sexta-feira, 17 de março de 2017

A VINGANÇA

A VINGANÇA

Pelas nove horas da manhã de uma segunda-feira o Dr. Custódio Castro, importante advogado, de um conceituado escritório de advocacia, e contra o que era habitual, uma vez que chegava sempre bem cedo, ainda não estava presente, aproximava-se a hora de mais uma audiência no tribunal, de um julgamento muito mediático e a sua chegada era aguardada com ansiedade.
Um dos advogados mais novos da equipa, enquanto ele próprio ligava vezes sem conta para o telemóvel do Dr. Castro, sem resultados, solicitou a uma administrativa, que o tenta-se localizar.
Depois de ligar para o telemóvel que estava inacessível, para a casa do advogado, cuja esposa se mostrou surpreendida e preocupada, pois para ela o marido já há muito que devia estar no escritório.
No contacto entre o escritório e a esposa do Dr. Custódio Castro ficou decidido esperar mais algum tempo, uma vez que a esposa sabia que o marido se tinha deslocado, com um irmão à terra natal para tratar de assuntos relacionados com a morte de um outro irmão, acontecida num hospital da cidade, hospital em que trabalhava como médico o Dr. António Castro, seu cunhado.
Sabia que o cunhado falecido vivia sozinho, e levava uma vida de misantropo, embora se constasse que teria uma fortuna bem interessante.
A família fazia parte, da enorme massa daqueles que se viram obrigados a abandonar as antigas colónias, no caso Angola, onde o pai José Castro, tinha construído uma rede de negócios ligado aos diamantes, mantendo-se porém estritamente nos limites da lei.
Nos últimos anos por precaução tinha estabelecido contactos bem fecundos com pessoas da chamada metrópole, ligadas à joalharia e ao artesanato de ouro, precavido e atento ao mundo da moda, criou relações com estilitas de joias personalizadas, abdicou da quantidade e especializou-se na qualidade e valor. Os seus clientes tinham um serviço exclusivo à medida do seu gosto pessoal, além da total descrição em relação ao preço.
A saída forçada de Angola foi facilmente ultrapassada e a família nunca passou dificuldades, os seus três filhos: Carlos, António, e Custódio, com idades bem aproximadas cedo se adaptaram à nova vida. A família instalou-se na casa que já possuíam numa pequena cidade, conhecida pelos seus artesãos no trabalho do ouro.
José Castro que não tinha interesse em depender de outros no fabrico do seu produto, nos seus contactos com os fabricantes, cedo começou a avaliar, os artesãos mais hábeis e cujas peças tinham qualidade e perfeição. Não lhe interessavam muitos, mas preferia manter um controlo total, sobre aquilo que fornecia aos seus clientes.
Rapidamente ofereceu a alguns artesãos, um vencimento bem alto, para eles uma verdadeira fortuna, com a condição de trabalho em exclusivo e sigilo total, sobre clientes e produtos. 
Quando a vida parecia ter-se normalizado para toda a família, a esposa de José Castro foi vítima de uma doença, que em poucos meses o deixou viúvo. José Castro fechou-se mais nos negócios, tentou que os filhos se interessassem, mas apenas Carlos, que não mostrava grande apetência para os estudos, se começou a envolver tanto nos negócios, como no fabrico das jóias, mostrando sensibilidade para perceber os gostos dos clientes, que sendo poucos eram bem exigentes.
António enveredou pela medicina e fixou-se na cidade onde estudou, o seu irmão Custódio seguiu direito na mesma cidade, e lá iniciou a carreira de advogado e mais tarde juntamente com outros colegas, criaram um escritório que rapidamente adquiriu prestígio.
Regressemos cerca de dez anos atrás, quando Carlos noivo e com casamento marcado com Joana, pela qual tinha uma adoração intensa, mas que não era correspondido de igual forma, Joana aceitou o pedido de casamento pela estabilidade que a sua vida teria ao casar-se com Carlos.
Além disso sentia por ele uma forte amizade, semelhante áquilo que é costume chamar de amor.
As coisas precipitaram-se e perante o espanto de todos, ainda mais incompreensivelmente para os que conheciam a família, o irmão de Carlos, António, num arrebatamento de paixão, que por certo já há muito lhe roía as entranhas, iniciou com a que estava destinada a ser sua cunhada, uma relação tórrida que fez gorar o casamento, levou o pai a uma profunda depressão, com a trágica saída do suicídio, Carlos entregou-se a um isolamento total, só quebrado pelas relações obrigatórias da continuação do negócio do pai. 
Durante os últimos tempos da vida do pai, Custódio Castro o advogado tornou-se presença assídua junto do pai, na maioria das vezes acompanhado por um colega de escritório, mantendo com o pai discretas conversas. O que é certo quando da leitura do testamento, Carlos embora sem grandes reclamações se sentiu, mais uma vez traído.
A partir desse momento a relação dos irmãos, António e Custódio com Carlos, terminaram.
António ao fim de pouco mais de dois anos de uma paixão extrema com Joana, da qual nasceu uma filha, derivou para uma relação conflituosa, que rapidamente levou à separação de ambos. Tanto António como Joana, recomeçaram as suas vidas, mantendo o contacto necessário e suficiente por causa da filha de ambos.
Carlos continuou a dedicar-se em exclusivo à sua actividade, não se lhe conhecia amigos e nunca mais olhou sequer para uma mulher.
A única mulher com quem tinha proximidade era uma empregada que já tinha servido os seus pais e continuou ao seu serviço, discreta e sempre fiel, tendo com ele algumas liberdades que a mais ninguém era permitido.
A dedicação exclusiva ao trabalho, uma austeridade de gastos onde não entravam quaisquer despesas que não fossem absolutamente necessárias. Austeridade muito perto da absoluta avareza, em poucos anos permitiram-lhe amealhar uma fortuna. Juntar essa fortuna foi facilitada, por ser ele o único a saber o esconderijo onde o pai, guardava uma quantidade de diamantes bem significativa.
Dos pais herdou a casa da cidade, no rés-do-chão da qual estava instalada uma joalharia da família, e uma quinta numa aldeia nos limites da cidade, com uma casa senhoril em ruinas e a casa do caseiro. Todo o dinheiro que ele sabia que era bastante, tinha sido repartido pelos outros irmãos, além de outros valores como joias e das quais não viu nem rasto. Ainda esteve tentado a revelar a existência dos diamantes, mas perante a leitura do testamento, o segredo ficou com ele.
Parecendo ignorar a forma como os irmãos o trataram, mergulhou obsessivamente no trabalho, ao fim de três ou quatro anos resolveu construir na quinta uma casa, mais parecida com um bunker, de fora a casa parecia um bloco único de betão não sendo visível à vista nem portas nem janelas.
Quando expôs num gabinete de arquitetura o que desejava, mostrando claramente que tinha as ideias amadurecidas e claras, obteve como resposta um desabafo de um dos arquitetos:
- Não sei o que espera de nós e o que fez vir aqui, mas tentaremos dar resposta ao que nos pede.
A casa relativamente pequena, dispunha de dois quartos, uma pequena sala comum, cozinha hall de entrada, duas casas de banho e um escritório relativamente amplo, tinha uma ligação direta para a oficina, que também tinha sido transferida para a quinta, para a garagem localizada na cave e para uma casa forte numa subcave logo abaixo da garagem, enquanto a garagem se encontrava ligeiramente acima do nível do solo, a casa forte era totalmente inacessível por fora, colocando graves problemas de ventilação, Carlos porém mostrou-se inflexível, a casa forte teria que ficar localizada aí e com acesso apenas pelo escritório. Os custos adicionais não eram problema.
Em cerca de um ano as obras terminaram, e rapidamente Carlos se mudou para a nova casa.
Continuou isolado, sem mais contactos que não fossem fornecedores e clientes, e uma relação estritamente profissional com os artesãos que continuaram a trabalhar com ele, tal como com uma administrativa que trabalhava na empresa.
