
Ao reparar na sua presença a senhora, Ana assim se chamava, cumprimentou-a:
- Olá Matilde, andas a passear?- sem a deixar responder continuou- Gosto muito de te ver por aqui, é tão bom que gente nova repare em nós, não queres entrar? Dar umas palavras ao meu marido, ele era muito amigo da tua mãe, a Luísa, agora coitado passa a vida parado a olhar para as terras abandonadas, talvez recordando o tempo em que para ele elas não tinham segredos.
-Matilde acedeu ao pedido, e foi ao encontro do idoso, que de olhar parado ausente nem sequer notou a sua aproximação. Despertou apenas quando ouviu a esposa quase gritar.
- Está aqui a Matilde, a filha da Luísa. – e virando-se para Matilde: -Ele ouve mal é preciso falar alto. Estás a ouvir? É a filha da Luísa.
Ao voltar a ouvir o nome Luísa o senhor João ficou alerta e murmurou:
- Olá Luísa, o nosso passarinho continua a voar, eu sei vejo-o muitas vezes.
Matilde ficou confusa, nada sabendo da conversa do senhor João, sabia que ele a estava a tratar pelo nome da mãe. Ficou com pena e sem saber que dizer. A medo alinhavou algumas palavras.
-O senhor João está confundido, eu sou a Matilde a minha mãe é que se chama Luísa, a história do passarinho já deve ter acontecido há muito tempo.
- Os olhos do idoso encheram-se de brilho, endireitou-se com energia na cadeira, a sua face ganhou cor, encarou Matilde de frente e com um tom de voz forte e emotivo pronunciou:
- Eu vivo em todo o tempo, o tempo dos sonhos, aqui não há passado nem presente nem futuro apenas o que eu vejo e sinto. O passarinho está vivo, porque Luísa, tu o ajudaste a salvar.
Como se tivesse de uma só vez descarregado toda a sua energia, voltou à sua posição inicial, não pronunciando mais qualquer palavra.
Apesar de todas as tentativas da esposa e de Matilde o senhor João continuou ausente. Matilde esteve ainda algum tempo com o casal, como se aproximava a hora de jantar regressou a casa.
Adormeceu a ouvir a voz do idoso, aos seus ouvidos soavam as palavras:
- “ Eu vivo no tempo dos sonhos.”
E rapidamente se sentiu uma ave no céu, voava, voava. No entanto era uma ave muito peculiar, um pintassilgo, por natureza uma ave de voo rasteiro, voava naquele momento a uma altura que lhe permitia sobrevoar a neblina que cobria os campos, deleitava-se no voo, fechava as asas e descia a elevada velocidade em direcção à neblina, logo que se aproximava abria de novo as asas sofria um choque no corpo e o voo travava abruptamente, voltando a elevar-se às alturas, o seu voo era como um bailado que do solo não podia ser apreciado, devido à bruma, mas que era vivido intensamente. Sentia que tinha nascido diferente do resto do seu bando, solitária e sempre em busca de sensações que lhe estavam vedadas, pela sua natureza de ave de voos rasteiros.
Voar alto e descer na mais alucinante das velocidades, significava o prazer, a liberdade e a felicidade absoluta.  
A sedução de entrar na neblina e sentir no corpo a sua frescura e a suavidade da seda, exerceria nela um fascínio que a hipnotizava e a fazia esquecer os perigos que a neblina escondia.
Numa descida mais arrojada, inebriada pelo êxtase provocado pelo voo, esqueceu toda a prudência, descendo à mais alta velocidade que conseguia. Cega pelo nevoeiro e pelo prazer o seu corpo chocou contra um obstáculo, para ela imprevisível, caindo inanimada no chão.
