terça-feira, 24 de maio de 2016

O HOMEM QUE APRENDEU A LER VERSOS..

A FABULOSA VIDA DE MATILDE
                                 O HOMEM QUE APRENDEU A LER VERSOS
Matilde encontrava-se, contra sua vontade e arrastada pela mãe, num consultório de um velho médico, sobre quem se constava, que sabia ler sonhos, sendo também capaz de curar quem deles padecia. Matilde bem tentou resistir, pois vivia bem com o seu sonhar, sentia-se bem a navegar nesses mares estranhos. Mas agora estava com a mãe no consultório, reparou que por detrás de um pequeno balcão se encontrava uma empregada, já com alguma idade e com um rosto seco e duro, via-se que não era uma pessoa feliz.
Tinham chegado bem cedo, o sono e o tédio ou o tédio e o sono apoderaram-se dela, recostou-se no espaldar da cadeira fechou os olhos. E manteve-se em silêncio, durante um tempo que lhe pareceu bem longo, sentiu um ritmo cadenciado de passos no piso do consultório, mas nem assim abriu os olhos. Uma mão bateu-lhe no ombro, enquanto lhe soava uma voz aos ouvidos:
- A menina é que é a Matilde?
Abriu os olhos, reparou espantada numa negra bem gorda, idosa e sorridente, que repetiu:
- A menina é a Matilde?
Ficou atarantada, olhou para o lado procurando o amparo da mãe, reparou que a mãe não se encontrava a seu lado, não compreendeu porque é que a mãe tinha saído sem lhe dizer nada. Gaguejando com a atrapalhação foi dizendo:
- Sim sou a Matilde, a minha mãe deve estar a chegar. - Tomou fôlego e acrescentou de seguida: - Mas a senhora não estava aqui há pouco, a senhora não trabalha aqui.
- Menina, eu moro no sítio dos sonhos, vivo em todo o lado onde ainda se sonha. A Menina sonha, por isso vivo em si. Além disso o meu Menino ajuda o senhor doutor, o meu Menino escreve sonhos. - Depois tomando ares de funcionária- Tenho que fazer umas perguntas antes do Sr. Doutor.
A negra foi perguntando, reperguntado, Matilde foi respondendo com paciência, e com a esperança que entretanto a mãe chegasse, aflita pela demora da mãe, e intrigada porque a negra nada apontava, encheu-se de coragem e atirou.
- A senhora perguntou tantas coisas e não apontou nada?
- Mas eu não sei escrever em papel, escrevo na alma, agora o Sr. Doutor já tem tudo que precisa saber. -
Respondeu a negra.
Matilde pasmou com a resposta e a mãe sem chegar, ora ela também não era nenhuma criança, iria sozinha à consulta.
A negra dirigiu-se à porta do gabinete médico e disse bem alto:
- Doutor a menina está pronta! - depois virando-se para Matilde - Pode entrar.
Resoluta, Matilde entrou no gabinete do médico, que como lhe tinham dito era já bastante velho e parecia entretido a ler uns cadernos com ar envelhecido e numa letra bem bonita, muito mais bonita do que a dela. Ao entrar balbuciou:
- Boa tarde. 
O médico levantou lentamente a cabeça, observou-a, sorriu levemente, e com um tom de voz suave e cheio de ternura:
- Bem-vinda Matilde, sei o que te traz aqui: sabes sonhar, eu também desde que aprendi a ler versos. Aprendi a ler com este menino há muitos anos.
A sua mão direita estendeu-se, como a apontar para alguém, que para Matilde não era visível, embora sentisse a aura de uma presença misteriosa. O médico estendendo a mão esquerda continuou:
- Antes de aprender a ler versos eu era como esta savana, em plena época seca.
Aos olhos de Matilde apareceu de repente um imenso espaço árido e desértico com raros e espaçados arbustos secos. O médico voltou a estender a mão direita e continuou:
- Os versos deste menino, foram como gotas de água fresca na minha vida, mudando-a e tornando-a assim.
Perante o espanto de Matilde onde antes estava um deserto apareceu um imenso espaço verdejante e aprazível. O médico não se deteve, voltando à palavra:
- Ele ensinou-me que na vida existem estantes e canteiros, nas estantes estão as letras, sílabas e palavras, nos canteiros sentimentos e emoções. É com isso que se fabricam sonhos e versos.
Respirou um pouco e recomeçou:
- Quando o Menino descobre um canteiro novo, vai em busca de novas palavras, buscando letra a letra como quem reconstrói uma rosa, pétala a pétala, para fazer um verso vai dentro da sua alma à estante das palavras, escolhendo-as como florista escolhe flores, dando-lhes harmonia e vida. Foi assim que eu aprendi a ler versos. Pela alma deste menino. E sei que tu me compreendes, pois se estás aqui é porque descobriste o mundo dos sonhos.
Voltando a estender a mão direita indicando a não presença de alguém, nessa sensível ausência, Matilde vislumbrou alguém debruçado a escrever num caderno semelhante ao que o médico folheava.
Subitamente, com uma energia inaudita, o médico levantou-se abriu os braços e apontando uma para cada lado gritou:
-CANTEIROS ESTANTES, CANTEIROS ESTANTES.
Matilde ficou como que magnetizada, os seus olhos olhavam para a esquerda e para a direita, o espaço do consultório era infinito, de um lado uma imensa fila de estantes de altura até ao firmamento e o comprimento a perder de vista, do outro numa planície que se estendia para lá do horizonte milhares e milhares de canteiros com mil formas e cores.
Atarantada, percorrida por um impulso irracional incapaz de deter, levantou-se olhou de frente o médico abriu os braços e gritou.
- CANTEIROS ESTANTES, CANTEIROS ESTANTES.
 Todo o seu ser, pertencia àquele mundo mágico dos sonhos e dos versos, o seu mundo.
No seu espírito o espanto instalava-se, extravasava tudo o que até então tinha vivido, muda e sem palavras, tinha perdido a capacidade de reagir, mas lentamente uma pergunta lhe tomou os pensamentos: - Como é que seria a reação da mãe? - Como respondendo aos seus pensamentos ouviu a voz da mãe e sentiu um forte puxão num braço.
- Matilde que estas para aí a dizer? Que se passa contigo?
Embasbacada, aturdida abriu bem os olhos, a mesma empregada magra e mal-encarada, a mãe de pé ao seu lado agarrada ao seu braço, e ela sem saber que dizer. Salvou-a a voz estridente e esganiçada da empregada que guinchou:
- Menina Matilde ao consultório.
A mãe impaciente e nervosa, arrastou-a para o gabinete do médico.
- Que se passou? – pensou- Será que sonhei outra vez?
Entrou no consultório, o mesmo velho médico a ler o mesmo caderno amarelecido, que levantou os olhos da mesma forma, e perante o espanto da mãe, ergueu-se da cadeira abriu os braços e gritou:

- CANTEIROS ESTANTES, CANTEIROS ESTANTES.  

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