O seu prestígio como fabricante de qualidade e cumpridor com prazos, fizeram que mesmo em épocas menos boas nunca lhe faltassem clientes. A casa tinha uma arquitectura que lhes garantia uma discrição absoluta. A entrada de carro era feita a partir da entrada do portão por uma espécie de túnel de betão que os levava diretamente à ampla garagem e daí à casa. Tudo era invisível da rua e mesmo da oficina e da casa do caseiro, que tinha ordens estritas, para tratar do jardim apenas em alguns dias por mês, previamente marcados, tratar dos cães de guarda solta-los à noite e os voltar a colocar na jaula pela manhã. No resto toda a quinta era por conta do caseiro.
A vida que levava o rancor que sentia e nunca extravasava, mas cada vez o tornava mais amargo e intratável, tornaram-no fisicamente frágil, começou a emagrecer aparentemente sem causa, mas só perante a insistência da sua velha empregada, a única que lhe falava sem receio, resolveu ir a um médico.
Ao médico que o atendeu não lhe custou compreender, que apesar de Carlos ser ainda novo, não tinha quarenta anos, o caso lhe parecia bem grave, e pediu-lhe que fizesse um conjunto de exames o mais rápido possível.
Quando saiu do consultório médico, Carlos dirigiu-se ao advogado com quem costumava tratar de assuntos da sua empresa. E depois de uma longa conversa, em que acertou diversos pormenores de futuro, saiu respirou profundamente, coisa que já não fazia há muito, e tratou de marcar os exames pedidos pelo médico.
Cerca de quinze dias depois recebeu uma chamada urgente do médico, pois precisava de conversar com ele o mais rápido possível. 
Carlos tinha pedido à sua funcionária para levantar todos os exames e os colocar no consultório do médico, tal como tinha previamente combinado com ele.
Combinou com o médico que iria lá no dia seguinte. Depois tomou uma decisão, reuniu os seus colaboradores, pedindo-lhes que entrassem em sua casa, perante o espanto destes, que não estavam habituados a estas atitudes, na sala tinha a mesa posta para um lanche substancial, como se tratasse de algum acontecimento especial. E disse-lhes para se servirem. Com um misto de estranheza e timidez, muito lentamente começaram servirem-se, enquanto esperavam o que se seguiria.
Com a aparência de frieza, mas onde se notava alguma emoção, comunicou-lhes que estava doente, provavelmente com gravidade, por isso lhes pedia que continuassem a tratar bem os seus clientes e que ele não se esqueceria da importância que tinham tido na sua vida. Sabia que cada um saberia fazer bem as suas funções.
No dia seguinte dirigiu-se ao consultório médico, mal chegou foi logo atendido e pela cara do médico percebeu que a situação era mesmo grave.
O médico foi direto ao assunto e colocou as coisas de forma clara.
- O seu caso é bem grave, muito grave mesmo, já comuniquei para o Hospital que me parece melhor para situações como a sua, penso que deve ser imediatamente internado.
- Se é assim quando vou?- Perguntou ele secamente e sem emoção aparente
- A minha empregada chama uma ambulância e segue imediatamente para o Hospital, eu entro em contacto com um meu condiscípulo, e ele estará lá a sua espera.
- Não vinha preparado.- Disse com algum enfado e pela necessidade de dizer alguma coisa
- Não se preocupe, trata-se disso depois.
A ambulância chegou rapidamente o médico juntou os exames realizados, acrescentou o relatório que elaborou, e entregou a um dos tripulantes da ambulância, com a recomendação de que a sua espera estaria lá um médico.
Quando a ambulância partiu, dirigiu-se ao seu gabinete e iniciou de imediato um telefonema.
- Olá estás bom Custódio?
- Olá tudo bem, então que te leva a um telefonema a esta hora?
- Saiu daqui um doente, receio bem pelo seu estado, é curioso chama-se Carlos Castro, mas não deve ter nada a ver contigo.
- Que faz? Que idade tem?
- Julgo que é ourives ou coisa parecida, a idade quarenta anos. Porquê essas perguntas?
Durante uns longos segundos, instalou-se um profundo silêncio, até que do outro lado da linha e com um tremor na voz se ouviu.
- É meu irmão.
E desligou abruptamente.
A situação tinha de facto atingido o limite, em menos de uma semana e apesar de todos os esforços da medicina Carlos faleceu.
Custódio que já tinha comunicado o internamento de Carlos ao seu irmão António, e a Joana que quando teve conhecimento lhe fez uma visita, também lhes comunicou a sua a morte, e uma vez que Carlos não tinha mais família trataram de todos os procedimentos para o funeral, que se realizou na cidade natal.
Durante o velório um senhor já com alguma idade e discretamente, apresentou-se como advogado da empresa de Carlos e pediu aos irmãos se era possível uma pequena conversa, bem como gostaria de ser informado se estaria ali alguma senhora chamada Joana.
António deduziu a que Joana se referia o seu colega advogado, mostrou disponibilidade para essa conversa que teria que ser discreta e pouco demorada.
Retiraram-se para um espaço mais reservado da casa mortuária, informaram Joana que acedeu a estar presente, o advogado pediu desculpa pelo incómodo da situação dizendo que seria muito breve.
- Como sabem durante anos e até este momento, fui advogado da empresa que era do vosso pai e agora do vosso irmão, solicitou-me ele que fosse fiel depositário do seu testamento e que este fosse lido quinze dias depois da sua morte. A condição única para a leitura do testamento, sem a qual este perderá validade, e será substituído por um segundo testamento do qual também sou depositário, é a presença exclusiva dos irmãos António e Custódio bem como da Sra. Joana, que estão aqui presentes. Tenho aqui uma carta convocatória, que entregarei a cada um, para a vossa presença no meu escritório às 16.00 horas daqui a duas semanas. Obrigado pela vossa atenção e até breve.
Entregou os envelopes com a convocatória e saiu discretamente.
Na data marcada, no escritório do advogado fiel depositário do testamento, comparecerem como o exigido pelo irmão Carlos, os irmãos; António e Custódio, acompanhados de Joana, os três contavam que a leitura fosse rápida, combinaram deslocarem-se apenas num único carro e assim fizeram.
O advogado fiel depositário do testamento, cumprimentou-os e pediu-lhe que se sentassem tomou a palavra.
- O testamento de Carlos é um pouco estranho, mas a mim compete fazer cumprir o que ele estabeleceu. Por isso vou ler:
Pegou num envelope, retirou dele uma folha, mostrou a assinatura devidamente reconhecida, um atestado médico que confirmava que Carlos estava em pleno uso de todas as faculdades. E iniciou a leitura do testamento propriamente dito.
- Aos meus irmãos Custódio e António à minha ex noiva Joana, deixo tudo o que se encontra na casa forte localizada na cave da minha atual morada, a divisão entre os herdeiros indicados será equitativa e tenho a certeza que cada um, não desejará mais do que aquilo que lhe estiver destinado. Na mesma casa forte encontra-se localizado um pequeno cofre, onde guardei o máximo que vos poderia desejar.
Finda a leitura o advogado entregou a cada um dois envelopes. Um com as chaves e o código de acesso à casa forte, outro com as chaves e o código de acesso ao pequeno cofre. A casa forte tal como o cofre precisava de três chaves e de seis dígitos, cada. O advogado também lhes entregou o comando do portão de entrada de veículos e as chaves da porta de casa. E concluiu com uma recomendação.
- Pelas instruções do falecido, fiquei encarregue de tratar de todas as formalidades que houver necessidade de tratar, nos próximos sete dias. Espero pelo vosso contacto. Um último aviso, já me esquecia, junto à porta de entrada do lado esquerdo encontra-se o quadro do alarme, têm trinta segundos para o desligar, este é o código.
Entregou novo envelope além de uma cópia do testamento, perguntou-lhes se sabiam onde se situava a quinta e como chegar lá.
