quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

PÁSSARO FERIDO

A FABULOSA VIDA DE MATILDE
PÁSSARO FERIDO
Nas suas deambulações pelas vizinhanças, umas mais próximas, outras mais longínquas, Matilde deparou com uma casa antiga e já um pouco degradada, que sabia ocupada por um casal já idoso, a sua sempre presente curiosidade levava-a a observar bem de perto toda a vizinhança. E este casal era bem simpático e por isso eram sempre boas as conversas que tinha com eles.
A senhora estava como de costume a tratar do jardim em frente da casa o marido encontrava-se nas traseiras, pois já tinha alguma dificuldade de locomoção, sentava-se durante horas a olhar para os campos matando a saudade do tempo em que trabalhar a terra mais que um modo de vida significava para ele uma forma amorosa de criar vida.
Ao reparar na sua presença a senhora, Ana assim se chamava, cumprimentou-a:
- Olá Matilde, andas a passear?- sem a deixar responder continuou- Gosto muito de te ver por aqui, é tão bom que gente nova repare em nós, não queres entrar? Dar umas palavras ao meu marido, ele era muito amigo da tua mãe, a Luísa, agora coitado passa a vida parado a olhar para as terras abandonadas, talvez recordando o tempo em que para ele elas não tinham segredos.
-Matilde acedeu ao pedido, e foi ao encontro do idoso, que de olhar parado ausente nem sequer notou a sua aproximação. Despertou apenas quando ouviu a esposa quase gritar.
- Está aqui a Matilde, a filha da Luísa. – e virando-se para Matilde: -Ele ouve mal é preciso falar alto. Estás a ouvir? É a filha da Luísa.
Ao voltar a ouvir o nome Luísa o senhor João ficou alerta e murmurou:
- Olá Luísa, o nosso passarinho continua a voar, eu sei vejo-o muitas vezes.
Matilde ficou confusa, nada sabendo da conversa do senhor João, sabia que ele a estava a tratar pelo nome da mãe. Ficou com pena e sem saber que dizer. A medo alinhavou algumas palavras.
-O senhor João está confundido, eu sou a Matilde a minha mãe é que se chama Luísa, a história do passarinho já deve ter acontecido há muito tempo.
- Os olhos do idoso encheram-se de brilho, endireitou-se com energia na cadeira, a sua face ganhou cor, encarou Matilde de frente e com um tom de voz forte e emotivo pronunciou:
- Eu vivo em todo o tempo, o tempo dos sonhos, aqui não há passado nem presente nem futuro apenas o que eu vejo e sinto. O passarinho está vivo, porque Luísa, tu o ajudaste a salvar.
Como se tivesse de uma só vez descarregado toda a sua energia, voltou à sua posição inicial, não pronunciando mais qualquer palavra.
Apesar de todas as tentativas da esposa e de Matilde o senhor João continuou ausente. Matilde esteve ainda algum tempo com o casal, como se aproximava a hora de jantar regressou a casa.
Adormeceu a ouvir a voz do idoso, aos seus ouvidos soavam as palavras:
- “ Eu vivo no tempo dos sonhos.”
E rapidamente se sentiu uma ave no céu, voava, voava. No entanto era uma ave muito peculiar, um pintassilgo, por natureza uma ave de voo rasteiro, voava naquele momento a uma altura que lhe permitia sobrevoar a neblina que cobria os campos, deleitava-se no voo, fechava as asas e descia a elevada velocidade em direcção à neblina, logo que se aproximava abria de novo as asas sofria um choque no corpo e o voo travava abruptamente, voltando a elevar-se às alturas, o seu voo era como um bailado que do solo não podia ser apreciado, devido à bruma, mas que era vivido intensamente. Sentia que tinha nascido diferente do resto do seu bando, solitária e sempre em busca de sensações que lhe estavam vedadas, pela sua natureza de ave de voos rasteiros.
Voar alto e descer na mais alucinante das velocidades, significava o prazer, a liberdade e a felicidade absoluta.  
A sedução de entrar na neblina e sentir no corpo a sua frescura e a suavidade da seda, exerceria nela um fascínio que a hipnotizava e a fazia esquecer os perigos que a neblina escondia.
Numa descida mais arrojada, inebriada pelo êxtase provocado pelo voo, esqueceu toda a prudência, descendo à mais alta velocidade que conseguia. Cega pelo nevoeiro e pelo prazer o seu corpo chocou contra um obstáculo, para ela imprevisível, caindo inanimada no chão.
Naquela manhã de fim de Inverno, junto ao seu pombal que ficava no fundo do jardim, o Sr. João ia tratando das suas pombas, junto a ele a jovem Luísa observava curiosa, fazendo uma multidão de perguntas que ele respondia pacientemente. O sr. João era um homem maduro, casado com a Dona Ana, não tinham filhos e para ele a mulher, as terras e as suas pombas eram tudo na sua vida. Luísa sabia disso, por isso admirava-se que muitas vezes ele mantivesse as pombas fechadas no pombal, como era o caso dessa manhã. Com a liberdade que a sua idade permitia perguntou-lhe.
-Sr. João, o sr. gosta tanto das suas pombas e de todos os pássaros em geral, porque é que não as deixa voar, como por certo elas gostariam?
- Sabes Luísa gosto muito de pássaros e muito das minhas pombas, as minhas pombas são aves domésticas e eu preciso de protege-las de alguns perigos, hoje está muito nevoeiro o que representa um perigo para todas as aves, as que vivem na natureza quase sempre se conseguem defender, mas as pombas não, se eu as solta-se agora elas fariam um voo demorado mas ao regressar o mais certo era desorientarem-se ou pior chocarem com algum dos muitos fios eléctricos ou telefónicos que passam por aqui perto.
Quando o sr. João se preparava para continuar a sua explicação, com um baque uma pequena ave vinda do céu caiu aos pés de Luísa, que aflita pegou nela e sem conter uma lágrima, meio chorosa disse:
- Está morta, sr. João – não conseguindo conter o choro – Morreu sr. João!
O sr. João pegou na ave com ternura, encostou-a à face, levantou levemente as suas penas, os dedos acariciaram suavemente o seu corpo, entregou a ave a Luísa enquanto ia dizendo:
- Não, ainda está quente, não está morta, está apenas atordoada, precisa de continuar com calor aconchega-a bem a ti. É uma bela ave, um pintassilgo, ou melhor uma pintassilga.
Luísa pegou na ave com cuidado, instintivamente levantou a camisola que trazia e colocou a ave bem junto do seu coração, ao ver isso o sr. João sorriu e as palavras saíram-lhe com emoção:
- A ave viverá, vais ver.
Durante longos minutos o coração de Luísa palpitava na espera, enquanto o calor do seu corpo se transmita à ave, as suas mãos aconchegavam a camisola com ternura e delicadeza, começou a sentir um formigueiro no peito, ficou com os sentidos todos alerta, virou-se para o Sr. João e gritou.
- Sr. João, sr. João, o pássaro está a mexer-se, ele está vivo! – Continuou ofegante.
Cuidadosamente retirou a ave do seio e viu como ela se tentava soltar, virou-se para o Sr. João:
- Que faço, que fazemos, a esta ave tão bonita?
Este olhou para o céu, notando que o sol já tinha rompido a bruma, e o dia se apresentava lindo e claro, reparou num par de pintassilgos que soltavam um canto triste e aflito, voltou o olhar para Luísa e para a ave, enquanto dizia com visível afecto na voz:
- Solto-a Luísa, no alto alguém espera por ela, fizeste o que tinhas a fazer, a tua bondade a salvou.
No calor confortável da cama Matilde mexia os braços de forma bem estranha, Luísa a mãe que entrou no quarto para a despertar, tocou-lhe amorosamente no rosto, enquanto sussurrava:
- Que tens Matilde, algum pesadelo? Sossega, eu estou aqui.
Matilde abriu os olhos e entre espantada e sonhadora, murmurou para a mãe:
- Lembras-te daquela ave que tu salvaste?
A mãe sem perceber a razão da pergunta e pensado um pouco:
- Sim, lembro-me isso vai há tanto tempo, porquê?