Naquela manhã de fim de Inverno, junto ao seu pombal que ficava no fundo do jardim, o Sr. João ia tratando das suas pombas, junto a ele a jovem Luísa observava curiosa, fazendo uma multidão de perguntas que ele respondia pacientemente. O sr. João era um homem maduro, casado com a Dona Ana, não tinham filhos e para ele a mulher, as terras e as suas pombas eram tudo na sua vida. Luísa sabia disso, por isso admirava-se que muitas vezes ele mantivesse as pombas fechadas no pombal, como era o caso dessa manhã. Com a liberdade que a sua idade permitia perguntou-lhe.
-Sr. João, o sr. gosta tanto das suas pombas e de todos os pássaros em geral, porque é que não as deixa voar, como por certo elas gostariam?
- Sabes Luísa gosto muito de pássaros e muito das minhas pombas, as minhas pombas são aves domésticas e eu preciso de protege-las de alguns perigos, hoje está muito nevoeiro o que representa um perigo para todas as aves, as que vivem na natureza quase sempre se conseguem defender, mas as pombas não, se eu as solta-se agora elas fariam um voo demorado mas ao regressar o mais certo era desorientarem-se ou pior chocarem com algum dos muitos fios eléctricos ou telefónicos que passam por aqui perto.
Quando o sr. João se preparava para continuar a sua explicação, com um baque uma pequena ave vinda do céu caiu aos pés de Luísa, que aflita pegou nela e sem conter uma lágrima, meio chorosa disse:
- Está morta, sr. João – não conseguindo conter o choro – Morreu sr. João!
O sr. João pegou na ave com ternura, encostou-a à face, levantou levemente as suas penas, os dedos acariciaram suavemente o seu corpo, entregou a ave a Luísa enquanto ia dizendo:
- Não, ainda está quente, não está morta, está apenas atordoada, precisa de continuar com calor aconchega-a bem a ti. É uma bela ave, um pintassilgo, ou melhor uma pintassilga.
Luísa pegou na ave com cuidado, instintivamente levantou a camisola que trazia e colocou a ave bem junto do seu coração, ao ver isso o sr. João sorriu e as palavras saíram-lhe com emoção:
- A ave viverá, vais ver.
Durante longos minutos o coração de Luísa palpitava na espera, enquanto o calor do seu corpo se transmita à ave, as suas mãos aconchegavam a camisola com ternura e delicadeza, começou a sentir um formigueiro no peito, ficou com os sentidos todos alerta, virou-se para o Sr. João e gritou.
- Sr. João, sr. João, o pássaro está a mexer-se, ele está vivo! – Continuou ofegante.
Cuidadosamente retirou a ave do seio e viu como ela se tentava soltar, virou-se para o Sr. João:
- Que faço, que fazemos, a esta ave tão bonita?
Este olhou para o céu, notando que o sol já tinha rompido a bruma, e o dia se apresentava lindo e claro, reparou num par de pintassilgos que soltavam um canto triste e aflito, voltou o olhar para Luísa e para a ave, enquanto dizia com visível afecto na voz:
- Solto-a Luísa, no alto alguém espera por ela, fizeste o que tinhas a fazer, a tua bondade a salvou.
No calor confortável da cama Matilde mexia os braços de forma bem estranha, Luísa a mãe que entrou no quarto para a despertar, tocou-lhe amorosamente no rosto, enquanto sussurrava:
- Que tens Matilde, algum pesadelo? Sossega, eu estou aqui.
Matilde abriu os olhos e entre espantada e sonhadora, murmurou para a mãe:
- Lembras-te daquela ave que tu salvaste?
A mãe sem perceber a razão da pergunta e pensado um pouco:
- Sim, lembro-me isso vai há tanto tempo, porquê?