Despediram-se do advogado, agradeceram a cordialidade do tratamento e dirigiram-se para a casa do irmão.
Pela primeira vez os irmãos Custódio e António, entraram na casa de Carlos e ficaram espantados com a estranha opção do irmão.
A velha casa tinha sido totalmente arrasada, dando lugar a uma autêntica fortaleza, em todas as janelas fortes grades de ferro, câmaras de vigilância, um aspecto global, frio e duro. Uma robusta porta de segurança guardava a entrada. Fazendo um contraste com o jardim bastante bem cuidado, pois o tempo primaveril ajudava ao florescer de muitas e variadas plantas, que além da cor faziam sentir os seus aromas. Os cantos dos pássaros davam ao ambiente um tom alegre.
Custódio abriu a porta dirigiu-se apressadamente para o quadro do alarme, que desativou e entraram sem problemas. 
Logo que fecharam a porta notaram um silêncio opressor, a casa tinha sido construída totalmente insonorizada, nada de fora chegava nem sons nem cheiros, Joana por necessidade e curiosidade voltou a abrir a porta, abrindo os pulmões ao ar fresco, encheu-se de coragem voltou a entrar e fechou a porta. Os dois irmãos já se encontravam no escritório e não lhe foi difícil encontrar a porta de acesso à cave. Umas escadas um pouco íngremes mas bem iluminadas. Esperaram por Joana e iniciaram a descida, chegaram a um pequeno patamar, com duas saídas uma no mesmo plano com indicação de oficina, e outra sem qualquer indicação que deduziram que fosse a casa forte. A iluminação continuava muito boa, ao fim de alguns degraus chegaram a novo patamar e depararam com a entrada para a casa forte. Nos envelopes que eram portadores, era descrita a ordem para a abertura da porta blindada.
Facilmente abriram a porta e encontraram-se num compartimento relativamente pequeno, não teria mais que dez metros quadrados, e com cerca de dois metros de altura, as paredes cobertas de estantes, com pequenas caixas com indicação do tipo de jóias que continham, numa das estantes estavam algumas barras de ouro, as estantes faziam fazia diminuir o espaço de circulação disponível, levando a uma sensação de sufoco, dispunha ainda de uma secretaria e de uma cadeira. Num canto, em lugar de destaque e embutido na parede, encontrava-se o pequeno cofre.
Com as chaves do cofre e senhores dos códigos, precipitaram-se para o cofre e pela ordem estabelecida, sentiram que o cofre ficou aberto, mas porém por motivos que não descortinavam a porta ofereceu alguma resistência à abertura total. António o mais expedito puxou com quanta força tinha, sentiu uma espécie de baque, como se alguma coisa se tivesse partido, a porta soltou-se trazendo com ela um cabo de aço e na ponta um tampão, a porta caiu ao chão partiu-se em mil bocados, ouviram a porta da casa forte a bater com estrondo, a iluminação apagou-se fez-se silêncio, ligaram os telemóveis viram que estavam sem rede, dirigiram-se iluminados pelos telemóveis para a saída, e repararam que a porta não tinha forma de ser aberta por dentro, bateram à porta e gritaram desesperados, compreenderam que ninguém os iria ouvir. Começaram a sentir tonturas ao mesmo tempo que ouviam o som de uma ligeira brisa, procedia do cofre, compreenderam que se tratava de uma entrada de gás que tinha sido activada pela abertura do cofre depressa descobriram que Carlos tinha programado obsessivamente para aquele momento, uma cruel vingança. As baterias dos telemóveis foram perdendo carga e o espaço mergulhou na escuridão absoluta, gradualmente, a começar por Joana, foram caindo ao chão, inanimados.
Como de costume todos os dias de semana bem cedo, apesar de saber que Carlos já não era vivo, a empregada entrou em casa, notou que não havia energia, amaldiçoou a EDP, deu uma volta pela casa toda, viu no escritório a porta de acesso à cave aberta, soltou uma imprecaução pelo seu esquecimento, pois só podia ser ela que a tinha deixado aberta, sentou-se na cadeira do patrão, saindo-lhe uma lagrima furtiva. E concluindo que não estava ali a fazer nada, vagarosamente voltou para a sua casa.
Cumprindo o horário habitual, pelas nove horas os artesãos dirigiram-se para a oficina, manifestando entre si sentimentos de preocupação sobre o seu futuro. Um dos artesãos ao iniciar o trabalho, recomeçou a tarefa de terminar um objeto que necessitava de um acabamento mais cuidado, tentou acender um maçarico a gás, mas não conseguiu, desabafando com um colega.
- Ainda há alguns dias o depósito foi cheio, é impossível que o gás tenha acabado.
Mudou de maçarico e o resultado foi o mesmo. Dirigiu-se ao depósito que se encontrava no exterior da oficina, e para seu espanto o manómetro indicava pressão zero, o depósito encontrava-se totalmente vazio.
Alertou os companheiros, só podia haver uma fuga e era necessário chamar os técnicos da empresa fornecedora de gás.
Ao fim da tarde desse dia, a esposa do advogado cansada e já muito preocupada pelo marido, telefonou para o advogado, que confirmou a presença do marido do cunhado e acompanhados de Dona Joana, no sábado tal como o combinado, e que tanto quanto sabia, se tinham dirigido à casa do irmão falecido.
Alarmada e em pânico, tentou entrar em contacto com as outras pessoas envolvidas, sem resultado, ligou seguidamente com o companheiro da Joana, que também nada sabia, acontecendo o mesmo com a esposa do médico. Juntos alertaram as autoridades, e dirigiram-se para a cidade de Carlos. Sem a menor ideia do que se teria passado.
Na casa de Carlos as autoridades encontraram a garagem aberta, e lá dentro o carro de António o advogado, e concluíram que as três pessoas desaparecidas, tinham estado naquele local. Já era tarde, tinha anoitecido, e a garagem estava sem energia eléctrica.
Com a chave disponibilizada pela empregada, que os informou que a luz estava avariada, entraram com cuidado casa.
Um dos agentes com a ajuda de uma lanterna, procurou o quadro eléctrico, encontrando-o facilmente, e mais facilmente ainda percebeu que a falta de energia não se devia a avaria, mas no quadro os disjuntores de protecção se encontrarem desligados.
Informou os colegas, que por precaução e com as lanternas deram uma volta pela casa, nada encontraram que lhes chamasse à atenção. Ligaram a energia, ouviram o barulho de uma explosão abafada, a casa tremeu ligeiramente, voltou a escuridão e o silêncio.
Quando não existia risco algum as autoridades, entraram na casa forte, defrontando-se com o caos total, as estantes tinham sido arrancadas, tudo o que continham estava espalhado anarquicamente, naquele caos e anarquia os três corpos deitados no chão, desfeitos, sem qualquer sinal de vida. Mortos pelo gás, desfeitos pela explosão.
Ao analisar todo o espaço, e com especial o pequeno cofre, descobriram o tubo engenhosamente colocado, reservando para a retirada do cofre uma análise mais cuidada, dentro do cofre bem acessível mas protegida embutida numa das paredes do cofre, uma pequena caixa contendo um envelope, com a seguinte mensagem.
- Se esta carta for lida, por alguém que não eu, é sinal que o meu testamento foi cumprido, e lembro o que deixei escrito. “a divisão entre os herdeiros indicados, será equitativa e tenho a certeza que cada um, não desejará mais do que aquilo que lhe estiver destinado.”
Espero que a quantidade de gás, os tenha levado comigo para o Inferno. Local onde vivi durante todo este tempo.
