sexta-feira, 5 de agosto de 2016

CHOQUE

                     
                                          CHOQUE

Sofia, responsável pela cozinha e cantina daquela escola, todos os dias desde de há alguns meses à hora de almoço se encontra junto ao balcão de distribuição das refeições, os estudantes como sempre chegam aos magotes fazendo a algazarra do costume. No entanto há nela um silencioso desespero. Trinta e cinco anos, uma confortável vida familiar, marido, filho, situação económica razoável, tudo circunstâncias para uma vida feliz. Desde já há alguns meses, que sentimentos caóticos e absurdos habitam dentro dela.
Enquanto ela se debatia com as suas angústias, na televisão em rodapé passava uma notícia: PROFESSORA ACUSADA DE ASSEDIAR UM ALUNO.
Como se tivesse sido atravessada por um raio o seu coração bateu mais aceleradamente, e um sobressalto a percorreu. Não se conseguia libertar dos pensamentos confusos que a percorriam, tanto mais que se considerava bem racional e com capacidade de discernimento.
E o que sentia era tudo menos racional, na aparência sem explicação, em alguns momentos já tinha desistido de lutar contra esse sentimento que a levava ao desespero.
Lembrava-se bem da primeira vez, que verdadeiramente nunca existiu, mas que para ela lhe pareceu bem real.
Como acontecia frequentemente, sempre que estava presente na hora das refeições, costumava dar uma ronda pelas mesas, tentado perceber da aceitação do que tinha sido confeccionado e servido.
Naquele dia os seus olhos repousaram e cruzaram-se com os olhos de um aluno de uma forma intensa que a obrigaram a afastar-se abruptamente. Um sentimento de culpa a percorreu sem ela perceber bem a razão. Era uma patetice, afinal estava diante de praticamente uma criança quando muito um adolescente, mas quanto mais pensava nisso, mais obsessivamente a imagem do aluno a perseguia.
E a televisão a continuar a passar em rodapé: PROPESSORA ACUSADA DE ASSEDIAR UM ALUNO.
Nesse dia saiu mais tarde um pouco, conferiu com as funcionárias da cozinha os produtos existentes no armazém e nas câmaras frigoríficas.
Chegou ao carro ligou a rádio e a maldita notícia continuava: PROPESSORA ACUSADA DE ASSEDIAR UM ALUNO.
Estava a chover era Janeiro e àquela hora do dia, passava das 17.00, já se fazia noite. Mudou de sintonia e ouviu uma música de a romântica. Fechou por um pouco os olhos. Recostou-se no banco do carro e ficou um tempo embalada pela música que ia ouvindo, parecendo-lhe que não tinha mais fim, a chuva continuava a cair fazendo-a sentir sonolenta, não era capaz de dizer quanto tempo esteve assim.
Subitamente alguém bateu no vidro da porta do carro. Sobressaltada virou-se para ver quem era, espantou-se ao ficar olhos nos olhos com o aluno que lhe invadia os sentidos.
- Sente-se mal? – Perguntou ele.
-Não – Respondeu a medo- Adormeci com a música.
A chuva batia no pára-brisas com alguma intensidade, o rapaz estava encharcado, hesitante perguntou-lhe.
- Estás à chuva, não tens guarda-chuva?
- Não, e o autocarro da escola já partiu, o problema é que moro bem longe.
Com uma firmeza que ela própria não esperava disse-lhe:
-Vais ficar encharcado, ainda ficas doente, entra para o carro, eu levo-te a casa afinal não deve ser assim tão longe.
O rapaz hesitou mas as alternativas eram poucas, tinha-se distraído na biblioteca, no PC na sua ocupação preferida, a internet. Um furo pela falta de um professor, faltava ainda muito tempo para novo transporte escolar, e sabia que os pais ficariam preocupados se não chegasse à hora habitual por isso aproveitou.
Entrou, sentou-se, apesar de novo era bem alto, o coração de Sofia começou a bater mais rápido, sentiu-se ruborizar.
Com uma audácia que a surpreendeu colocou a mão em cima da perna do rapaz, dizendo:
- Estás mesmo muito molhado, diz-me onde moras, para eu te levar a casa. E já agora, como te chamas?
- Sou o André, moro junto ao rio, antes da ponte. Sou do 9º D, daqui a pouco faço 15 anos. Acrescentou como quem diz uma ladainha.
A mão hesitava em sair e foi deslizando pela perna cada vez mais audaciosamente, ele dava a sensação de estar incomodado, não percebia o que estava a acontecer. A idade de André martelou-lhe a cabeça, 15 anos!
