sábado, 7 de novembro de 2015

O Velho


Sentado num banco do jardim, o Velho olhava para os transeuntes, pelo seu espírito passavam imagens da sua vida, no tempo e caminho percorrido até esse momento. 
Já não se olhava ao espelho, nem contava as rugas pronunciadas, o olhar cansado pela vida e pelas insónias, de horas de sono sempre tão reduzidas e sobressaltadas, a barba desarranjada, branca, farta e suja, o cabelo alinhado apenas com as mãos à laia de penteado, levava vestido a roupa que afinal nunca tirava: um sobretudo cuja cor era a variedade de nódoas que o cobriam, camisolas e camisas que nem ele próprio saberia dizer quantas, calças presas por um cordel e umas botas já muito gastas, era assim que se dirigia para o seu banco todos os dias. 
Apreendeu a solidão. Aprendeu a olhar o Sol como um relógio do tempo que passava e do tempo que lhe faltava viver. O Inverno era bem duro, e não era só pelo frio e pela chuva que o causticava; mas porque parecia que os elementos se conjugavam, contra a sua vontade, na sua ida em deambulação até aquele banco do jardim, onde já há muito gastava uma boa parte do seu dia.
O seu refúgio noturno ficava cada vez mais longe, ou pelo menos era isso o que sentia, o transporte dos seus haveres era uma carga cada vez mais pesada e incómoda, por isso analisou com cuidado o local perto do “seu” banco. Próximo um coreto parecia-lhe um imenso e fausto palácio, as tarjas de propaganda política, presas ao seu gradeamento, garantiam uma proteção contra o vento e a chuva por ele empurrada. Além disso, eram renovadas com regularidade, os sinais de renovação eram evidentes, primeiro um alarido com altifalantes em altos berros, a prejudicarem o sossego de todos, como se tratasse da venda de um produto novo, a seguir centenas de cartazes, por fim as tarjas ali bem centrais, com diversas cores e muitas palavras, que apenas lhe causavam indiferença. Importante era a renovação da proteção contra o vento. E para ele era isso que ficava daqueles momentos. 
Não voltaria à sua “casa” habitual num prédio em ruínas bem longe, decidiu que aquela seria a sua morada. O banco do jardim a sua sala de estar. E todo o jardim por onde pululavam crianças e passeavam famílias o seu próprio jardim. E pelo sim pelo não continuava a transportar com ele todos os seus haveres. No coreto deixava apenas as embalagens de cartão que lhe serviam de cama, no banco junto a si mantinha um embrulho sujo e malcheiroso que continha toda a sua riqueza, em baixo um pequeno saco de que se via apenas o gargalo de uma garrafa. Sentia da parte de quem passava uma repulsa imensa pela sua presença, mesmo quando escondida era atirada com desprezo, uma moeda que caía na caixa aos seus pés. Mas nada disso o impedia de ocupar o seu banco de jardim.
Mantinha um braço sobre o embrulho, o outro pousado no apoio do banco, e aí permanecia imóvel e sem palavras e observava, observava. Numa atitude de um rei no seu trono.
Aquele casal ainda novo com uma atitude de olhar apaixonado, outro ainda já idoso que parecia manter uma visível ternura, e alguns idosos e idosas que sozinhos por lá fingiam viver. Gente nova, com telemóvel pendurado ou pendurados ao telemóvel, aparentemente em comunicação com o mundo mas quase sempre a falar sós. 
Gostava especialmente de ver crianças, único momento em que se notava alguma emoção. Seriam saudades de netos? Teria netos?
Quando num lampejo de existência e pela proximidade de alguma criança tentava tenuemente dirigir-lhe alguma palavra ou ensaiar um sorriso, logo os pais apressados afastavam os filhos enquanto se lhe dirigiam com rudeza e insultos.
- Afasta-te, velho bêbado! Nem te atrevas a tocar-lhe! 