                                                       Carlos 
                                                                                                              Herminio 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O PAÍS DA MEDIDA DA AMIZADE



A FABULOSA VIDA DE MATILDE
 A AMIZADE
Matilde estava só em casa, sentada junto a uma mesa onde estava instalado um computador ligado à NET e onde tentava matar o aborrecimento daqueles dias, os seus pensamentos passavam com lentidão mas estranhamente abertos à novidade, queria um tempo diferente, sentia enfado pelo tempo que vivia entediante e desinteressante, o dia quente de Verão a modorra que ela sentia convidavam à inactividade. Subitamente, no entanto, o som de passos no chão rasgando o silêncio da casa, colocaram-na em estado e alerta, e sentiu algum medo, àquela hora não era normal alguém entrar dentro de casa sem aviso, os passos continuaram, sem grande convicção gritou:
- Mãe, és tu? – o silêncio manteve-se, voltou a falar- Quem está aí?
Não obtendo resposta, Matilde apesar do medo cada vez mais intenso, levantou-se para tentar identificar a origem dos passos, tentando dominar-se, ao mesmo tempo começava a pensar em gritar sentindo no entanto a voz presa na garganta. A casa não era grande em breve (?), fosse, quem quer que fosse, ou o que fosse, estaria junto dela muito rapidamente. Os passos continuavam a ouvir-se, sempre à mesma cadência e mesma altura, porém, era como se esse alguém estivesse a caminhar sem se deslocar, ficou atenta, apurou os ouvidos, escutou com o máximo de atenção e paradoxalmente com o mesmo ritmo e o mesmo volume o som parecia-lhe vir de todos os lados da casa. Entrou em pânico, ficou paralisada não conseguindo articular nenhum som e muito menos gritar.  Tentou controlar a respiração, durante uns segundos pensou no que fazer, repentinamente começou a correr em direcção à porta, tropeçou num dos tapetes,  desequilibrou-se, bateu com a cabeça no canto de um móvel e caiu no chão, inanimada.  
Um silêncio suave começou a fazer-se sentir em toda a casa, o corpo de Matilde mantinha-se imóvel, estendido no chão. O tempo passava e nada parecia mudar.
Numa observação mais cuidada notava-se que Matilde começava a mexer-se, ao princípio  imperceptivalmente, finalmente os movimentos cada vez mais visíveis, mas no seu rosto começou a notar-se apreensão e espanto, o local onde se encontrava nada tinha a ver com a sua casa. Estava deitada num relvado bem tratado e à sombra de uma frondosa árvore, a maciez da relva e os tons de cor provenientes das mais variadas plantas visíveis à sua volta, conjugado com suaves e agradáveis aromas trazidos por uma fresca brisa, fizeram-na pensar se não estaria no paraíso, lentamente tentou levantar-se e notou que o podia fazer sem grande esforço, já de pé notou que se sentia bem, no entanto uma pequena dor de cabeça lembrou-lhe a queda, ao levar a mão ao ponto onde se acentuava a dor de cabeça, constatou a existência de um hematoma, com uma dimensão que a assustou, um grande galo, diria a sua mãe.
Apeteceu-lhe chorar, só, num local desconhecido a que  tinha ido parar de forma inexplicável, reuniu toda a energia que foi capaz e gritou, num misto de pedido de socorro e de choro incontrolável, um eco foi repetindo os seus apelos sem os resultados que ela desesperadamente procurava. Sentou-se na relva e chorou convulsivamente. Debruçada sobre o peito e com as mãos no rosto, deu largas ao seu medo e desespero.
Entregue aos seus sentimentos, não notou que mansamente alguém se ia aproximando, o macio tapete da relva o tamanho e a estrutura física de quem se aproximava, facilitava essa aproximação furtiva. Quem se aproximava não aparentava ter intenções agressivas, o seu aspecto era uma mistura entre um duende e um ser humano, sendo impossível de identificar com rigor, pois em cada instante parecia mudar de forma, mantendo apenas a altura, as próprias cores e formas da roupa que trazia vestida, variavam segundo o seu aspecto e tamanho, ora apresentava cores vivas e variadas, como apresentava uma roupa e um aspecto em tudo semelhante a Matilde.
Era impossível acompanhar e compreender o que estava a acontecer.
Enquanto Matilde  continuava a dar largas ao seu desespero, essa forma hibrida e variável aproximou-se e tocou levemente nas costas de Matilde, que perante a inesperada surpresa, deu um salto brusco abriu a boca mas foi incapaz de articular qualquer som. 
De pé notou que esse ser era bem pequeno, mas incrivelmente parecido com ela, e com cadência regular continuava a mudar de forma, mantendo sempre no entanto na face uma incrível semelhança com ela.
O ar pacífico e cheio de ternura com que os olhos a miravam, acalmaram-na e o medo esfumou-se do seu espírito.
- Estou aqui, nunca estive noutro sítio, porque vivo em ti. Ou melhor sou a medida da tua capacidade de dares e conquistares amizade, sempre que confiares sem reservas em alguém, eu crescerei que atingirei a plenitude e será máxima a minha dimensão, sinal de que as tuas amizades merecem de ti a tua entrega total, estou aqui para te alertar se porventura os teus caminhos ou decisões não forem as mais justas. Mas para me ouvires tens que te escutar a ti. Não me vais encontrar nem te vais encontrar a ti, se não olhares bem para dentro do teu ser. Se olhares muito de perto verá apenas o exterior, descobrirás que quem vê de muito perto quase sempre vê o incerto, fica pela aparência, e se traçar o seu caminho pela aparência muitas vezes errará. Tenta olhar para o interior das coisas e de ti, e descobrirás o mundo, em cada minúscula parte, do visível e do invisível, pois em cada pequena parte está presente, todo o cosmos.
Ainda não te disse como me chamo. Como vês, sou como que uma tua gémea, se quiseres chama-me de “A Gémea.”
Matilde deixou-se como que embalar pelas palavras que ouvia, cuja origem pareciam vir de dentro de si embora a presença dessa espécie de gémea, lhe lembra-se que não seria assim, gradualmente foi serenando, endireitou o corpo totalmente o medo já tinha desaparecido e uma intensa serenidade invadiu-a, Começou a pensar que vivia uma das suas muitas fantasias, teria vergonha de gritar e chamar alguém, tinha a percepção de que não corria perigo, cheia de coragem com voz tão calma quanto podia disse:
- Mas afinal quem és tu? O que faço aqui, que local é este?
- Começo pelo local, este é o mundo da Medida da AMIZADE, em mim se reflete o valor das amizades que conquistaste. Explicar-te-ei enquanto te mostrar todo este mundo. Perguntaste o que fazes aqui: dentro de ti tens um coração aberto ao sonho e aberto à partilha de amizade sincera, só quem tem esse espírito encontra a chave de entrada neste mundo, e assim se abrirá a inteligência e o coração para valorizar o que é importante valorizar, daqui não sairás outra, mas mais capaz de traçares o teu próprio caminho, tomar-te-ão sempre como alguém diferente e serás alvo de alguma incompreensão. Queres conhecer este mundo para compreenderes quem te rodeia? Não conhecerás o futuro mas o retrato do presente. E a tua ligação a múltiplos acontecimentos de múltiplas pessoas. Aceitas fazer essa viagem?
- Que me acontecerá se recusar essa proposta?
- Nada, ficarás para sempre mais pobre e viverás na dúvida se essa decisão foi a certa. Nunca saberás a medida da amizade que os teus amigos te oferecem, nem serás capaz de avaliar se és justa para com essa amizade.
Matilde pensou uns segundos e resoluta:
- Aceito, quando começamos?
- Começamos já, mas primeiro vamos tratar da tua cabeça, colocar-te-ei este selo que é curativo e sempre que até aqui viajares esse será o sinal, que tens o privilégio de viajar neste mundo, para quem é capaz de dar amizade sem medida.
Estou em ti e sei que tens muitos sonhos, sei que o mundo precisa dos teus sonhos, não te substituirei nem nunca estarei presente para fazer por ti aquilo que tu podes e deves fazer sozinha, mas enquanto tu quiseres apenas para te animar, ou melhor para saberes que não estas só, eu estarei contigo. Em cada dia avaliaras se o teu caminho é o certo, mas sempre escolhido por ti, e que está viagem, que tal como a luz faz realçar as formas, venha a contribuir de alguma maneira para fazer brilhar em ti, tudo aquilo que tu tens de bom. Nessa altura tu serás de facto a Matilde, com sonhos não totalmente realizados, mas sempre em busca da tua realização plena. E assim contribuirás para mudar o mundo.