- Essa ave, um pintassilgo, era eu. 


                                                                                                                Herminio 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O Pregador



Num fim de tarde de um dia soalheiro de Primavera, sentei-me na esplanada de um bar e enquanto tomava um café passava os olhos pelo jornal. Sentado de costas para um palco, onde aos fins-de-semana grupos de música popular animavam as tardes e noites. A minha atenção ia sendo atraída pelas pessoas que passavam, se a maioria delas nada me dizia, reparei, no entanto, em alguém que transportava uma estranha carga, um tripé de pauta de música além de uma pasta arquivo. Um homem caminhando em passo decidido que se dirigia ao palco. Tinha um aspecto cuidado, vestia com sobriedade, aparentava uma idade entre os 45 e 50 anos. Rapidamente saiu da minha visão, supus eu que se dirigiu para o palco e depois da sua passagem voltei à minha leitura.
Na posição que me encontrava não dispunha de ângulo visual para observar o que se passava no palco. No entanto começou a chegar até mim uma espécie de discurso, semelhante a oradores políticos ou a pregadores de alguma nova igreja, não liguei muito até ao momento em que bem forte chegou aos meus ouvidos num tom imperativo, as palavras:
- Não me Vencerás! 
Virei a cabeça com alguma curiosidade, mesmo assim do lugar onde me encontrava, do palco só avistava um pequeno fragmento, e da pessoa via essencialmente as mãos, que gesticulavam ou descansavam sobre a estante do tripé que lhe servia de púlpito, ao mesmo tempo que ia passando algumas folhas, do que ia lendo. Fui vencido pela curiosidade e coloquei-me de forma a ter melhor visibilidade para o palco. Com renovada energia voltou a pronunciar:
- Não me Vencerás! - e continuou- persegues-me há centenas de milhares de anos, só existes porque eu existo. Por isso não me vencerás. Sei que muitas vezes pareço vencido, e pior ainda que me vergo perante a tua vontade, uma parte de mim colabora contigo, e outra te combate sem tréguas, acontece vezes sem conta que com uma mão te combato e com a outra golpeio o meu próprio peito, mas sempre renasço melhor, mais forte e cada vez mais resistente. 
-Nesta altura parou um pouco, fez um gesto de quem coloca o microfone em melhor posição, levou a mão à altura da boca como quem bebe um pouco de água. Nervosamente deu uma olhadela aos papéis e retomou:
- Não me vencerás! - Os olhos voltaram-se para uma plateia vazia, os braços agradeceram os aplausos inaudíveis de ouvintes inexistentes, e continuou:
-A tua perseguição tornou-me mais forte, em cada dia perdi e venci. Sei que colaborei contigo e fiz muitas vezes a tua tarefa, que trago comigo todas as virtudes e maldades da humanidade. Sou mau e bondoso, avarento e generoso, pervertido e inocente, demónio e santo, odeio com a mesma força com que amo. Mas vive em mim uma infinita capacidade de recomeçar, aprecio mais a beleza que a fealdade, os gestos de amor que os de ódio, a generosidade que a avareza, a inocência que a perversão e mais o bem que o mal. - Interrompeu por instantes o seu discurso como para tomar fôlego, o seu corpo retesou-se parecendo crescer, virou algumas páginas, recuou um pouco, voltou a aproximar-se do púlpito e gritou:
- NÃO ME VENCERÁS… persegues-me há centenas de milhares de anos, mas só existes porque eu existo, porque só eu tenho consciência da tua existência, só eu te sinto cada vez que te enfrento, quando me derrotas um pouco, quando o desânimo se apodera de mim, pensas que vais vencer, mas digo-te que te enganas se um dia, que nunca chegará, tu me venceres definitivamente, também tu deixarás de existir. Estamos tão ligados que a existência de um depende da existência do outro. A tua vitória afinal será também a minha, por isso NÃO ME VENCERÁS! – Gritou mais uma vez, estava empolgado todo o seu corpo transmitia aquela estranha mensagem, eu tinha-me aproximado mais do palco, tudo me era visível mesmo o não existente, a sua mão pegou numa imaterial garrafa vazia de água, que invisível e silenciosamente foi despejada num copo feito de nada, para saciar uma sede infinita de ser ouvido, cuidadosamente tirou do bolso um lenço feito de um tecido ainda não descoberto e limpou um suor que não corria pelo rosto. Tudo nele era presente e ausente uma mistura entre miragem e realidade, mistério e claridade, sabedoria e loucura. Agradeceu mais uma vez os aplausos de mãos que não batiam, colocou as mãos sobre o púlpito e o rosto adquiriu uma estranha serenidade, como se tivesse enfim terminado a sua missão.
Um rumor repentino me despertou, fiquei estupefacto quando reparei que junto ao local onde estava o palco se aproximavam como caçadores e com algum cuidado um carro da Polícia, juntamente com uma Ambulância da qual saíram dois homens bastante robustos de bata branca, talvez enfermeiros, um dos quais trazia uma espécie de saco, subiram cada um por um dos lados do palco enquanto os polícias tomavam posição, como para acautelar alguma fuga, quando os homens de bata branca se dirigiam para o pregador e com alguma violência o manietaram. Afinal o saco era uma camisa-de-força, apesar da resistência do pregador que fez tombar o improvisado púlpito, levando que os papéis, com a ajuda da brisa que corria, fossem espalhados pelo chão, o homem foi dominado facilmente e conduzido à ambulância, um polícia vendo a minha perplexidade acabou por me dizer:
- Sabe, é um doido que fugiu do manicómio, não diz coisa com coisa vai voltar ao internamento. 
Os papéis continuavam a espalhar-se pelo chão, por curiosidade comecei a juntar alguns para tentar perceber a razão das suas palavras. 
Lentamente fui, passando pelos olhos uma a uma as folhas caídas, tinham todas a mesma mensagem escrita em letras que ocupavam toda a página.
- “NÃO ME VENCERÁS Ó MORTE, PORQUE EU SOU TODA A HUMANIDADE, A PASSADA A PRESENTE E A FUTURA E SÓ A HUMANIDADE TEM CONSCIÊNCIA DA TUA EXISTÊNCIA, SE ME VENCERES SERÁS VENCIDA, DESISTE: NÃO ME VENCERÁS.”.




