segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Quadro


                            A FABULOSA VIDA DE MATILDE

O grupo de alunos chegou logo no início da tarde para uma visita de estudo ao Museu, como sempre acontecia a sua juventude trazia alegria e algazarra própria da idade, mas bem pouco habitual nestes espaços. O Museu instalado num antigo Mosteiro estava associado a um pintor da terra, que tinha atingido uma projeção elevada. Antes de entrar a Professora que dirigia a visita, entregou a cada aluno um desdobrável, que para além do retrato do Pintor, constava também uma biografia resumida e algumas notas sobre as pinturas expostas. A Professora fez notar as obras realizadas, na ala do Mosteiro onde estavam expostas os quadros que eram a razão da sua visita, obras que conjugavam a funcionalidade da arquitectura moderna sem descaracterizaram o edifício.
Matilde ficou de olhar preso ao exterior do edifico, na sua robustez granítica, nas linhas simétricas de todo o conjunto, na fachada imponente da Igreja que transmitia a força da pedra com que tinha sido construída, e pensava como se teriam conjugado os quadros que constavam do desdobrável, com o espaço onde estavam expostos. 
Enquanto se dirigia para a entrada do Museu os seus olhos iam-se fixando no retrato do Pintor. Perturbada notou que tinham vida, que a olhavam como se quisessem transmitir-lhe alguma coisa. Desviou os olhos do desdobrável, mas não conseguiu retirar do espírito essa sensação estranha que continuava a apoderar-se dela. Entrou no Museu, já o grupo subia ao primeiro piso e percorria a primeira galeria, não parecendo notar a sua falta. 
Matilde teve que estugar o passo, como de costume estava isolada do grupo, a explicação da Professora chegava-lhe apenas como um murmúrio, por um lado queria manter-se junto ao grupo por outro lado os seus olhos procuravam em cada quadro vislumbre do olhar que a tinha conquistado. 
Enquanto olhava os quadros alinhados sentiu a estranha sensação de estar a ser observada, como se um olhar de alguém invisível se tivesse fixado nas suas costas. Porém, de cada vez que se voltava lentamente perscrutando em redor à procura da causa desse sentimento não detectava a presença de qualquer pessoa, suspirava convencida de que a sua fértil imaginação via o inexistente. Abeirou-se finalmente da galeria principal do museu, que se lhe deparou luminosa e ampla, dominada por um conjunto significativo das obras do Pintor. Estava confusa e aturdida, para ela não eram apenas quadros mas o espírito do Pintor em pessoa.
Questionou-se: É apenas uma ilusão? Estou a sonhar? Ou endoideci de vez?
Parou, tentou reflectir, respirou mais calmamente, mas o seu coração continuava a bater bem forte. Cada quadro que deparava, representava de alguma forma a imagem do Pintor, parava cada vez mais demoradamente diante de cada um. Sentia-se como se arrebatada para dentro deles. Pertencia a cada tela, era um seu elemento.
Esfregou os olhos, atarantada, olhou bem à sua frente uma tela com uma profusão de cores e formas que a atraíam e intrigavam, que inopinadamente ganharam vida. Matilde sentiu-se arrastada para dentro do quadro, encontrando-se no que lhe parecia um atelier de pintura.
Frente ao quadro que estava o Pintor que olhando-a fixamente Lhe disse:
- Aguardava pacientemente pela tua visita, tenho muitos visitantes, mas tão poucos que olham para dentro de mim, apreciam os quadros mas não entram na minha alma. Tu tentaste ir além das formas. Procuraste a essência. A Arte é uma das criações mais sublimes da humanidade. Só a Arte replica o mistério da alma humana, e a força e beleza da natureza. Cada vez que admirares uma pintura lembra-te que mergulhas numa das mais sublimes das artes, vai além da superfície tal como hoje penetra na cena, toca nos seus elementos, não com as mãos mas com os sentidos, descobre todas as suas formas, contorna todos os seus ângulos, embebe-te nas suas cores, só assim alcançarás o seu verdadeiro significado, tu própria farás parte do mistério que todas as obras de arte guardam.
Mas aviso-te não será fácil e precisarás de muita coragem para seres entendida. Muitas vezes encontramos numa pintura algo muito diferente do que esperávamos. É esse o seu principal mistério.
Matilde sentiu-se paralisada, incapaz de articular palavra, o seu corpo foi percorrido por um calafrio, parecia-lhe que ao longe uma voz gritava o nome dela, um abanão súbito e com alguma violência despertou-a daquele êxtase. Enquanto uma colega lhe gritava:
- Bolas! És sempre a mesma, o autocarro já esta à tua espera, o que estiveste a fazer até agora?
- A descobrir o mistério deste quadro.. - respondeu Matilde a medo. E correram as duas para o autocarro. 

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