- Como é que posso mudar o mundo se vejo nele tanta maldade e traição, e se muitas das coisas que eu sinto, não passam de hipocrisias e mentiras?
- É bom que muitas coisas de mal sejam mentiras, é a prova que o mundo não está tão mau como parece, se todas essas maldades fossem verdade, o mundo seria um inferno.  
Iniciemos então a viagem, será como flutuar através do tempo e não do espaço, em frente temos o futuro, o que vês Matilde?
- Pessoas que eu conheço, umas com nitidez, outras quase sombras e outras que eu nunca vi, mas bem nítidas.
- Não verás mais do que isso do futuro, pois o futuro é aquilo que tu construíres cada dia no presente. As que vês com nitidez continuarão a fazer parte da tua vida, dependendo apenas de ti. As que parecem sombras são as que se afastarão ou que tu afastarás, se reparares notarás que entre estas, algumas estão em posição de quem se lamenta, ou por se terem afastado de ti, ou por não terem conquistado verdadeiramente a tua amizade. Os novos são aqueles que a vida te trará.
Viajaremos agora pelo tempo presente, não precisamos de mudar de direcção mas apenas de estado de alma. Que vês agora Matilde?
Matilde fixou o olhar num espaço que lhe parecia caótico e simultaneamente harmonioso, diante dela muitos grupos de pessoas, umas com olhar feliz outras de olhar triste, algumas bem nítidas outras nem tanto, muitas de costas impossíveis de identificar, muitas que eram sombras mas fixamente voltadas para ela, não as conseguia identificar, e caso curioso quando o seu olhar se fixava nelas a sua Gémea, tornava-se mais pequena e menos visível, quando porém se voltava para as que reconhecia nitidamente a Gémea atingia a plenitude da sua estatura. Estranho ainda era o que acontecia quando o seu olhar pousava nas pessoas com ar triste, e que ela reconhecia muito bem, nem eram muitas, mas estavam entre elas alguns dos seus maiores amigos. E neste caso a Gémea mantendo a mesma estatura e rosto parecido com o seu, transformava-se num duende com olhar perdido e triste. Matilde voltou-se para a Gémea observando-lhe:
- Não compreendo as diversas formas que vejo à minha frente, nem as tuas transformações.
A Gémea fez uns segundos de silêncio, e enquanto o seu corpo ia passando por múltiplas formas, fixou longamente os olhos em Matilde, como se olha-se bem para dentro da sua mente e perguntou:
- Queres mesmo que te explique, mesmo que te cause alguma dor?
Matilde já não se sentia capaz de recusar nada, estava disposta a aceitar tudo. E sem hesitação respondeu.
- Sim, quero perceber se for capaz, quero compreender aquilo que os meus olhos veem.
- Não são os teus olhos é o teu espírito. O grupo das pessoas felizes, são os teus amigos a quem dás e recebes amizade, o grupo das pessoas que estão de costas para ti, são as pessoas com quem te cruzaste na vida, mas com as quais nunca o afecto e a amizade aconteceu nem essas pessoas desejam, o grupo de pessoas que estão de rosto fixo em ti, é o grupo de pessoas com quem te cruzaste te admiram e que desejariam a tua amizade, mas tu nunca reparaste na sua existência. Finalmente o grupo da pessoas tristes, são aquelas que te têm verdadeira amizade e que de alguma maneira te feriram, e que precisam da tua amizade.
A Gémea acabou de falar, os olhos de Matilde estavam ligeiramente humedecidos. Soprava uma doce e calma brisa, ambas se mantiveram caladas. A Gémea colocou o seu braço nos ombros de Matilde.
A calma presente em todo o espaço, era propícia ao recolhimento, um sentimento de paz percorreu toda a alma de Matilde, suavemente e pesando bem as palavras. Voltou os olhos para a Gémea enquanto ia dizendo;
- Que valor tem a amizade, que não é capaz de compreender e perdoar?
A Gémea como que atingida por uma energia extraordinária, atingindo uma altura absolutamente descomunal, provocando em Matilde um espanto que ela jamais tinha sentido. Ao longe uma voz chegou com doçura a Matilde:
- É hora de regressares, compreendes a Amizade, a Amizade que dás tem o tamanho da tua alma.
 E uma mão como que vinda do espaço tocou-lhe na cabeça e Matilde adormeceu.
A mãe ao chegar a casa achou estranhou tanto silêncio, nem música no computador nem televisão ligada, pensou:
- Decerto saiu. - Entrou com cuidado dirigiu-se ao quarto onde Matilde costumava estar, e reparou que ela tinha adormecido, sobre o teclado do computador, com cuidado e muita ternura, aproximou-se dela e reparou num penso um pouco estranho que Matilde tinha na testa, um pouco assustada acordou-a
- Então Matilde que se passa? Que tens aí na cabeça?
- É o sinal para viajar para o país da Medida da Amizade.- Disse sem reflectir,  perante o espanto da mãe. 


                                                                                             Herminio Silva 

sábado, 17 de dezembro de 2016

PERSEGUIÇÃO




PERSEGUIÇÃO

Tinha saído da escola mais tarde que o habitual, a mãe sempre recomendara:
- Logo que acabem as aulas, tomas o autocarro e regressas.
 Mas o dia anterior tinha sido especial, fizera anos e não resistira a mostrar às amigas o novo telemóvel, não se tinha apercebido do tempo passar, estava já a imaginar as palavras da mãe, ia elaborando todas as desculpas, afinal mesmo a pé da escola à casa não eram mais que vinte minutos, e parte do caminho seria feito na companhia de algumas colegas.
 Era inícios de Dezembro o tempo estava mau, passava das dezoito e trinta e era bem escuro, para ainda complicar mais as coisas a iluminação pública estava desligada.
- Decerto por avaria: - murmurou.
A distância entre a escola e a rua principal foi passada entre risos e conversas, quando lá chegaram as amigas viraram à esquerda e ela em sentido contrário, seriam cerca de quinhentos metros sozinha, apesar da escuridão queria não ter medo, ainda não tinha percorrido mais que algumas dezenas de metros quando viu aproximar-se um vulto de um homem numa rua que confluía para a principal, instintivamente colou-se à parede batendo sem querer com a mochila nesta, notando que lhe tinha caído qualquer coisa,
 -Um lápis, uma coisa sem importância: Pensou,
Por isso não parou antes acelerou mais o passo, subitamente aos seus ouvidos chegou o ruído de um arfar de respiração e passos mais rápidos. Em pânico, não sabia o que fazer nem lhe saiam sons da garganta. Tentou ensaiar uma corrida mas as pernas não lhe obedeciam, ela podia escutar os passos ainda mais apressados como que a responder à sua reacção e já não era arfar mas autênticos rugidos, aos seus ouvidos chegou aquilo que lhe pareceu uma ordem para parar.
O vulto, atrás ia balbuciando, para si mesmo:
- Tenho que a apanhar antes de ela mudar de rua, se isso acontecer não sei como a identificar.
-Vou chamar por ela:-Decidiu:
Mas o caminho já andado e a aceleração daqueles últimos metros impediam-no de gritar, saiu um som frouxo e que ele duvidou que ela tivesse ouvido, tentou acelerar mais o passo, tinha mesmo que a apanhar.