                                                                                      


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Quadro


                            A FABULOSA VIDA DE MATILDE

O grupo de alunos chegou logo no início da tarde para uma visita de estudo ao Museu, como sempre acontecia a sua juventude trazia alegria e algazarra própria da idade, mas bem pouco habitual nestes espaços. O Museu instalado num antigo Mosteiro estava associado a um pintor da terra, que tinha atingido uma projeção elevada. Antes de entrar a Professora que dirigia a visita, entregou a cada aluno um desdobrável, que para além do retrato do Pintor, constava também uma biografia resumida e algumas notas sobre as pinturas expostas. A Professora fez notar as obras realizadas, na ala do Mosteiro onde estavam expostas os quadros que eram a razão da sua visita, obras que conjugavam a funcionalidade da arquitectura moderna sem descaracterizaram o edifício.
Matilde ficou de olhar preso ao exterior do edifico, na sua robustez granítica, nas linhas simétricas de todo o conjunto, na fachada imponente da Igreja que transmitia a força da pedra com que tinha sido construída, e pensava como se teriam conjugado os quadros que constavam do desdobrável, com o espaço onde estavam expostos. 
Enquanto se dirigia para a entrada do Museu os seus olhos iam-se fixando no retrato do Pintor. Perturbada notou que tinham vida, que a olhavam como se quisessem transmitir-lhe alguma coisa. Desviou os olhos do desdobrável, mas não conseguiu retirar do espírito essa sensação estranha que continuava a apoderar-se dela. Entrou no Museu, já o grupo subia ao primeiro piso e percorria a primeira galeria, não parecendo notar a sua falta. 
Matilde teve que estugar o passo, como de costume estava isolada do grupo, a explicação da Professora chegava-lhe apenas como um murmúrio, por um lado queria manter-se junto ao grupo por outro lado os seus olhos procuravam em cada quadro vislumbre do olhar que a tinha conquistado. 
Enquanto olhava os quadros alinhados sentiu a estranha sensação de estar a ser observada, como se um olhar de alguém invisível se tivesse fixado nas suas costas. Porém, de cada vez que se voltava lentamente perscrutando em redor à procura da causa desse sentimento não detectava a presença de qualquer pessoa, suspirava convencida de que a sua fértil imaginação via o inexistente. Abeirou-se finalmente da galeria principal do museu, que se lhe deparou luminosa e ampla, dominada por um conjunto significativo das obras do Pintor. Estava confusa e aturdida, para ela não eram apenas quadros mas o espírito do Pintor em pessoa.
Questionou-se: É apenas uma ilusão? Estou a sonhar? Ou endoideci de vez?
Parou, tentou reflectir, respirou mais calmamente, mas o seu coração continuava a bater bem forte. Cada quadro que deparava, representava de alguma forma a imagem do Pintor, parava cada vez mais demoradamente diante de cada um. Sentia-se como se arrebatada para dentro deles. Pertencia a cada tela, era um seu elemento.
Esfregou os olhos, atarantada, olhou bem à sua frente uma tela com uma profusão de cores e formas que a atraíam e intrigavam, que inopinadamente ganharam vida. Matilde sentiu-se arrastada para dentro do quadro, encontrando-se no que lhe parecia um atelier de pintura.
Frente ao quadro que estava o Pintor que olhando-a fixamente Lhe disse:
- Aguardava pacientemente pela tua visita, tenho muitos visitantes, mas tão poucos que olham para dentro de mim, apreciam os quadros mas não entram na minha alma. Tu tentaste ir além das formas. Procuraste a essência. A Arte é uma das criações mais sublimes da humanidade. Só a Arte replica o mistério da alma humana, e a força e beleza da natureza. Cada vez que admirares uma pintura lembra-te que mergulhas numa das mais sublimes das artes, vai além da superfície tal como hoje penetra na cena, toca nos seus elementos, não com as mãos mas com os sentidos, descobre todas as suas formas, contorna todos os seus ângulos, embebe-te nas suas cores, só assim alcançarás o seu verdadeiro significado, tu própria farás parte do mistério que todas as obras de arte guardam.
Mas aviso-te não será fácil e precisarás de muita coragem para seres entendida. Muitas vezes encontramos numa pintura algo muito diferente do que esperávamos. É esse o seu principal mistério.
Matilde sentiu-se paralisada, incapaz de articular palavra, o seu corpo foi percorrido por um calafrio, parecia-lhe que ao longe uma voz gritava o nome dela, um abanão súbito e com alguma violência despertou-a daquele êxtase. Enquanto uma colega lhe gritava:
- Bolas! És sempre a mesma, o autocarro já esta à tua espera, o que estiveste a fazer até agora?
- A descobrir o mistério deste quadro.. - respondeu Matilde a medo. E correram as duas para o autocarro. 