Retraía-se e voltava ao seu estado de imobilidade majestática com uma superior indiferença. 
Aos fins-de-semana de Primavera e Verão, como era o caso, muitas famílias deslocavam-se àquele espaço para permitir aos filhos um tempo de liberdade e diversão.
Ultimamente tinha ainda colocado uns óculos, que quase por acaso, pouco tempo antes encontrou, perdidos em cima do tejadilho de um carro, uns óculos de Sol que lhe pareciam jeitosos, rapidamente os guardou no bolso do sobretudo, não tinha ainda passado muito tempo sentiu uns passos apressados na sua direção e uma voz que gritava:
- Ó velhote, quero falar consigo!
Manteve impávido o andamento lento e pesado, como se nada fosse com ele. A pessoa depressa o ultrapassou colocando-se a sua frente e falou com estridência, perguntando:
- O senhor pegou nuns óculos que estavam em cima de um carro? 
Ignorou a pergunta, ignorou o tom, olhou para ela, uma mulher ainda nova e bem bonita e disse-lhe na sua voz rouca, mas calma e pousada:
- Deixe-me em paz.
- Mas pegou ou não pegou nos óculos? – repetiu ela.
- Já lhe disse, deixe-me em paz.
Desarmada ela desistiu, apesar de serem uns óculos modernos e caros. 
E era assim que agora se encontrava todos os dias a olhar quem passava por detrás daqueles óculos, imóbil como rei num trono a quem os súbditos vinham prestar vassalagem, embora quem por ali passasse quase sempre mudasse de direção. 
Mas ele lá se mantinha imóbil cada vez mais invisível a todos e cada vez mais indiferente às palavras que lhe eram dirigidas.
Como sempre aos fins-de-semana, quase todas as famílias aproveitavam aquele espaço para encontro, convívio e acerto de algumas conversas. 
Naquele fim de tarde de Domingo, um casal que passeava um filho num carrinho, reparou que no outro lado do jardim ia uma pessoa amiga que já não viam há muito tempo, acenaram-lhe chamando-lhe à atenção da sua presença. 
Ela mudou de direção encaminhando-se para junto deles. Cumprimentaram-se, trocaram impressões e palavras de circunstância.
- Ambos com ótimo aspeto, tendes um lindo menino, parabéns! Que idade tem? 
- Obrigado, tem sete meses.- respondeu o marido - Tu também estás muito bem!
Subitamente os olhos dela fixaram-se no Velho, que continuava imóbil e ausente como se o mundo não existisse, os amigos olhavam para ela espantados, sem perceber o que se passava. A esposa perguntou:
- Então que se passa, que é que tens? 
- Aquele maldito velho tem os meus óculos!
E sem hesitação dirigiu-se ao Velho dando-lhe um forte abanão no braço, ao mesmo tempo que ia a ensaiar palavras de ira. 
O seu abanão fez com que o Velho rodopia-se caindo no chão desamparadamente. Mantendo estranhamente as pernas dobradas e os braços como pousados num trono.
No dia seguinte os jornais locais anunciavam: IDOSO ENCONTRADO MORTO NUM BANCO DE JARDIM, a notícia prosseguia, segundo os primeiros dados da autópsia, a morte ter-se-ia dado há mais de quarenta e oito horas.

3 comentários:

  1. Esquecemo-nos que fomos nós que decidimos viver desta forma.
    Aprendemos a aceitar o que é inaceitável, numa sociedade onde tudo é mercantilizado, até a vida. E a vida de um velho, não vale muito...

    (Bom conto curto. Parabéns!)

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    Respostas
    1. Obrigado pelas amáveis palavras que nos servem de encorajamento, retratar a vida, mesmo quando mostra a nossa desumanidade como sociedade, é obrigação de todos. Obrigado

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    2. Obrigado pelas amáveis palavras que nos servem de encorajamento, retratar a vida, mesmo quando mostra a nossa desumanidade como sociedade, é obrigação de todos. Obrigado

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