segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

As Novas Camisas Negras


Saio à rua  num dia frio em pleno Dezembro, logo que ouço a porta fechar-se atrás de mim enterro as mãos nas algibeiras e dirijo-me para o café onde deixei a avó há uma hora antes. Da mínima distância entre o lar e o salão de chá sinto a cara gelar-me, embora o resto do corpo se mantenha envolto em quase toda a roupa que guardo no armário. 
Quando me abeirei do estabelecimento logo pude reparar no ajuntamento de senhoras que constituíam, ali sozinhas em todo o café,  a verdadeira máfia da região. Todos os dias à hora habitual, vão chegando e ocupando os seus respectivos lugares, podemos identifica-las pelo passo lento mas certo, pelos cabelos cinzentos e pela roupa preta, arrisco até a denomina-las de "as novas camisas negras". Sorriem ao verem-me chegar e ganham aspecto de avós carinhosas, fazem-me elogios e dão-me grandes atenções. Contudo, quando não estou, há conversas animadas sobre as suas vidas e a dos outros, competem afincadamente sobre quem tem as maiores e mais dolorosas doenças, partilham as mais recentes notícias da freguesia e mantêm-se sempre actualizadas. Se o sino bateu a avisar um falecimento, logo se pergunta ao primeiro que passar quem morreu e, assim, vão estando na primeira fila da informação local. Viver-se desta  forma é muito difícil! Há que cuidar da sua vida e zelar pela dos outros! Cada habitante merece o seu devido destaque na tertúlia, há que indicar sem discriminações o que está bem, o que está mal e o que simplesmente poderia ser evitado. Com toda a variedade de assuntos e tons de conversa estas senhoras divertem-me. A minha chegada é o sinal do encerramento da reunião, saímos e cada uma segue o seu rumo, tomo o braço esquerdo da minha avó e regressamos a casa juntamente com outra senhora que pouco se expressa, mas se despede sempre com um "até amanhã".  
Vejo no pequeno percurso o céu andrógino, azul claro com largas pinceladas cor-de-rosa, é belo na sua singeleza e ambiguidade e sempre diferente na sua eterna igualdade. Pudéssemos ser como ele que é gracioso, sem perder a novidade, em todo o tempo deixando as nuvens acaricia-lo lentamente. Tenho-lhe admiração e inveja, deixa-me saudades, pois com o tempo que vivemos só posso contempla-lo nas rápidas saídas de casa. 
E com estes pensamentos entramos na nossa habitação. Na sequência destas imagens relembro como a avó é popular na cidade. Cada pessoa que nos via na rua apressava-se a vir-nos cumprimentar e perguntar como passa a dona Maria, a cada uma conta a lengalenga das doenças, toda ela verdadeira e bem recente, são factos que não podem ser ocultados quando se é um jornal de notícias ambulante, mas isto nada me incomoda, até ajuda a passar o tempo, já que a noite é deveras serena, o dia tem de ser vivido na sua plenitude. 
No momento de agora, pôs-se ao comprido na cama, com todos os cobertores que temos por cima, ora alerta à recitação do rosário que passa na rádio ora a dormitar, porque chegando a uma certa idade a vida desenrola-se em volta de uma aprazível rotina de comer, dormir, orar e mal-dizer.

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