sábado, 7 de novembro de 2015

O Velho


Sentado num banco do jardim, o Velho olhava para os transeuntes, pelo seu espírito passavam imagens da sua vida, no tempo e caminho percorrido até esse momento. 
Já não se olhava ao espelho, nem contava as rugas pronunciadas, o olhar cansado pela vida e pelas insónias, de horas de sono sempre tão reduzidas e sobressaltadas, a barba desarranjada, branca, farta e suja, o cabelo alinhado apenas com as mãos à laia de penteado, levava vestido a roupa que afinal nunca tirava: um sobretudo cuja cor era a variedade de nódoas que o cobriam, camisolas e camisas que nem ele próprio saberia dizer quantas, calças presas por um cordel e umas botas já muito gastas, era assim que se dirigia para o seu banco todos os dias. 
Apreendeu a solidão. Aprendeu a olhar o Sol como um relógio do tempo que passava e do tempo que lhe faltava viver. O Inverno era bem duro, e não era só pelo frio e pela chuva que o causticava; mas porque parecia que os elementos se conjugavam, contra a sua vontade, na sua ida em deambulação até aquele banco do jardim, onde já há muito gastava uma boa parte do seu dia.
O seu refúgio noturno ficava cada vez mais longe, ou pelo menos era isso o que sentia, o transporte dos seus haveres era uma carga cada vez mais pesada e incómoda, por isso analisou com cuidado o local perto do “seu” banco. Próximo um coreto parecia-lhe um imenso e fausto palácio, as tarjas de propaganda política, presas ao seu gradeamento, garantiam uma proteção contra o vento e a chuva por ele empurrada. Além disso, eram renovadas com regularidade, os sinais de renovação eram evidentes, primeiro um alarido com altifalantes em altos berros, a prejudicarem o sossego de todos, como se tratasse da venda de um produto novo, a seguir centenas de cartazes, por fim as tarjas ali bem centrais, com diversas cores e muitas palavras, que apenas lhe causavam indiferença. Importante era a renovação da proteção contra o vento. E para ele era isso que ficava daqueles momentos. 
Não voltaria à sua “casa” habitual num prédio em ruínas bem longe, decidiu que aquela seria a sua morada. O banco do jardim a sua sala de estar. E todo o jardim por onde pululavam crianças e passeavam famílias o seu próprio jardim. E pelo sim pelo não continuava a transportar com ele todos os seus haveres. No coreto deixava apenas as embalagens de cartão que lhe serviam de cama, no banco junto a si mantinha um embrulho sujo e malcheiroso que continha toda a sua riqueza, em baixo um pequeno saco de que se via apenas o gargalo de uma garrafa. Sentia da parte de quem passava uma repulsa imensa pela sua presença, mesmo quando escondida era atirada com desprezo, uma moeda que caía na caixa aos seus pés. Mas nada disso o impedia de ocupar o seu banco de jardim.
Mantinha um braço sobre o embrulho, o outro pousado no apoio do banco, e aí permanecia imóvel e sem palavras e observava, observava. Numa atitude de um rei no seu trono.
Aquele casal ainda novo com uma atitude de olhar apaixonado, outro ainda já idoso que parecia manter uma visível ternura, e alguns idosos e idosas que sozinhos por lá fingiam viver. Gente nova, com telemóvel pendurado ou pendurados ao telemóvel, aparentemente em comunicação com o mundo mas quase sempre a falar sós. 
Gostava especialmente de ver crianças, único momento em que se notava alguma emoção. Seriam saudades de netos? Teria netos?
Quando num lampejo de existência e pela proximidade de alguma criança tentava tenuemente dirigir-lhe alguma palavra ou ensaiar um sorriso, logo os pais apressados afastavam os filhos enquanto se lhe dirigiam com rudeza e insultos.
- Afasta-te, velho bêbado! Nem te atrevas a tocar-lhe! 
Retraía-se e voltava ao seu estado de imobilidade majestática com uma superior indiferença. 
Aos fins-de-semana de Primavera e Verão, como era o caso, muitas famílias deslocavam-se àquele espaço para permitir aos filhos um tempo de liberdade e diversão.
Ultimamente tinha ainda colocado uns óculos, que quase por acaso, pouco tempo antes encontrou, perdidos em cima do tejadilho de um carro, uns óculos de Sol que lhe pareciam jeitosos, rapidamente os guardou no bolso do sobretudo, não tinha ainda passado muito tempo sentiu uns passos apressados na sua direção e uma voz que gritava:
- Ó velhote, quero falar consigo!
Manteve impávido o andamento lento e pesado, como se nada fosse com ele. A pessoa depressa o ultrapassou colocando-se a sua frente e falou com estridência, perguntando:
- O senhor pegou nuns óculos que estavam em cima de um carro? 
Ignorou a pergunta, ignorou o tom, olhou para ela, uma mulher ainda nova e bem bonita e disse-lhe na sua voz rouca, mas calma e pousada:
- Deixe-me em paz.
- Mas pegou ou não pegou nos óculos? – repetiu ela.
- Já lhe disse, deixe-me em paz.
Desarmada ela desistiu, apesar de serem uns óculos modernos e caros. 
E era assim que agora se encontrava todos os dias a olhar quem passava por detrás daqueles óculos, imóbil como rei num trono a quem os súbditos vinham prestar vassalagem, embora quem por ali passasse quase sempre mudasse de direção. 
Mas ele lá se mantinha imóbil cada vez mais invisível a todos e cada vez mais indiferente às palavras que lhe eram dirigidas.
Como sempre aos fins-de-semana, quase todas as famílias aproveitavam aquele espaço para encontro, convívio e acerto de algumas conversas. 
Naquele fim de tarde de Domingo, um casal que passeava um filho num carrinho, reparou que no outro lado do jardim ia uma pessoa amiga que já não viam há muito tempo, acenaram-lhe chamando-lhe à atenção da sua presença. 
Ela mudou de direção encaminhando-se para junto deles. Cumprimentaram-se, trocaram impressões e palavras de circunstância.
- Ambos com ótimo aspeto, tendes um lindo menino, parabéns! Que idade tem? 
- Obrigado, tem sete meses.- respondeu o marido - Tu também estás muito bem!
Subitamente os olhos dela fixaram-se no Velho, que continuava imóbil e ausente como se o mundo não existisse, os amigos olhavam para ela espantados, sem perceber o que se passava. A esposa perguntou:
- Então que se passa, que é que tens? 
- Aquele maldito velho tem os meus óculos!
E sem hesitação dirigiu-se ao Velho dando-lhe um forte abanão no braço, ao mesmo tempo que ia a ensaiar palavras de ira. 
O seu abanão fez com que o Velho rodopia-se caindo no chão desamparadamente. Mantendo estranhamente as pernas dobradas e os braços como pousados num trono.
No dia seguinte os jornais locais anunciavam: IDOSO ENCONTRADO MORTO NUM BANCO DE JARDIM, a notícia prosseguia, segundo os primeiros dados da autópsia, a morte ter-se-ia dado há mais de quarenta e oito horas.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O Perigeu

