sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O PAÍS DA MEDIDA DA AMIZADE



A FABULOSA VIDA DE MATILDE
 A AMIZADE
Matilde estava só em casa, sentada junto a uma mesa onde estava instalado um computador ligado à NET e onde tentava matar o aborrecimento daqueles dias, os seus pensamentos passavam com lentidão mas estranhamente abertos à novidade, queria um tempo diferente, sentia enfado pelo tempo que vivia entediante e desinteressante, o dia quente de Verão a modorra que ela sentia convidavam à inactividade. Subitamente, no entanto, o som de passos no chão rasgando o silêncio da casa, colocaram-na em estado e alerta, e sentiu algum medo, àquela hora não era normal alguém entrar dentro de casa sem aviso, os passos continuaram, sem grande convicção gritou:
- Mãe, és tu? – o silêncio manteve-se, voltou a falar- Quem está aí?
Não obtendo resposta, Matilde apesar do medo cada vez mais intenso, levantou-se para tentar identificar a origem dos passos, tentando dominar-se, ao mesmo tempo começava a pensar em gritar sentindo no entanto a voz presa na garganta. A casa não era grande em breve (?), fosse, quem quer que fosse, ou o que fosse, estaria junto dela muito rapidamente. Os passos continuavam a ouvir-se, sempre à mesma cadência e mesma altura, porém, era como se esse alguém estivesse a caminhar sem se deslocar, ficou atenta, apurou os ouvidos, escutou com o máximo de atenção e paradoxalmente com o mesmo ritmo e o mesmo volume o som parecia-lhe vir de todos os lados da casa. Entrou em pânico, ficou paralisada não conseguindo articular nenhum som e muito menos gritar.  Tentou controlar a respiração, durante uns segundos pensou no que fazer, repentinamente começou a correr em direcção à porta, tropeçou num dos tapetes,  desequilibrou-se, bateu com a cabeça no canto de um móvel e caiu no chão, inanimada.  
Um silêncio suave começou a fazer-se sentir em toda a casa, o corpo de Matilde mantinha-se imóvel, estendido no chão. O tempo passava e nada parecia mudar.
Numa observação mais cuidada notava-se que Matilde começava a mexer-se, ao princípio  imperceptivalmente, finalmente os movimentos cada vez mais visíveis, mas no seu rosto começou a notar-se apreensão e espanto, o local onde se encontrava nada tinha a ver com a sua casa. Estava deitada num relvado bem tratado e à sombra de uma frondosa árvore, a maciez da relva e os tons de cor provenientes das mais variadas plantas visíveis à sua volta, conjugado com suaves e agradáveis aromas trazidos por uma fresca brisa, fizeram-na pensar se não estaria no paraíso, lentamente tentou levantar-se e notou que o podia fazer sem grande esforço, já de pé notou que se sentia bem, no entanto uma pequena dor de cabeça lembrou-lhe a queda, ao levar a mão ao ponto onde se acentuava a dor de cabeça, constatou a existência de um hematoma, com uma dimensão que a assustou, um grande galo, diria a sua mãe.
Apeteceu-lhe chorar, só, num local desconhecido a que  tinha ido parar de forma inexplicável, reuniu toda a energia que foi capaz e gritou, num misto de pedido de socorro e de choro incontrolável, um eco foi repetindo os seus apelos sem os resultados que ela desesperadamente procurava. Sentou-se na relva e chorou convulsivamente. Debruçada sobre o peito e com as mãos no rosto, deu largas ao seu medo e desespero.
Entregue aos seus sentimentos, não notou que mansamente alguém se ia aproximando, o macio tapete da relva o tamanho e a estrutura física de quem se aproximava, facilitava essa aproximação furtiva. Quem se aproximava não aparentava ter intenções agressivas, o seu aspecto era uma mistura entre um duende e um ser humano, sendo impossível de identificar com rigor, pois em cada instante parecia mudar de forma, mantendo apenas a altura, as próprias cores e formas da roupa que trazia vestida, variavam segundo o seu aspecto e tamanho, ora apresentava cores vivas e variadas, como apresentava uma roupa e um aspecto em tudo semelhante a Matilde.
Era impossível acompanhar e compreender o que estava a acontecer.
Enquanto Matilde  continuava a dar largas ao seu desespero, essa forma hibrida e variável aproximou-se e tocou levemente nas costas de Matilde, que perante a inesperada surpresa, deu um salto brusco abriu a boca mas foi incapaz de articular qualquer som. 