- Essa ave, um pintassilgo, era eu. 


                                                                                                                Herminio 

4 comentários:

  1. Olá, Hermínio
    Desculpa invadir o teu espaço...
    Estive no blog do nosso amigo Miguel Azarati para ver teu endereço, pois ele pediu-me para visitar alguns de seus amigos (entre eles estás tu) para levar um abraço de sua parte. Está entregue :)
    Ele está afastado, temporariamente e sem data para regresso, por vários motivos; quanto a mim o mais sério é a saúde. Ele não está nada bem, ainda que o não queira admitir.
    Falo com ele muitas vezes por telefone. O Miguel é para mim um irmão mais novo mas, exactamente por isso, só faz o que quer – nada de seguir os meus conselhos.

    Já que aqui estou vou fazer-me tua seguidora, e voltarei mais vezes, com mais tempo.
    Entretanto, aproveitei para ler este conto do pássaro, de que gostei imenso.

    Votos de bom Domingo
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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    1. Olá boa tarde, querida amiga todas as visitas são bem-vindas este é um espaço de hospitalidade, a amizade habita aqui.
      Lamento os problemas de saúde do Miguel para o que desejo uma rápida normalização. Para ele um abraço muito fraterno, meu e da Diana. Para si um beijo de amizade também de ambos.Agradeço as simpáticas palavras são um estimulo para continuar. Obrigado. Bjs

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  2. Gostei e sorri com o texto ; )
    Está muito bonito.

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    1. Obrigado pelas palavras e pelo sorriso, é um motivo de alegria para nós. Abraço

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