A FABULOSA VIDA DE MATILDE
O PERIGEU




Final de Agosto final do dia, Matilde tinha acabado de jantar e visto em rodapé na televisão, “ HOJE UMA SUPER LUA” .Percebeu que a Lua atingiria a distância mais curta à Terra. “Perigeu”, disseram eles. 
Como fazia muitas vezes, foi para a varanda, sentou-se numa cadeira e colocou os pés a descansar noutra. No peito a máquina fotográfica descansava, mas a mente vagueava e sonhava. Gradualmente a Lua surgiu no horizonte apresentando uma leve tonalidade de ouro, como se quisesse refletir toda a luz solar e, de facto, era enorme. A luz de um dourado suave e intenso, parecia uma porta aberta para o paraíso.
Ensaiou colocar a mão entre os olhos e a Lua em determinados ângulos parecia-lhe qua a sua mão lhe tocava, mexeu a mão como se a afaga-se, por entre os seus dedos passaram raios daquele luar tão diferente, pensou nos nomes curiosos dos seus mares, e descobriu que os homens replicavam nos nomes dos mares da Lua os seus sentimentos sonhos e vivências, gostava especialmente de alguns e imaginou a sua mão a sentir uma irreal frescura de uma água improvável. Na sua mente alguns nomes ocorreram, o Mar da Tranquilidade, da Serenidade, da Fertilidade, e de Néctar, gostava menos do Mar das Tormentas, mas de tormentas quem gosta?
Voltou a fixar o olhar na Lua, parecia-lhe um Gongo Tibetano na sua forma e cor, ou então um enorme diamante de uma pureza infinita, os seus dedos instintivamente procuraram tocar bem levemente a superfície, ao tacto a lua era rugosa e porosa. Pensou então:
- Diamante sim, mas ainda não lapidado. 