De pé notou que esse ser era bem pequeno, mas incrivelmente parecido com ela, e com cadência regular continuava a mudar de forma, mantendo sempre no entanto na face uma incrível semelhança com ela.
O ar pacífico e cheio de ternura com que os olhos a miravam, acalmaram-na e o medo esfumou-se do seu espírito.
- Estou aqui, nunca estive noutro sítio, porque vivo em ti. Ou melhor sou a medida da tua capacidade de dares e conquistares amizade, sempre que confiares sem reservas em alguém, eu crescerei que atingirei a plenitude e será máxima a minha dimensão, sinal de que as tuas amizades merecem de ti a tua entrega total, estou aqui para te alertar se porventura os teus caminhos ou decisões não forem as mais justas. Mas para me ouvires tens que te escutar a ti. Não me vais encontrar nem te vais encontrar a ti, se não olhares bem para dentro do teu ser. Se olhares muito de perto verá apenas o exterior, descobrirás que quem vê de muito perto quase sempre vê o incerto, fica pela aparência, e se traçar o seu caminho pela aparência muitas vezes errará. Tenta olhar para o interior das coisas e de ti, e descobrirás o mundo, em cada minúscula parte, do visível e do invisível, pois em cada pequena parte está presente, todo o cosmos.
Ainda não te disse como me chamo. Como vês, sou como que uma tua gémea, se quiseres chama-me de “A Gémea.”
Matilde deixou-se como que embalar pelas palavras que ouvia, cuja origem pareciam vir de dentro de si embora a presença dessa espécie de gémea, lhe lembra-se que não seria assim, gradualmente foi serenando, endireitou o corpo totalmente o medo já tinha desaparecido e uma intensa serenidade invadiu-a, Começou a pensar que vivia uma das suas muitas fantasias, teria vergonha de gritar e chamar alguém, tinha a percepção de que não corria perigo, cheia de coragem com voz tão calma quanto podia disse:
- Mas afinal quem és tu? O que faço aqui, que local é este?
- Começo pelo local, este é o mundo da Medida da AMIZADE, em mim se reflete o valor das amizades que conquistaste. Explicar-te-ei enquanto te mostrar todo este mundo. Perguntaste o que fazes aqui: dentro de ti tens um coração aberto ao sonho e aberto à partilha de amizade sincera, só quem tem esse espírito encontra a chave de entrada neste mundo, e assim se abrirá a inteligência e o coração para valorizar o que é importante valorizar, daqui não sairás outra, mas mais capaz de traçares o teu próprio caminho, tomar-te-ão sempre como alguém diferente e serás alvo de alguma incompreensão. Queres conhecer este mundo para compreenderes quem te rodeia? Não conhecerás o futuro mas o retrato do presente. E a tua ligação a múltiplos acontecimentos de múltiplas pessoas. Aceitas fazer essa viagem?
- Que me acontecerá se recusar essa proposta?
- Nada, ficarás para sempre mais pobre e viverás na dúvida se essa decisão foi a certa. Nunca saberás a medida da amizade que os teus amigos te oferecem, nem serás capaz de avaliar se és justa para com essa amizade.
Matilde pensou uns segundos e resoluta:
- Aceito, quando começamos?
- Começamos já, mas primeiro vamos tratar da tua cabeça, colocar-te-ei este selo que é curativo e sempre que até aqui viajares esse será o sinal, que tens o privilégio de viajar neste mundo, para quem é capaz de dar amizade sem medida.
Estou em ti e sei que tens muitos sonhos, sei que o mundo precisa dos teus sonhos, não te substituirei nem nunca estarei presente para fazer por ti aquilo que tu podes e deves fazer sozinha, mas enquanto tu quiseres apenas para te animar, ou melhor para saberes que não estas só, eu estarei contigo. Em cada dia avaliaras se o teu caminho é o certo, mas sempre escolhido por ti, e que está viagem, que tal como a luz faz realçar as formas, venha a contribuir de alguma maneira para fazer brilhar em ti, tudo aquilo que tu tens de bom. Nessa altura tu serás de facto a Matilde, com sonhos não totalmente realizados, mas sempre em busca da tua realização plena. E assim contribuirás para mudar o mundo.
- Como é que posso mudar o mundo se vejo nele tanta maldade e traição, e se muitas das coisas que eu sinto, não passam de hipocrisias e mentiras?
- É bom que muitas coisas de mal sejam mentiras, é a prova que o mundo não está tão mau como parece, se todas essas maldades fossem verdade, o mundo seria um inferno.  
Iniciemos então a viagem, será como flutuar através do tempo e não do espaço, em frente temos o futuro, o que vês Matilde?
