quarta-feira, 1 de julho de 2015

O homem que sabia voar


Numa rua de movimento muito reduzido junto à vedação de um prédio em construção, um carro de apoio aos sem-abrigo, a que se juntou um pequeno grupo de curiosos, uma Ambulância, bem como um carro da Polícia, podia ver-se o corpo de um homem, que aparentemente tinha caído desse edifício. O que causava estranheza à Polícia era o corpo ter caído à rua, aparentemente tinha sido alvo de um forte impulso que o levou a cair fora da vedação.
As Técnicas de Apoio Social estavam estupefactas, aquele era o Chico, a Psicóloga que fazia parte da equipa ainda se lembrava da última entrevista, para a caracterização do Chico e a definição de uma estratégia da sua integração social. Parco de palavras não mostrando nenhuma vontade de mudar de vida, sem queixas nem lamúrias mais do que conformado, feliz com a vida que levava. As perguntas eram quase sempre respondidas por monossílabos, e sem grandes discursos, ultimamente porém as conversas tinham algo de estranho. Entre referências a conversas com pássaros e a ideia de se libertar do corpo, uma lhe veio à mente. 
- Já conversamos há tanto tempo, já nos conhecemos bem, estou aqui para o ajudar a encontra um caminho para si, sempre deve haver alguma coisa que goste de fazer ou que saiba fazer bem.
- Sim há uma coisa que eu sei fazer bem. Sei voar.
A surpresa atingiu a Psicóloga de alto a baixo, uma resposta destas, trazia a lembrança casos de pessoas sem-abrigo de condição social inesperada. As suas perguntas, saíram em enxurrada. 
-Voar? Foi piloto? Esteve na vida militar? Onde aprendeu? 
- Não, voar como um pássaro, voar livre, apenas voar. 
Os olhos da Psicóloga, com algumas lágrimas teimosamente a correr, iam-se voltando para o seu caderno de apontamentos a que acrescentou algumas palavras, que nada tendo de científico testemunhavam, uma forma de viver nunca entendida. E leu o que foi escrevendo ao longo do tempo. 
Chico é um tipo estranho, uma idade indeterminada, provavelmente menos do que aparenta, mas a vida dura que tinha levado, deixou marcas profundas no seu aspecto. Nada disso o preocupava mas apenas o momento vivido, era como um pássaro a quem tinham destruído o ninho, ainda pequeno e que com poucas penas, apesar da dificuldade aprendeu a voar.
Conheceu diversos lares, casas de acolhimento, mas nuns casos a artificialidade da relação, noutros uma disciplina nunca entendida, fazia-o tentar, e na maioria das vezes conseguir, fugir e tomar a rua como o seu espaço o seu lar a sua tribo. 
No Verão os relvados de alguns jardins, serviam da mais confortável das camas um quarto cujo limite era infinito. No Inverno bastava um abrigo da chuva e do cortante vento do Norte, normalmente um prédio abandonado, como era o caso daquele momento, uma quantidade razoável de cartão, umas mantas que alguém deitava fora ou oferecia. 
Vivia com extraordinário deleite os dias de trovoada, uma sinfonia de sons e cores lhe era oferecida, não compreendia o medo da maioria dos “outros”. 
Com o tempo Chico foi-se isolando e vivendo cada vez mais para si próprio, sobrava-lhe as conversas que ia mantendo com os pardais. Principalmente um, um pardal sábio e já idoso, pode-se chamar idoso a um pardal? Com que idade morre um pardal, como se pode dizer que se é velho?- Pensava.
Passava horas a olhar para o céu e sonhava em ver a cidade lá alto. Tão real era o seu sonho que as nuvens o deixavam sem ar, apesar de não entender bem o que era ser uma ave. O local onde ultimamente vivia permitia ver a amplitude do céu e o voo das mais variadas aves. Não precisava de mais nada, a vida era completa. 
Uma coisa porém o preocupava, ultimamente na carrinha, que algumas vezes lhe fornecia alimento e mais alguma treta, viajava uma tipa, Psicóloga, diziam elas, que lhe fazia perguntas e mais perguntas. Queriam saber se ele estaria disposto a fazer parte de um programa de integração social, uma cena destas que não lhe serviria de nada. 
Fechava a boca ou respondia de má vontade, recebia o que interessava e ia à sua vida. 
- Já não se pode ser livre. – Pensava
As conversas com o seu amigo pardal eram cada vez mais frequentes e versavam os mais variados temas, quem os ouvisse, se isso fosse possível, lhes chamaria de loucos. 
- Que te preocupa? – Perguntou-lhe o pardal notando-lhe o ar pensativo pouco habitual nele.
- Já não se pode ser livre- disse em voz alta em resposta ao amigo pardal, e continuou - Estão sempre a perguntar-me o que sei fazer, sou livre, não sei fazer nada nem preciso, a liberdade tem o sabor de ser e estar como se quer e onde se quer.
O pardal mostrou-se atento, abriu ligeiramente as asas, olhou-o bem de frente e de repente exclamou:
- Já sei, vou-te ensinar a voar! Tu entendes a minha linguagem eu percebo a tua, vives livre como eu, por certo que aprenderás a voar. Em algum momento da tua vida já foste ave. Dentro de ti ainda pulsa esse espirito.
Ao ouvir isto Chico levantou-se de um salto, levantou, bateu os braços como se fossem asas e gritou para o pardal: 
- Como posso voar sem asas? Estou a ouvir bem o que estas a dizer ou estou a enlouquecer? 
- Chico, porque gritas tanto? Não é a falta de asas que te impede de voar, mas a tua mente que te prende ao chão, ainda não és totalmente livre, aprende a voar e atingirás a liberdade plena. 
Subitamente apoderou-se dele um desejo imenso de realizar o sonho, voar ver o mundo do alto, sentir a emoção de liberdade total. Estar onde desejasse, sem regras, sem limites, sem sinais, sem proibições.
- Quando começamos?- Exclamou decidido. 
O prédio onde vivia estava inacabado sem divisões, ele tinha escolhido o último andar, sabia que estava mais resguardado de visitas curiosas. O pardal mediu bem o espaço livre, pensativo foi dizendo: 
- Para começar este espaço serve. Começarás a voar aqui. Eu te ensinarei!
Com muita insistência do pardal que ele aprendeu a voar pequenas distâncias. Desabituado a exercícios físicos, sentia dificuldade nos seus voos e era muitas vezes vencido pelo cansaço.
Mesmo assim não desistiu e quando já estava confiante, aventurou-se a voar fora do prédio. Tirou a protecção de madeira de uma janela, olhou o céu e todo o espaço em volta e disse para o amigo:
- Que dizes de dar uma volta, ir e voltar?
O pardal olhou para bem dentro dele profundamente, para além dos limites do seu corpo, como se quisesse habitar a sua alma, dar-lhe espiritualmente as asas que Chico fisicamente não possuía.
-Sim, mas tem cuidado, ainda precisas de te libertar do teu corpo.
O primeiro voo foi curto e tímido, regressou uns segundos depois, respirou fundo e pensou, já sei que dizer às “gajas” da carrinha. Sabia voar.
O pardal olhou para ele e contente disse:
-Saíste-te melhor do que eu estava à espera, podes voar livre até ao infinito. Olha as estrelas, confunde-te com elas, Voa! - Ordenou imperativo. 
Chico chegou-se mais uma vez à janela, olhou o céu infinito, as estrelas que nele brilhavam, lançou-se vigorosamente no espaço e voou, voou, voou, até que sentiu o espirito separar-se do corpo, era finalmente livre, livre para a eternidade. 

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