Forçou mais o contacto e para seu espanto, a Lua pareceu mover-se, nem queria acreditar como é que a sua mão, os seus dedos faziam mover a Lua, ao mesmo tempo um som cósmico, suave, primeiro docemente mas num crescendo cada vez mais sentido, um som que nunca tinha imaginado existir, apenas com um ligeiro toque dos seus dedos num corpo enorme como a Lua e com ela todo o cosmos estremecia em vibrações rítmicas, que de sussurros passavam a rumores e suspiros sonoros, um som que não era capaz de classificar, celestial e etéreo, doce e aflautado, terno e encantador, como uma carícia que enlouquecesse os sentidos, vibrante como uma trombeta de anjos, um som de Paraíso. Se o Céu existisse seria essa a música que os eleitos ouviriam. 
Matilde sentiu-se transportada para a imensidão do espaço numa viagem fora do corpo que não conseguia explicar, via-se à varanda mas o seu espírito numa viagem sem tempo, numa busca da origem daquele som que partindo dos seus dedos e da Lua, prolongava-se pelo infinito, quanto mais se aproximava da origem mais o doce e celestial som lhe parecia distante, a Lua tão próxima tinha o condão de se afastar, e mostrava-se sempre inacalçável, sentia que o sentido do espaço e do tempo não existia, preenchida pela sinfonia nada mais a preocupava, os seus sentidos, viviam um inefável e indescritível prazer, começou a ter receio que a magia termina-se, desejava viver esse tempo até à eternidade. 
- Como desistir da felicidade? – Interrogou-se. 
Naquele momento a felicidade consistia na possibilidade de estar e ser intemporal. E a sinfonia cósmica que a envolvia elevavam-na a essa altura. Ninguém lhe tiraria essa vivência de sonho, tão real e tão extraordinária. 
- Que pensaria a minha mãe? - Cogitou. 
No momento em que pensava nesta eventualidade, sentiu no ombro muito suavemente uma mão. Cheia de ternura ouviu a voz de sua mãe:
- Já é tarde, Matilde, está a ficar fresco, é melhor saíres daqui. 
Estupefacta olhou para a mãe, dizendo a medo.
- Também ouviste a mesma música? Gostaste? 
- Música, que música? Parece que o ar da noite te fez mal! 
Saiu da cadeira lentamente, voltou a olhar para a Lua e para o espaço tentando perscrutar e sentir ecos da sinfonia cósmica. Parecendo-lhe chegar do espaço infinito toda a magia do momento vivido. Entretanto pensava:
- Como abrir a alma e o coração, para o belo que o Universo tem para nos transmitir? 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Fabulosa Vida de Matilde