- Pessoas que eu conheço, umas com nitidez, outras quase sombras e outras que eu nunca vi, mas bem nítidas.
- Não verás mais do que isso do futuro, pois o futuro é aquilo que tu construíres cada dia no presente. As que vês com nitidez continuarão a fazer parte da tua vida, dependendo apenas de ti. As que parecem sombras são as que se afastarão ou que tu afastarás, se reparares notarás que entre estas, algumas estão em posição de quem se lamenta, ou por se terem afastado de ti, ou por não terem conquistado verdadeiramente a tua amizade. Os novos são aqueles que a vida te trará.
Viajaremos agora pelo tempo presente, não precisamos de mudar de direcção mas apenas de estado de alma. Que vês agora Matilde?
Matilde fixou o olhar num espaço que lhe parecia caótico e simultaneamente harmonioso, diante dela muitos grupos de pessoas, umas com olhar feliz outras de olhar triste, algumas bem nítidas outras nem tanto, muitas de costas impossíveis de identificar, muitas que eram sombras mas fixamente voltadas para ela, não as conseguia identificar, e caso curioso quando o seu olhar se fixava nelas a sua Gémea, tornava-se mais pequena e menos visível, quando porém se voltava para as que reconhecia nitidamente a Gémea atingia a plenitude da sua estatura. Estranho ainda era o que acontecia quando o seu olhar pousava nas pessoas com ar triste, e que ela reconhecia muito bem, nem eram muitas, mas estavam entre elas alguns dos seus maiores amigos. E neste caso a Gémea mantendo a mesma estatura e rosto parecido com o seu, transformava-se num duende com olhar perdido e triste. Matilde voltou-se para a Gémea observando-lhe:
- Não compreendo as diversas formas que vejo à minha frente, nem as tuas transformações.
A Gémea fez uns segundos de silêncio, e enquanto o seu corpo ia passando por múltiplas formas, fixou longamente os olhos em Matilde, como se olha-se bem para dentro da sua mente e perguntou:
- Queres mesmo que te explique, mesmo que te cause alguma dor?
Matilde já não se sentia capaz de recusar nada, estava disposta a aceitar tudo. E sem hesitação respondeu.
- Sim, quero perceber se for capaz, quero compreender aquilo que os meus olhos veem.
- Não são os teus olhos é o teu espírito. O grupo das pessoas felizes, são os teus amigos a quem dás e recebes amizade, o grupo das pessoas que estão de costas para ti, são as pessoas com quem te cruzaste na vida, mas com as quais nunca o afecto e a amizade aconteceu nem essas pessoas desejam, o grupo de pessoas que estão de rosto fixo em ti, é o grupo de pessoas com quem te cruzaste te admiram e que desejariam a tua amizade, mas tu nunca reparaste na sua existência. Finalmente o grupo da pessoas tristes, são aquelas que te têm verdadeira amizade e que de alguma maneira te feriram, e que precisam da tua amizade.
A Gémea acabou de falar, os olhos de Matilde estavam ligeiramente humedecidos. Soprava uma doce e calma brisa, ambas se mantiveram caladas. A Gémea colocou o seu braço nos ombros de Matilde.
A calma presente em todo o espaço, era propícia ao recolhimento, um sentimento de paz percorreu toda a alma de Matilde, suavemente e pesando bem as palavras. Voltou os olhos para a Gémea enquanto ia dizendo;
- Que valor tem a amizade, que não é capaz de compreender e perdoar?
A Gémea como que atingida por uma energia extraordinária, atingindo uma altura absolutamente descomunal, provocando em Matilde um espanto que ela jamais tinha sentido. Ao longe uma voz chegou com doçura a Matilde:
- É hora de regressares, compreendes a Amizade, a Amizade que dás tem o tamanho da tua alma.
 E uma mão como que vinda do espaço tocou-lhe na cabeça e Matilde adormeceu.
A mãe ao chegar a casa achou estranhou tanto silêncio, nem música no computador nem televisão ligada, pensou:
- Decerto saiu. - Entrou com cuidado dirigiu-se ao quarto onde Matilde costumava estar, e reparou que ela tinha adormecido, sobre o teclado do computador, com cuidado e muita ternura, aproximou-se dela e reparou num penso um pouco estranho que Matilde tinha na testa, um pouco assustada acordou-a
- Então Matilde que se passa? Que tens aí na cabeça?
- É o sinal para viajar para o país da Medida da Amizade.- Disse sem reflectir,  perante o espanto da mãe. 


                                                                                             Herminio Silva 

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