O som que chegou aos ouvidos dela, parecia um miar de mocho, assustou-a mais, a noite parecia ter ganho cores ainda mais negras, as suas pernas apesar de jovens recusavam-se a andar, pelo menos a ela parecia-lhe isso, e no entanto sabia que bastava continuar a manter a distância durante mais alguns minutos e chegaria a casa, ao conforto da casa, ao abraço da mãe, pela cabeça passaram-lhe algumas orações da catequese, não sabia bem se as pensava correctamente, mas o tempo não era de preciosismo. Tinha dois desejos, chegar a casa e fugir daquele monstro. Um desejo aumentava o outro.
Lá atrás o vulto fez mais uma tentativa de chegar perto do seu objectivo, acelerou o mais que pode o passo, chamou a si todas as energias disponíveis, e iniciou uma nova etapa em direcção ao alvo, sabia que se ela muda-se de direcção nunca mais lhe ponha os olhos em cima, tinha pouco mais de uma centena de metros antes do aparecimento de uma nova rua, no caso à esquerda se ela vira-se aí com a distância que levava perdê-la-ia de vista para sempre, com aquela escuridão dificilmente a conseguiria identificar, para a abordar mais tarde. A partir daí pensaria o que fazer.
Ela não se atrevia a olhar para trás a escuridão continuava e ninguém na rua, parecia que tudo estava contra, na rua do lado direito algumas casas mas mostrou-se incapaz de tocar numa campainha e pedir ajuda, a paralisação mental e física para tomar uma decisão era total, no lado esquerdo apenas um extenso matagal que naquela escuridão projectava sombras assustadoras o vento fazia agitar as folhas das árvores e arbustos fazendo-as semelhantes a horríveis monstros que só via na televisão, sim nos desenhos animados até era divertido, sentia no peito o bater rápido do coração, não conseguia perceber mas sabia que tinha medo muito medo.
Continuando a sua marcha no limite das suas forças o vulto ia planeando:
 -Ela leva trinta, quarenta metros à minha frente, se eu fizer uma corrida, em menos de um minuto apanhou-a e resolvo o problema antes que seja tarde demais, é a minha última tentativa, depois desisto.
Iniciou a corrida de forma desajeitada, não só pelo cansaço, mas também devido à sua estrutura física, um esforço final e apesar do seu muito querer ia ter que desistir.
Não foi logo que ela notou da corrida iniciada pelo perseguidor, porém logo que o fez, apoderou-se totalmente dela o pânico, trazendo a si toda a coragem que ainda restava ganhou forças e arrancou numa corrida a uma velocidade de que não se julgava capaz, rapidamente alcançou o limite da sua rua, aquela que sempre lhe parecia muito perto mas que agora estava a uma distância enorme, a rua continuava deserta a sua casa era logo das primeiras bastava tocar que aquela hora a mãe sabia que era ela e abriria o portão sem perguntar nada.
Ela era jovem e o monstro não, ganhou uma vantagem confortável colou a mão a campainha e não a tirou de lá enquanto a mãe não abriu, entrou de rompante batendo com estrondo o portão de entrada, correu para a porta traseira de casa como habitual, e finalmente libertando-se num choro nervoso e confusamente tentou contar o que se tinha passado.
Naquela hora um tio e um primo tinham passado em casa, deixaram-na acalmar e perceberam que um homem a tinha perseguido, enquanto vinha para casa e que tinha começado a correr atrás dela, mas ela conseguiu fugir.
Armaram-se cada qual com o seu pau e vieram ver se na rua estava alguém, espreitaram do lado de dentro do muro com cuidado de facto a escuridão não facilitava e eles não queriam acender a iluminação da casa para não o espantar, num primeiro olhar não viram ninguém, no entanto a jovem encheu-se de coragem e olhando bem ao longo da rua disse:
- É aquele que esta ali encostado ao muro ao fundo da rua, do lado direito.
 De facto ao fundo da rua via-se alguém que apoiava as mãos no muro e que parecia respirar com alguma dificuldade, como se tivesse feito um grande esforço e nesse momento estivesse a tentar recuperar.
Tio e sobrinho pegaram nos respetivos paus e deram uma corrida veloz em direção ao homem, que continuava a arfar numa tentativa de normalizar a respiração.
Quando iniciou a corrida para se tentar aproximar da jovem o homem não contou com a reação desta, mesmo assim não desistiu queria ao menos saber onde ela vivia, no entanto longe de diminuir, a distância foi aumentando tornando cada vez mais difícil cumprir sequer o mínimo que se propusera, saber onde ela vivia, não desistiu e correu até ao fim sabia que ela não o iria ouvir pois gritar e correr nas condições físicas e principalmente com o peso que tinha, não era fácil, bem sabia que precisava de exercício, mas não era aquela a ocasião para se lamentar, ou para fazer propósitos para o futuro. O que mais temia aconteceu, na primeira rua à esquerda ela virou e ele já levava um atraso considerável, só com sorte saberia qual era a casa onde ela entraria, tentou mais um pouco.Com esperança reflectiu.
-Talvez alguma iluminação durante a entrada, permita identificar onde ela mora.
 Por isso não desistiu, chegou ao limite da rua olhou e viu tudo deserto nada de iluminação nada de pessoas. Finalmente desistiu e permitiu-se um descanso apoiou os braços nas grades do muro e foi respirando apressadamente precisava de tempo para normalizar os batimentos do coração, precisava de tempo para normalizar a respiração, depois pensaria o que fazer, subitamente notou um alarido e os seus olhos e sentidos nem queriam acreditar, sentiu o choque de uma vara a atingir-lhe as costas e a cabeça, sentiu uma forte pancada seguida de uma dor violenta junto a orelha o sangue a correr pelo pescoço e gola do casaco, instintivamente virou-se levantou os braços em protecção, com uma mão bem levantada segurando um objecto.
Quando se voltou, tio e sobrinho ficaram espantados, olhavam para a pessoa e nem queriam acreditar aquela pessoa a perseguir uma menina?
- O Senhor não tem vergonha: - Disseram.
- Vergonha! Vergonha! De quê? – Respondeu espantando e incrédulo
- Então a perseguir uma rapariga que podia ser sua neta? - Insistiram
- Perseguir uma rapariga? Eu? – Gritou desesperado 
- Eu queria era entregar-lhe este telemóvel que ela deixou cair à saída da rua da escola. Como sofro de asma não conseguia gritar para lhe chamar à atenção.
Abriu a mão mostrando o telemóvel novo que tinha sido oferecido nos anos à rapariga, e que ele reparara que caíra quando a rapariga tinha tropeçado de encontro à parede.
Perante o olhar espantado, do tio e do sobrinho.    


                                                                                       Herminio




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O ENCONTRO



                                        
                                          O ENCONTRO

Ao entrar na rua, que conhecia mal e que lhe pareceu decrepita e pouco recomendável, tentou localizar o café cuja morada tinha recebido em mensagem no telemóvel. Para ela era uma aventura e sentia-se a um tempo desconfortável e decidida. Nunca nos seus mais de vinte anos de casada tinha ultrapassado esta linha de comportamento, que se convencionava ser normal e exigido a uma mulher casada, mas estava decidida e levaria a situação até às últimas consequências. A sua vida precisava de uma quebra de rotina, um pisar do risco a que tinha sido muitas vezes tentada mas só agora estava decidida a assumir.
Perto dos cinquenta anos, mantinha a linha e a frescura de alguém que se cuidava, cabelo escuro e bem tratado, como prova de que nada era deixado ao acaso, apesar da situação do momento um sorriso aflorava-lhe nos lábios, um lábios bem desenhados, pintados de forma discreta dando-lhe um ar subtilmente sensual, um olhar suave em que se notava um certo cansaço, no entanto sabia-se atraente e todo o porte afirmava isso.
Estranhamente vestia fora de moda e ao lembrar-se da razão, não deixou de voltar a sorrir, a insistência dele em que ela levasse uma roupa semelhante à sua mãe parecia-lhe estranha e despropositada,  pensou que se era para passar despercebida o efeito era exactamente o contrário. Depois de estacionar o carro, enquanto caminhava para o endereço combinado, sentia que muitas pessoas a miravam com algum espanto pela forma que vestia.