FORMIGUEIRO


Matilde era uma jovem com ideias muito peculiares o seu comportamento desalinhado com a maioria das pessoas da sua idade, chamava à atenção.
Gostava muito de passear no pinhal perto de casa, levava sempre a sua máquina fotográfica, via na natureza pormenores que mais ninguém conseguia ver, raios de sol a penetrar pelas ramagens, pequenas flores silvestres, aves, lagartixas, esquilos, tudo era um festim para os seus olhos e uma oportunidade de gravar em fotos o que a alma via. Tinha apenas alguma pena de não saber identificar as coisas que descobria, mas mesmo assim valia a pena senti-las. 
Nessa tarde, isso aconteceu mais uma vez, ao caminhar pelo pinhal, os seus olhos detiveram-se num carreiro de formigas e baixou-se para as observar mais de perto, admirou a sua constância na tarefa e a sua disciplina, seguiu o carreiro para descobrir onde seria a casa das formigas, pelo caminho tirou algumas fotos, que depois seleccionaria, ainda foram alguns metros, até o local de entrada do formigueiro, ao caminhar curvada sentiu algum desconforto, depois de uma última foto endireitou-se subitamente. E inadvertidamente bateu com a cabeça, num ramo já velho que pendia de uma árvore. 
Ficou atordoada, sentiu de dentro uma força que comprimia o seu tamanho diminuía em cada instante, as suas mãos eram agora minúsculas e ao olhar para o seu corpo, notava transformações incríveis, gradualmente tinha-se transformado numa formiga. Reparou que ao lado a sua roupa estava impecavelmente arrumada, no entanto pendurada ao pescoço a máquina fotográfica tinha sofrido a mesma redução de tamanho. Não teve tempo de reagir. As outras formigas do carreiro, obrigaram-na a mover-se, esteve indecisa um instante. A máquina a arrastar-se pelo chão impedia-a de caminhar, com uma das mãos puxou-a para as costas perante o espanto das outras formigas. Finalmente decidiu-se, iria para o formigueiro. Como nada transportava, resolveu ajudar aproximou-se de uma formiga que transportava um peso excessivo, e colocando a boca na carga, sentiu um sabor familiar. 
- Isto é o bolo da minha mãe – pensou.
Entrou dentro do formigueiro, e viu-se no meio de uma azáfama incrível, centenas ou mesmo milhares de formigas movimentavam-se perfeitamente organizadas, mas o seu aspecto insólito, devido a ter às costas a máquina fotográfica, chamou à atenção de algumas formigas que lhe pareciam uma espécie de polícias, rapidamente foi convidada a acompanha-las para ser levada à presença da Rainha. Temeu pelo que iria acontecer, mas não resistiu e resolveu ensaiar se a máquina funcionava tirando umas fotos, o flash assustou os guardas que se dobraram perante ela. Voltou a coloca-la às costas e prosseguiram até à Rainha. Quando chegaram junto a esta, um dos guardas que parecia ser o chefe, contou as magias a que assistiram, luz a sair de uma antena que se mexia. Esta ficou pensativa a ponderar bem o que fazer perante tamanho desafio. Finalmente disse: 
- Façamos-la acasalar com um dos nossos machos, e criaremos uma nova raça da nossa espécie, a raça dos alumiadores. 
Matilde ficou assustada, não queria isso, desejava voltar a sua condição de humana, a sua reacção, foi rápida. Dirigiu-se a Rainha:
- Majestade, preciso de tempo para pensar, perdi-me do meu carreiro e os meus companheiros andam por certo à minha procura, entre os da minha espécie só se deixa de procurar quando se escolhe em liberdade o local para viver. Aceitarei o convite depois de falar com eles.
- Concordo - respondeu a Rainha, acrescentando.- Sairás com uma escolta, e até ao por do sol se ninguém aparecer, voltarás. 
O regresso para fora do formigueiro foi bem veloz. Metade da escolta saiu primeiro depois ela a seguir os restante elementos, para não impedir o movimento contínuo das obreiras, o chefe da escolta puxou-a com alguma violência, contra a vegetação que ladeava a entrada, ao fazer isso ela chocou com a cabeça num arbusto, tombou e sentiu-se desmaiar. 
Lentamente começou a sentir a frescura do tapete de folhas e ervas que cobria o chão, olhou para si com o corpo cheio de formigas, levantou-se e sacudiu-se, estava inteira igual a ela mesma, apenas uma coisa bem estranha, a máquina fotográfica continuava pendente nas costas. 
Pensou se não teria enlouquecido: - Teria sido um sonho? – Interrogou-se
Olhou para o relógio, o tempo tinha passado, combinara encontrar-se com o João estava quase na hora, com a mão tentou arranjar o cabelo e saiu ligeira para casa.
Pontual como sempre o João já se encontrava à sua espera. Olhou para ela meio espantado:
- Matilde que te aconteceu? Que é isso na cabeça?
- Nada de especial, bati com a cabeça no ramo de uma árvore. Tenho aqui umas fotos, que tirei esta tarde, para te mostrar. 
E começou a passar as fotos tiradas no formigueiro.
João olhou sem perceber, aos seus olhos passavam quadros totalmente negros sem qualquer vislumbre de imagem. Perplexo murmurou:
- Decerto a máquina avariou, não vejo nada.
Matilde ia vendo e recordando, os túneis, os silos, as longas filas de formigas, os guardas, a Rainha, aos seus olhos passaram todos os pormenores da sua aventura. 
As palavras do João fizeram-na reflectir, levando-a a descobrir:
- Quem não viveu a emoção do diferente, nunca será capaz de olhar para além da aparência. 

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