quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Mendigo



Transeunte 
Mendigo 
Jovem 1
Jovem 2

Manhã ainda cedo e com pouca gente na rua característica de uma terra do interior, um homem caminhava penosamente pela Praça daquela Vila, pelo aspecto era um Mendigo, o casaco velho e bastante gasto, um chapéu amarfanhado, a camisa com ar de não ter sido lavada há muito tempo, umas botas gastas e maltratadas, parecia que tinha por objetivo atingir um dos bancos existentes na margem do jardim, porém no pequeno degrau da margem do passeio que o ladeava as suas forças claudicaram e os seus pés tropeçam caindo fragorosamente no chão. 
Deitado no chão o Mendigo tentou desesperadamente chamar a atenção de um transeunte que passava, este com ar carregado de quem estava zangado com a vida, que o fazia parecer mais velho, fingindo não reparar e com ar apressado tenta mudar de direcção.
Mas os gritos e a gesticulação do Mendigo obrigaram-no a aproximar-se dele. Uma coisa lhe desagradou imediatamente, pelo sotaque era um destes estrangeiros que invadiram o país.
Mendigo- Por favor, ajude-me a levantar! 
Transeunte – Não me chateie, era o que faltava, tenho que ir entregar um currículo de emprego e não quero ir a cheirar a lixo que é o que o senhor é. Além disso não gosto mesmo nada de pessoas como o senhor. 
Mendigo – Apenas uma pequena ajuda, nada mais. 
Transeunte- Já lhe disse, não estou para ficar contaminado, afaste-se de mim, ainda apanho uma praga de piolhos, o senhor deve estar bem infestado, com esse aspecto miserável. 
Mendigo- Não me reconheces? 
Transeunte- Eu não conheço mendigos e muito menos da sua raça, se pudesse ajudava os pobrezinhos, mas ajudava apenas os que conheço bem, além disso não posso perder mais tempo tenho mesmo que ir entregar o currículo, pode ser que passe alguém da sua laia, desejo-lhe que tenha sorte e como diz a minha avó: “fique com Deus”. 
Mendigo- Dizes para eu ficar com Deus? Eu sou…
Transeunte- Essas palavras são treta da minha avó, fique com quem lhe apetecer. 
Cinicamente o transeunte procurou alguma coisa no bolso que atirou com desprezo, dizendo. 
Transeunte – Olhe entretenha-se com esta chiclete, enquanto não chega algum tão inundo como o senhor para o levantar, senão fica no chão que é como está bem! 
Mendigo – Não me conheces? – voltou a perguntar o mendigo.
O transeunte finge não ouvir, enquanto se afasta lentamente a pensar nas palavras do mendigo. 
Um grupo de jovens que caminhava do outro lado da rua, parou observando a parte final da cena e atravessando a rua apressados dirigiram-se ao mendigo, ajudando-o a levantar-se e a encaminha-lo para o banco do jardim. Um dos jovens fixando o mendigo bem nos olhos sentiu-se perturbado e quase em sussurro diz-lhe:
Jovem1 – É estranho caro amigo, o seu rosto parece-me familiar, embora o seu aspecto seja deplorável, acho que está a precisar de uma refeição quente, estamos num acampamento de férias quer vir até lá e comer alguma coisa connosco?
- Ao ouvir isto o transeunte pára, vai voltando para junto do mendigo enquanto pensa.
Transeunte – Que raio se esta a passar comigo? O que é que este mendigo, me quer dizer, ao perguntar-me, se não o conheço?
Jovem 2 – Então que diz aceita o nosso convite?- pergunta um segundo jovem ao mendigo.
Mendigo- Claro que vou aceitar, mas a minha missão aqui era, e é outra. Tenho outro acampamento.- responde o mendigo com voz baixa mas doce embora carregada de um sotaque estranho.
Jovem 1- Está noutro acampamento? É refugiado?
O mendigo manteve-se em silêncio nada respondendo, ignorando as observações.
Transeunte- Dirigindo-se aos jovens: Eu também já participei em acampamentos de férias, há muitos anos, agora estou lixado e a vida não me permite, os meus pais divorciaram-se e a minha mãe, que é professora, foi colocada neste fim de mundo e viemos viver para cá, desisti dos estudos quero mas é arranjar trabalho! 
Jovem 2- Tu és da nossa idade, por aqui há de certeza gente fixe, porque não voltas à escola? Ficavas a conhecer novos amigos e era bom para ti. 
Jovem 1- Se quiseres podemos dar-te umas dicas, estamos a terminar o acampamento e ficamos a conhecer algumas coisas desta terra. Mas agora vamos ajudar este senhor. 
Transeunte- Quem sabe, pode ser, mas de facto estou baralhado com este vagabundo, vejo nele alguma coisa de estranho que não sei explicar. 
Jovem 2- Não queres vir connosco até ao nosso acampamento? Levamos este senhor, partilhamos com ele uma refeição e entretanto passas um tempo bom.
Jovem 1- Virando-se para o mendigo: Venha connosco, comerá alguma coisa e tentaremos ajudar no que for possível. 
Transeunte- Afinal tanto faz entregar hoje como amanhã, esta história do currículo, também já estou por tudo a vida só me corre mal, mas aceito o convite, e aproveito para tentar perceber quem é o maltrapilho. 
Jovem 2– Não trates assim o senhor! Qualquer de nós, podia estar na situação em que ele está. 
Transeunte- Isto é só gente que não quer fazer nada, já não me comovem muito. 
Jovem1- Repara que temos que ser tolerantes, embora isso pareça coisa de velhos, sabes que só partilhando o bem deixaremos o mundo melhor e além do mais, este nosso amigo, tem de facto qualquer coisa que não consigo explicar. 
Transeunte- Confesso que me estou a exceder um bocado, mas às vezes a vida torna-nos azedos. Irei com vocês! Sempre será diferente dos outros dias. Por aqui pouca gente me conhece, vivo aqui há pouco tempo, e ainda não consegui relacionar-me. 
Mendigo-Mas eu conheço-te João, estou aqui para despertar em ti, o que deixaste adormecer. 
Transeunte- Espantado: Como sabe o meu nome? 
Subitamente ouve-se a sirene de uma ambulância em emergência, a atenção de todos volta-se por uns segundos para a passagem da ambulância e quando voltam a olhar para o mendigo já este tinha desaparecido, no chão uma folha de papel com algo escrito. Um dos jovens pega na carta que dizia em letras maiúsculas “ PARA O JOÃO” . 
Jovem2- O mendigo desapareceu, ele parecia tão débil como desapareceu assim onde se terá metido? Deixou esta carta é para ti João. 
João - lendo a carta: Este não é o meu acampamento, no meu acampamento nada me falta, volto para lá onde um dia nos encontraremos. E lembra-te, João, Eu conheço-te, há muitos anos, ainda não existias e já sabia de ti, por isso sei que tens dentro de ti sementes do bem que deixaste de utilizar e que eu vim despertar. Recorda-te que eu estou entre aqueles que mais precisam, os pobres dos mais pobres. Disseste-me para ficar com Deus. Eu te respondi: “Ficar com Deus?... Eu Sou.”

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