Mesmo assim resolveu aceitar, sentia-se elegante e com uma desenvoltura que não se imaginava capaz.  
Discretamente atenta ao numero da porta, foi caminhando ao logo da rua, o numero correspondia a um café mal identificado, e o nome quase invisível parecia-lhe estranhamente insólito “ 4ª Dimensão”, a porta encontrava-se semifechada e junto encontrava-se um cão bem tratado, de raça que ela não conseguiu identificar, não era muito entendida em animais, nunca se sentiu especialmente atraída para eles, o cão encontrava-se aparentemente a dormitar, com uma coleira onde tinha escrito, “Blind” provavelmente o seu nome. Com alguma cautela contornou-o, o animal nem pareceu nem dar pela sua presença.
Empurrou a porta e no limiar o telemóvel tocou, nesse momento parou, hesitou, rodou ligeiramente o corpo, ficando de perfil para quem a olhasse de dentro do estabelecimento.
Olhou para o visor do telemóvel, era ele. Atendeu a chamada e suavemente a voz dele disse-lhe:
- Estás no local certo, podes entrar.
- Porque ligaste?- Perguntou, mas já nada ouviu o telemóvel desligou-se
Pela primeira vez vacilou, a chamada tão abruptamente terminada e o local, deixaram-na constrangida e perplexa. Ainda no limiar da porta, parou um pouco na posição de perfil e lentamente voltou-se para dentro do café, os seus olhos percorreram o estabelecimento, todo o cenário a transportou-a a meados do século passado. No seu lado direito um longo balcão em madeira, tal como todo o outro mobiliário, acompanhava o comprimento de todo o espaço do estabelecimento, na zona do balcão, um móvel com prateleiras quase vazias, apenas com algumas garrafas de bebidas espirituosas. Pouco iluminado o estabelecimento permanecia numa penumbra simultaneamente assustadora e atractiva.  
A uma mesa, logo no início do estabelecimento, de olhos fixos num jornal, apesar da Televisão ligada, um homem que tinha o aspecto de ter bem mais de setenta anos, parecia alheio ao que se passava à sua volta, a presença dela não lhe provocou qualquer alteração de atitude, estava a ler o jornal e nem a cabeça levantou. Ele encontrava-se ao fundo, de óculos escuros, vestia um casaco castanho não usava gravata mas um laço, e era tudo o que conseguia ver. Na mesa que se encontrava absolutamente vazia, ele mirava fixamente, resoluta caminhou em passos decididos.
Quando ensaiava uma saudação com um beijo na face, ele tirou as luvas pegou-lhe cerimoniosamente na mão e beijou-a com uma terna delicadeza, oferecendo-lhe a cadeira do seu lado direito. Reparou que a cadeira de frente se encontrava ocupada com o que lhe pareceu um computador, encostado ao qual se via uma bonita bengala branca, na cadeira do lado esquerdo repousava uma pasta.
Sentou-se na cadeira vaga, enquanto ele voltando a pegar-lhe na mão sussurrou, com ternura.
- Obrigado por ter vindo, o meu coração rejubila de alegria pela sua presença..
-Não percebo, porque me tratas com tanta cerimónia?- Interpelou um pouco agressiva.
-Observei-a quando entrou naquela porta. – Continuou, ignorando as observações que ela fez. - O contraste entre a luz solar e esta penumbra, delineou o seu corpo com uma beleza ímpar, ao ligar-lhe sabia que instintivamente se viraria, assim também a observei de perfil, a luz solar ao penetrar pelos seus cabelos soltos deram-lhe uma imagem com um encanto e sedução absolutos.
Sentiu-se lisonjeada com as palavras que lhe pareciam em desuso, mas pronunciadas numa voz terna e suave, ela ficou hesitante com a voz em tom intimista, e um pouco intimidada sussurrou:
- Porque escolheste este sítio? Afinal é um local público, não me sinto confortável, a presença de outras pessoas, incomoda-me e condiciona-me.
- Pode ficar à vontade- continuou ele na mesma linguagem- O empregado ouve muito mal, e este café é pouco frequentado a esta hora, além disso combinei com ele, que com a sua chegada ele se retiraria. E já se retirou.. se quiser reparar..
Perplexa notou que de facto isso tinha acontecido. A pessoa que se encontrava na mesa logo à entrada, já não se encontrava presente.
-Estamos sós - Continuou enquanto se inclinava para ela com suavidade, fazendo o coração bater e sentindo o rosto ruborescer – É mesmo muito bonita, gosto da sua boca tem beleza e sensualidade, do tom e alegria da sua voz, também admiro a sua atitude firme, com carácter. Entretanto se me permite deixe-me conduzi-la para um recanto onde descobriremos os caminhos que este encontro desbravará, e que nos levarão a um tempo diferente e feliz. E não se preocupe este tempo e este espaço é apenas nosso. 
Levantou-se, pegou-lhe suavemente na mão, ajudando-a a levantar-se e em silêncio quase religioso, por um estreito corredor caminharam em direcção às traseiras do estabelecimento. Poucos metros depois, à sua esquerda ele abriu uma porta, estupefacta os olhos dela espraiam-se pelo espaço, estava em presença de um quarto bem amplo e confortavelmente mobilado; Uma cama semi-aberta, dois sofás, um mesa baixa, em cima da qual estava um ramo de rosas, uma garrafa de champanhe e dois cálices. Conduziu-a para um dos sofás e sentou-se no outro.
O coração começou-lhe a bater com violência, tinha chegado o momento da consumação da sua aventura, sentiu-se ruborescer, e foi incapaz de articular nem palavras nem resistência.
Ele fixou o seu rosto no dela, parecendo incapaz de mostrar qualquer emoção, pelo menos os óculos escuros impediam que ela conseguisse perceber o que ele sentia.
- Não se preocupe faremos acontecer o amor a felicidade e o nosso mundo, num tempo sem pressas.      
Enquanto ele com cuidado extremo ia abrindo a garrafa, como se a tacteasse com a  garrafa na mão num ritual quase religioso, tomou os cálices verteu neles um pouco de champanhe, oferecendo-lhe um , e tomando para si o outro. Levantou o seu.
-Brindemos ao futuro que o passado para onde viajaremos nos construirá.
Sem compreender o significado daquela linguagem tão cifrada e estranha, e com hesitação. Levantou o cálice brindando com ele, beberam ambos vagarosamente do champanhe bem fresco, que a acalmou, e como que sussurrando:
- Não combinamos que nos trataríamos informalmente? - Retomou ela.
- Quero viver consigo um amor fora do tempo, entre delicadeza e paixão. Temos ambos vidas estabilizadas e que nos dão segurança, nós precisamos, eu preciso, de criar espaços e tempos de emoção. Mas não quero perder a minha segurança e deduzo que também não quer perder a sua, manter  a nossa estabilidade e estatuto. Não só a estabilidade material mas também a relação com os filhos e  netos.
Ela hesitou antes de dizer alguma coisa, as palavras ficaram presas na garganta, não se sentia capaz de articular coerentemente os seus pensamentos.
Tinha-o conhecido pela NET, gostava do que ele escrevia, ao fim de algum tempo mantinham conversas regulares, trocaram contactos a sua vida tinha sido tocada pelas ideias dele, gradualmente sentiu-se presa a tudo o que procedia dele. Não conseguia compreender, mas sabia, que desde o momento que o conhecera, a sua vida ganhou cor e emoção. Não tinha a certeza de nada mas decidira que tentaria entrar na aventura. A atitude dele a todo o ambiente que rodeava aquele encontro parecia-lhe estranho, estranho demais, para quem como ela, estava habituada à segurança a uma vida feita de rotinas, as palavras dele não encaixavam bem no pensamento inicial que a levará até ali. Timidamente articulou.
-Não te compreendo, estás a propor-me para ser tua amante?