Ela sentia o corpo dele quente apesar da ganga das calças estar encharcada, sabia-lhe a um quente ainda mais sensual. Inadvertidamente puxou o seu banco para trás, ficou com mais espaço, virou-se para ele e abruptamente puxou-o para si e beijou-o intensamente. O rapaz parecia perdido e atónito, sem saber como reagir, a língua de Sofia procurava a boca do jovem, este parecendo vencer a surpresa ofereceu a sua boca aceitando toda a paixão que Sofia transmitia.
A chuva continuava, a noite tinha chegado e este momento parecia não ter fim.
Subitamente alguém bateu no pára-brisas do carro, Sofia despertou da paixão de que estava tomada, assustou-se e espantada viu-se só.
Lá fora, uma noite clara de luar fazendo jus ao ditado popular, sobre o luar de Janeiro, estava o jovem que se dirigiu para a porta do carro que com ar preocupado, ficando espantado pelo que via foi dizendo:
-Perdi o transporte escolar e tenho que ir a pé para casa, reparei que a senhora parece não estar bem, como se lhe tinha dado alguma coisa, posso ajudar?
A saia subida na coxa, a blusa desapertada, incapaz de compreender o que se passava, Sofia sentiu que tinha enlouquecido, era um sonho antes ou agora? Sem saber o que dizer, com as palavras presas na garganta, balbuciou:
- Senti-me um pouco indisposta, mas já passou. – Maquinalmente ia compondo o vestuário.
Continuava desorientada e aturdida com a situação, sabendo do absurdo e sem sentido das suas palavras perguntou:
- Não choveu hoje? Como te chamas?
O jovem não compreendendo a razão das perguntas, olhou para ela perplexo, corando enquanto a via compor a roupa, acabou por dizer:
- Não, hoje estive sempre sol e frio, mas chuva não. Sou o André, vou fazer 15 anos.
O seu olhar não saía dos seios de Sofia, envergonhado fingiu olhar para a lua, dando-lhe tempo para ela se arranjar.
Sofia sem saber como reagir, não sabendo se vivia agora o sonho ou se o tinha vivido antes, a sensualidade ainda a percorria e a presença de André era para ela um misto de tentação e vergonha, pudor e audácia. Era adulta tinha obrigação de ser mais responsável, além de mais notou o constrangimento de André, sentindo-se obrigada a dizer:
- Senti-me mal mas já estou bem obrigada, pela tua atenção, se quiseres levo-te a casa até porque já é tarde e não me custa nada.
Em silêncio percorreram os cerca de dois quilómetros que separavam a escola da casa de André em poucos minutos.
Este indicou a casa, Sofia parou e despediu-se com um beijo provocador e, propositadamente, bem perto da boca dele.
Arrancou vagarosamente verificando pelo retrovisor que o jovem ia olhando para o carro enquanto se afastava.
À chegada a casa, naquele dia o marido que já lá se encontrava, vendo que ela vinha só, perguntou:
- Não trouxeste o João? Queres que o vá buscar?
A resposta dela foi repentina e sôfrega, mais em gestos que em palavras, beijou-o ardentemente, começou a despir-lhe a camisa e arrastou-o até ao quarto.
Enquanto revivia esses acontecimentos sentia que a figura de André permanecia cada vez mais dentro de si, no entanto tinha sido incapaz de se lhe dirigir, sentindo porém que ele a observava essa sensação lembrava-lhe, que os seus sentimentos eram sentimentos proibidos, porque era casada e porque se tratava de um menor.
E pensava, pensava no estratagema que tinha usado, numa última tentativa de um contacto com André, sentia o pulsar do coração, o telemóvel dizia-lhe que tinha resultado, uma curta mensagem: Gostava de falar consigo, André.
Dirigiu-se para o seu gabinete. E ao passar pelo quadro onde constavam as ementas semanais, olhou para uma folha A4 que mandara colocar com o seguinte aviso. “TODOS OS ALUNOS QUE TENHAM ALGUM REPARO A FAZER NAS EMENTAS DESTA CANTINA, CONTACTEM A RESPONSÁVEL PELO TELEMÓVEL… “ E o número do seu telemóvel pessoal.
Chamou a funcionária para lhe transmitir indicações, sentiu na voz toda a ansiedade do momento, pela sua cabeça passavam desejos incontidos, reparou no rosto espantado da funcionária enquanto lhe dizia.
- Um aluno contactou-me por isso enquanto o estiver a atender, não estou para ninguém.
Vestia a mesma blusa propositadamente, sentou-se, desapertou dois botões, cruzou as pernas subiu ligeiramente a saia e esperou.

De mão dada com uma colega de turma, André entrou na sala. E o mundo desabou sobre Sofia.    

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