sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Rasto de Letras



Amansar o pêlo a um cão é mais fácil que escrever. Tenho chegado a essa conclusão após várias tentativas de encetar uma pequena prosa. Observar a vida que corre e guarda-la no fundo dos olhos é mais natural que capta-la e exagera-la em versos. Porém o nascer de uma flor, o cair de uma folha são detalhes ordinários mas que merecem todas as vezes um canto intenso e renascido.
E embora as minhas mãos escrevam torto, continuamente fui decalcando a realidade para o papel, todavia passar a escrito o que a alma tem oculto é dificultoso e angustiante. Como deixar a panela da sopa ao lume e por momentos de distracção ela sujar todo o fogão. Escrever é apelar aos sentidos, à memória e à alma e ainda ao facto de estarmos vivos. Por isso, tantas vezes o evitei e julguei não ser capaz. Escrevo com as mãos e estou escrevendo com o coração, num estilo regular e diferenciado, porque é a minha caneta e não a de outro.
Está silêncio no quarto e no entanto ouvem-se barulhos vários na rua, mas como o lá fora é diferente do cá dentro, o silêncio é rei. E assim a minha mente está em sossego, vazia de lembranças que ora fazem rir ora fazem chorar. Os fins de Outono querem adentrar-se em mim, porém embatem com o vidro da janela grande e eu vejo-os tomarem o caminho de regresso. Há calma no meu mar, que só é possível quando se anulam sentimentos e sensações, mas quando se existe quer-se respirar toda a vida e sentir toda a terra e acarinhar toda a água. Escrever é viver nas palavras e sentir exacerbadamente, não se pode ser escritor quando se quer ser neutro. Eu quero ser neutra e quero escrever sempre. Deste modo, sou uma plenitude de contradições e escrever é o que me custa mais, talvez seja por isso que gosto tanto. Lembra-me de um cão a quem fazemos carinhos e ele nos resmunga e logo a seguir nos lambe com euforia.
As letras são o meus rasto, pois todo o concreto se faz acompanhar por uma sombra. Guardo-as aqui e ali e serão o meu único vestígio quando as fotografias se ficarem esquecidas e a carne desaparecer dos ossos.

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