- Não querida amiga, não seremos amantes, seguramente no sentido que lhe está a dar, seria uma indignidade para o que sinto por si, e por certo não é aquilo que espera de mim. O que lhe proponho é vivermos um amor diferente e intenso,  viveremos duas vidas, criaremos dois tempos diferentes, um tempo comum e um tempo só nosso, no tempo comum viveremos a nossa rotina, no tempo só nosso será o tempo do sonho da fantasia da imaginação, da entrega sem limites ou de espaço de silêncio e meditação. Viveremos despojados de tudo o que nos lembrar este tempo, no nosso tempo seremos outros, desfasados do tempo comum. E seremos amantes no sentido mais nobre da palavra, amantes porque nos amaremos, viveremos no tempo só nosso, num amor sem tempo. Não trairemos porque viveremos duas vidas.
Parou de falar um pouco, tomou-lhe com delicadeza uma mão, delicadamente, beijou-a demoradamente com uma surpreendente ternura, segurando levemente a mão dela entre as suas, demorou-se numa caricia que para ela pareceu não ter fim e que desejou que nunca terminasse.
Naquele momento estava longe de imaginar, no que aquele encontro iria resultar mas sentia-se estranhamente bem.
Ainda não compreendia bem o que lhe estava a acontecer, quando aceitou aquele encontro, seria uma aventura, um encontro entre duas pessoas adultas, dispostas a ter uma oportunidade de experimentarem uma relação fora do casamento, com o único fito de quebrar rotinas, e quem sabe dar outro alento à sua vida de casada. Além disso era também uma oportunidade de provar a si própria que não estava acabada e que era capaz de sentir o prazer do sexo em toda a sua plenitude. No entanto todo o ambiente que ele proporcionou e todas as suas palavras, transformaram toda a situação, e passada a surpresa inicial, descobriu uma nova beleza e perspetiva neste encontro. Se inicialmente estava insegura, agora tinha decidido tentar compreender o que ele imaginara,  sentia-se agora tentada a participar integralmente em tudo, sem reservas e sem tabus.
Queria apenas compreender claramente a proposta que as palavras dele sugeriam. Quando aceitou o encontro, não imaginou os contornos que agora lhe pareciam ter. Para ela seria uma tentativa de redescobrir o prazer do amor. O seu marido vivia obcecado pelos negócios, viviam entre eles uma amizade serena, mas de que o amor estava ausente, mesmo quando se entregavam sexualmente, não existia fogo mas uma espécie de cumprimento de uma obrigação, que se tornava cada vez mais raro e quase sempre bocejante.
Tentou fixar-se nos olhos dele mas os óculos escuros impediam-na. Nos contactos pela NET nunca tinham recorrido ao vídeo, apenas fotos e troca de mensagens pelo chat de uma rede social. Mensagens que a foram conquistando, o acesso às muitas fotos em que ele aparecia sempre muito formal e com óculos, que agora sabia inseparáveis.
Enquanto ela se envolvia nestas conjunturas que lhe ocupavam os pensamentos que a levavam-na a um beco por um lado apetecível por outro assustador.
Ele despertou-a pedindo-lhe com ternura.
- Posso beija-la?
Sem esperar resposta colocou-lhe as suas mãos suavemente nas faces, beijando docemente e demoradamente nos lábios, não ofereceu resistência e deixou-se conquistar com aquele beijo sem comparação com os que já tinha recebido. Não lhe procurou a boca mas apenas os lábios, como se a quisesse saborear pela eternidade. Num impulso lançou-lhe os braços em volta do pescoço puxando a si numa entrega de que se julgava incapaz.
Gradualmente afastou-a, e calmamente foi dizendo.
- Voltaremos a encontrar-nos, aprenderemos a amar-nos no nosso tempo e no nosso ritmo. Construiremos um mundo só nosso e só nesse mundo, nos encontraremos até ao êxtase da entrega física e espiritual. 
- Estas rosas- continuou ele com o ramo na mão- Transportam beleza e aromas, mas também alguns espinhos, não há flor que simbolize melhor o amor, sei que é uma frase comum, só a forma como tratamos da rosa e a oferecemos, tal como tratar dar e receber o amor faz a diferença. Querida com este ramo me entrego. 
Parou de falar uns segundos, como para a deixar digerir as suas palavras. Ela demorou a reagir e quando se preparava para balbuciar algumas palavras, sem mais ele levantou-se e sem esperar resposta, tomou-lhe o braço com doçura, e perante o espanto dela, conduziu-a até à porta.
- Contactarei consigo, voltaremos a encontrar-nos.
Abriu a porta e nesse momento o cão entrou, ela recuou como que receosa, no entanto o cão entrou calmamente sem lhe ligar, despediram-se com um beijo na face.
Estranhado a forma um pouco rápida e com alguma rudeza da despedida, na rua notou, que apenas a ausência do cão, tornava o cenário diferente, a rua era de facto pouco movimentada, apenas uma pessoa já com alguma idade caminhava no sentido onde ela se encontrava, quase que se chocaram, fazendo-a reparar com espanto que na montra do estabelecimento onde tinha estado se encontrava um cartaz já muito envelhecido onde se podia ler, ENCERRADO VENDE-SE OU PASSA-SE e com um número de telefone absolutamente ilegível.
Voltou para trás, bateu com violência na porta, mas ninguém atendeu, o transeunte despertado pelo barulho aproximou-se e perguntou.
- A Senhora procura alguém? Isto, está fechado, há mais de vinte anos, a minha filha mora no andar de cima e não me lembro de ter visto por cá alguém.
- Tem a certeza? – Arriscou ela
- Absoluta minha Senhora
- Mas ainda agora eu estive lá dentro, com duas pessoas. – Replicou ela com veemência
O transeunte olhou para ela com um misto de curiosidade e de comiseração, relativamente nova, talvez menos de cinquenta anos, vestia de uma forma estranha, não se enganava vestia, como se vestiria a avó dele, provavelmente a senhora não estaria boa da cabeça, teria até fugido de um hospital psiquiátrico, como não lhe parecia que ela corresse perigo, ou que viesse a causar perigo a alguém, não tomou nenhuma atitude, além disso sabia que se chama-se uma ambulância se meteria em confusões, limitou-se a dizer em tom de conselho.
- Talvez seja melhor a senhora voltar para casa e descansar um pouco, o cansaço às vezes faz-nos confundir as coisas.
 Atarantada com estas palavras virou as costas ao homem e apressadamente começou a subir a rua sem saber que fazer nem pensar, um arrepio agradável percorreu-a sentia ainda a doçura do beijo, no entanto ficou com a firme convicção de não mais voltar àquele local. O telemóvel tocou, era ele, atendeu e a voz soou pausadamente.
- Não te preocupes, voltaremos a encontra-nos. – E desligou
Dentro do estabelecimento, em semi-escuridão, o cão Blinde e a outra personagem o empregado, que sussurrando para não haver a mais pequena hipótese de ser escutado do exterior.
- Não o compreendo como é que o senhor que é cego convida esta mulher para um encontro, se não a pode nunca conhecer nem sequer apreciar a sua beleza.
- Está enganado eu vejo para além do exterior, voltaremos a encontrar-nos e ela me descobrirá integralmente como eu a descobri a ela. Tome, o preço que combinamos para abrir hoje..
Disse-lhe entregando um envelope que o homem nem conferiu.
- Blinde – chamou dirigindo-se ao cão, enquanto pegava na bengala branca e colocava a trela na coleira do pescoço do cão.
- Vamos, saímos pela porta dos fundos.  
Quando se dirigia para a porta dos fundos com o cão pela trela, parou, voltou-se para trás, e perante o espanto do velho empregado foi dizendo.
- Quem lhe disse que eu que era cego?
O velhote olhou para ele ainda mais espantado e insistiu.
- Mas é cego ou não?
Com um sorriso enigmático nos lábios, tocou com a bengala no cão este recomeçou a andar, e saiu sem mais palavras.



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